Dia 37: Preconceito entre minorias

Hoje vi uma guria lésbica dizendo o quanto a história e a superexposição midiática do homem grávido a incomodava. Ela disse que não seria o primeiro caso e que a cobertura dele era excessiva. Na verdade, o que a incomodava não era tanto a mídia, era o fato de que ele não havia feito o ‘devido proveito’ da exposição em prol da causa LGBT.

Devo dizer que eu não acompanhei a história. Li uma ou outra coisa aqui e ali, mas foi só isso. Não sei se a cobertura foi justa ou excessiva, séria ou preconceituosa. Também não sei como ele agiu e quais eram suas intenções. Isso dito, posso continuar com minhas opiniões.

Primeiro, eu não entendo algumas pessoas. Como assim, superexposição? Se ninguém fala, reclama, e se alguém fala, reclama? Têm que falar, sim! E muito. A única razão para reclamar disso seria a forma como a mídia explorou o assunto. Se foi desrespeitosa, parcial e tendenciosa, aí sim. Tem que falar mesmo. Mas se a cobertura foi ok, então é isso que queremos, não? Que as pessoas saibam que existe um mundo não-hétero por aí e que aprendam a conviver e respeitar.

Segundo, eu não acho que seja dever de nenhuma lésbica, gay, bissexual ou transexual carregar bandeira. Eu faço e gosto. O movimento LGBT é parte da minha vida desde sempre. Mas não é porque eu sou bi, é porque eu gosto. Não é todo mundo que tem a paciência e o comprometimento. E é sempre desejável que a pessoa se posicione a respeito, mas é direito de qualquer um viver sua vida como deseja, inclusive sem carregar um arco-íris cada vez que sai na rua.

Por fim, existe uma outra coisa que a incomoda: a transexualidade em si. Ela diz que é muito injusto que uma pessoa tenha que mudar de sexo para se sentir aceita na sociedade. Por exemplo, uma mulher que quer ser aceita como homem. Que não se contenta em ser uma mulher masculina. Argumenta que sexo e gênero são coisas distintas e que deveriam ser encarados dessa forma pela sociedade, de modo que qualquer pessoa possa adotar o gênero que lhe covenha, independentemente do seu sexo biológico. [Eu estou resumindo e simplificando muito a fala dela, mas é muita coisa pra entrar aqui agora, então estou buscando dar a idéia geral.]

Até aí, eu concordo. Não com a rejeição da transexualidade, mas com a necessidade de abertura da sociedade para a flexibilização da identidade de gênero. O problema é quando ela diz que uma pessoa se torna transexual para obter benefícios sociais. Oi?

Isso é reduzir infinitamente tudo o que um/a transexual passa. A rejeição de si mesmo, a rejeição da família, a rejeição da sociedade, os psicólogos, os hormônios, as cirurgias, as mudanças. Todas as mudanças. Porque um transexual pode até se passar por um homem ou mulher por nascimento para estranhos, mas o seu círculo primário conhece toda a história. E muitas vezes ele ou ela tem que mudar de cidade, estado, país.

Me incomoda que alguém diga que o homem grávido não tenha feito uso apropriado da exposição na mídia quando a sua própria imagem era exposição suficiente para a nossa sociedade ocidental cristã e conservadora. Aliás, será que ela mesma usou a imagem dele de forma apropriada? Será que conversou sobre isso sobre quem não sabe nada do assunto, orientou, combateu algum preconceito? Ou ficou só repetindo o quanto odeia o homem grávido que não fez nada (!) pela causa LGBT?

Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

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2 pensamentos sobre “Dia 37: Preconceito entre minorias

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