Dia 85: Sobre o suicídio

Vendo um comentário da @tdbem, de anteontem, sobre as piadinhas sem graça a respeito da morte de Leila Lopes, comecei a me lembrar de algo que passamos no começo do ano, na faculdade.

Eu cheguei à escola atrasada – pra variar – e segui direto para a rampa, correndo para a sala, sem olhar para os lados. Foi só quando cheguei ao terceiro andar que vi toda a multidão acumulada nos corredores de todos os andares, em torno do pátio. Todo mundo olhando pra baixo, e eu sem entender. Cheguei perto da mureta e olhei pra baixo também. Havia uma moça caída. Assim que avistei minha turma, perguntei o que havia ocorrido. A primeira notícia que ouvi foi a de que ela havia caído, mas logo em seguida outra pessoa me explicou que ela tinha, na verdade, se jogado. Fiquei olhando as tentativas dos paramédicos de reavivá-la, torcendo para que conseguissem.

A princípio, pareceu surreal demais. Eu nunca havia passado – e nem imaginava que algum dia passaria – por uma situação dessas. A morte em si, aquela imagem da moça estatelada, não me chocou. A imagem da morte, por alguma razão, não me move. O meu abalo só veio mais tarde, ao ver o desespero da irmã dela, a primeira familiar a chegar ao local. Aí, sim, eu sofri junto.

No entanto, por mais que você não se comova com a situação, é uma mera questão de bom-senso respeitar o sofrimento de quem realmente se importa. Você não chega gritando que “ah, gente! Morreu, acabou, pronto! Que frescura, a de vocês!”, como eu vi acontecer quando a morte ainda nem havia sido decretada.

Mas o que mais me choca é a capacidade de alguém fazer piada com a situação, usando a desculpa de que se morreu, foi fraca; bem-feito pra ela.

Primeiro, meu amigo cara-pálida, suicídio não é covardia. Ao meu ver, precisa-se de muita coragem pra abrir mão da vida, ainda que você não veja mais nada de significativo nela. Você vai me desculpar mas, a não ser que você seja um sobrevivente de guerra, de câncer ou lute com uma depressão profunda, não vejo a menor razão pra você se gabar da sua ‘coragem’ de viver. Porque ela não existe.

É muito fácil eu chegar e dizer que fulano é um imbecil porque se matou, sendo que todo mundo tem problemas e nem por isso todo mundo se mata. Esse argumento chega a ser um atestado de burrice. Porque eu não sou rica, mas tenho um conforto privilegiado de classe média; tenho minha família; tenho amigos; tive uma boa educação e tenho boas chances de ter uma vida boa. A dimensão dos meus problemas é completamente diferente de alguém que não tem nada disso.

E isso me abala, essa coisa de as pessoas acharem que sabem o que se passa na vida dos outros, de que têm a solução mágica para todos os problemas de todas as pessoas. É por isso que eu dou toda a razão para a @tdbem: se você não perde a piada sobre alguém que entrou em depressão e se matou, você já perdeu todo o resto. E adiciono: quem deveria repensar a própria vida é você.

14 Responses para “Dia 85: Sobre o suicídio”

  1. Olá!
    Muito bacana a reflexão em torno do suicídio. Até por eu ter ponderado essa possibilidade por diversas vezes, penso que é uma mistura de covardia e coragem.

    Covardia no sentido de que, por maior que seja o(s) problema(s), por que desistir de enfrentá-lo(s)?

    Coragem pois é se atirar num abismo. independente das crenças que se tem, imagino que seja complicado para todos simplesmente desligar da tomada sem saber o que vai acontecer, e sabendo que não deixará para trás só os problemas.

    De qualquer maneira, acho bem insensível, para não dizer escroto, se fazer piadas com esse tipo de situação sem nem esperar a poeira baixar.

    Ah! Parabéns pelo blog. Gostei da disposição e da arte do topo, bastante audácia. Apesar de comprometer um pouco o foco na leitura.

    Um abraço!

  2. Thaís, eu tive depressão aos 14 anos. Pensei em suicídio, sim, mas me assustava o sofrimento que eu talvez pudesse causar nos outros. Passei pela depressão e anos depois, convivi com uma pessoa dentro de casa que não tinha ânimo nem para tomar banho. Essa pessoa não se matou porque não teve coragem, também. Olha, eu tenho grande respeito pela tristeza, pela depressão e pelo sofrimento dos outros. Esse povinho que faz piada com um fato desses não faz idéia do que seja isso. Lindo texto.

  3. Não concordo. Jason Becker é uma das pessoas vítimas do destino, tem um doença horrível chamada E.L.A.(Esclerose Lateral Amiotrófica) em que você vai perdendo os movimentos de seu corpo, e futuramente perderá até a fala, mas como o Becker é uma pessoa diferenciada, um “mito”; teve forças e consegue se comunicar com seus pais usando seu globo ocular, que é a única parte do corpo que se movimenta, e incrivelmente ele consegue compor, com a ajuda de seus pais, mas ele compõe, e mesmo com uma doença dessas ele diz que tem “amor a vida”. Sabe o que isso significa? Bom, acho que não, pois para abrir mão de sua vida, você é sim um covarde, ainda mais se fisicamente for perfeito.

    • Cada um reage de uma forma diante de seus problemas. Como garantir que você agiria da mesma forma que ele? Como você disse, ele tem ‘amor à vida’. E quem não tem? Ele tem o propósito dele pra viver. Nem todos têm isso. Cada um, cada um.

  4. Aí está o vídeo de como ele está atualmente, o “mito” Jason Becker.

  5. Não tem nem muto o que comentar sobre o assunto porque você já disse tudo.

    Adorei o texto e assim como vc, sempre encarei como um ato de coragem, mas com um misto de desespero.
    É muito triste pensar que existem pessoas que chegam a esse momento, em que não acreditam que não exista nada mais que tenha um pequeno valor para continuar, ou que talvez tenham uma dor interna tão forte que acabam desistindo de si e da vida.

    beijos

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