Dia 11: O caos de Beagá

Cidade grande me dá ojeriza. Por inúmeros motivos. Um deles, o trânsito.

Belo Horizonte não é diferente. Eu adorava a cidade quando cheguei aqui e não precisava sair do meu bairro tranquilo pra nada, a não ser pra ter toda a diversão universitária e semi-depravada que alguém pode ter. Deixei de gostar tanto assim depois que passei a precisar usar o transporte público rotineiramente.

Não tenho carro. Se tivesse, não dirigiria aqui. Em absoluto. Me recuso a dirigir em cidade grande. Já me estresso em cidade pequena, imagina nesse caos que eles chamam de trânsito. Por isso, tive que aprender a pegar ônibus, coisa que eu não fazia antes, já que tinha carro de pai, mãe, vó. Outra vantagem de cidade pequena é que você pode ir a todo lugar a pé. Aqui, não. E aí eu tive que me virar.

Poucas coisas me irritam mais que pegar ônibus. Duas coisas me irritam profundamente em pegar ônibus. Ambas relacionadas à falta de educação. Já ouviu falar da receptividade mineira? Esqueça. É balela. Você até encontra um bocado de hospitalidade no sul de Minas, provavelmente no norte, mas não em Beagá. Capital é capital. Aqui é no mata-mata.

A primeira coisa é que não importa quem você seja, velho e/ou doente, você vai ser atropelado na corrida pelo banco vazio. Eu faço estágio na Faculdade de Medicina da UFMG, um lugar rodeado de hospitais. Daí já dá pra concluir que os pontos de ônibus ao redor não têm exatamente as pessoas mais privilegiadas do mundo. Muita gente doente, muita gente idosa, muita gente doente e idosa, todo mundo muito pobre. Isso não importa. Os saudáveis, os que podem ir em pé, vão sempre sair correndo na frente. É um festival de cotoveladas e de gente fingindo que não vê quem tá na frente, quem vem atrás. Obviamente isso não é privilégio belorizontino, mas devido à minha pouca experiência no assunto, só posso falar do meu choque aqui.

A segunda  razão não é exclusiva dos ônibus ou mesmo dos transportes, mas vejo com frequência acontecendo com os passageiros: jogar lixo na rua. Hoje vinha um rapaz sentado a alguns bancos de mim. Ele abriu sei-lá-o-quê, fez uma bolinha com a embalagem, abriu a janela – e estava chovendo – e jogou fora. A lixeira estava ao lado dele. É ridículo. O pior de tudo é que eu não tive coragem de falar nada.

É uma cidade sofrida, essa. Você vê muitos contrastes. Pela janela do escritório do apartamento de um primo, em um prédio de luxo, é possível ver uma favela. Da primeira vez, não acreditei. É irônico. E é por isso que eu me seguro, penso no sofrimento e em como todas essas coisas que parecem tão grandes pra mim ficam minimizadas perto do que esse povo deve passar. Ainda assim, eu não consigo deixar de pensar o quanto essas coisas pequenas fariam alguma diferença. E que diferença, nessa cidade de contrastes.

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