Dia 63: Eu, feminista

Mexendo em coisas antigas, eu acabei encontrando um texto que escrevi e já nem me lembrava mais. A verdade é que não gosto de reler nada do que eu escrevo. Sempre tenho medo de sentir vergonha. Mas li. E acho que ainda me representa bem, apesar de tê-lo editado e suprimido algumas coisas que achava desnecessárias. Então resolvi postar. Devo avisar que é longo. Às vezes eu me empolgo.

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“Eu sou feminista!”

Isso sou eu, do alto da minha sabedoria dos nove ou dez anos de idade. Obviamente, na época eu não devia pensar mais do que “é alguma coisa em que a gente pode chutar os traseiros dos homens, então é legal”, mas eu já sabia que estava ali defendendo algo que era meu.

Ser feminista foi uma coisa que eu nem nunca contestei. Eu simplesmente sempre fui. Não sei quando começou, não sei por quê. Algumas mulheres dizem que têm ‘cliques’, percebem o quanto elas e outras à sua volta são constantemente oprimidas e buscam algo que as tire desse inferno. Eu não. Não sei o que foi. Nas minhas lembranças mais antigas de criança eu não devia ter mais do que três anos, e já lá eu era ‘diferente’. Gostava de bonecas e vestidos e maquiagens como me foi ensinado a gostar e a todas as outras meninas desse mundo. Mas tinha mais. Eu gostava de coisas que eram consideradas ‘de menino’.

Quantas vezes eu não fui reprimida por gostar dessas coisas? Talvez tenha sido isso! De tanto ouvir os outros me barrarem em diversas situações por ser menina, eu provavelmente passei a procurar instintivamente uma maneira de me permitir.

Provavelmente, em algum momento entre esses anos de luta solitária, eu tenha achado graça e ficado maravilhada ao descobrir que não estava sozinha entre as garotas ‘bem-comportadas’ à minha volta. ‘Feminismo’. Não sei quando foi que eu ouvi isso. Eu só sei que eu disse essa frase aí do título, e que aquilo me dava um orgulho tremendo e me dava a maior motivação pra seguir em frente. E é por isso que eu nunca questionei. Sempre foi algo meu. E sempre de todas as mulheres. Eu passei a vida tentando mostrar para algumas garotas o quão mais elas poderiam ser além daquele esforço todo pra aparecer.

Até então, eu também nunca tinha sido questionada. ‘Xingada’ (feminista é xingamento, viu?), constantemente assediada, sofrendo tentativas de humilhação, olhada de maneira torta por meninas que sentiam dor demais pra acreditar que existia uma saída real. Isso, sim. Mas a minha posição de feminista, não. E, quando aconteceu, saiu de onde eu menos esperava.

Como a internet é um dos meios mais fantásticos que existem pra encontrar pessoas que compartilham o seu ponto de vista, eu sempre fui ativa em fóruns. Com a chegada do Orkut, então, alegria total. Foi aí que eu descobri a infinidade de feminismos que existem. Foi aí também, que pela primeira vez apontaram o dedo para mim e questionaram a ‘veracidade’ do ‘meu’ feminismo. Como partia de pessoas que eu respeitava e tinha como referência, eu caí.

Eu como carne. Não acho que todo homem heterossexual é um torturador. Não acredito em sexualidade meramente política (a palavra aí nem é ‘acreditar’; é mais uma questão de não achar que isso deva ser uma obrigação de todo e qualquer ser humano). Eu também não sou exatamente de esquerda, então, obviamente, eu sou um monstro do patriarcado.

Pela primeira vez na minha vida, aos vinte e dois anos de idade, eu me questionei se era realmente feminista. Eu lutava por mulheres, fazia o que podia pra contribuir, mas eu não era vegan, tinha atração (também) por homens, era uma ‘direitista’ (porque quem não é declaradamente de esquerda é automaticamente de direita) cretina, então, claro, como eu poderia ser feminista nessas condições?!

Demorou um pouco até eu perceber a contradição das contradições que jogavam pra cima de mim: eu era mulher, eu lutava por mulheres, pra que todas tivessem voz, mas eu não poderia ter a minha porque, bem, eu estava longe do ideal. Mais do que isso, estavam tentando me obrigar a seguir um modelo, tal qual a sociedade vigente sempre tentou fazer.

Eu nunca me senti tão feliz quanto quando finalmente percebi isso. Foram-se as amarras que me faltavam. Eu não seguia o padrão feminino. Eu seguia o que eu sentia ser. Mas ao mesmo tempo eu tentava e almejava ser o que eu via e acreditava ser a representação ideal de uma revolucionária, ainda que sem perceber. E eu me senti bem entendendo que eu podia ser eu. Que eu tenho falhas, assim como as outras, e que meu jeito de lidar com elas não era exatamente errado, apenas diferente. É uma coisa tão óbvia, tão clichê, e mesmo assim tinha passado batido por tanto tempo.

Isso me fez mais tolerante com relação às garotas que estão chegando agora, ou mesmo aquelas que não acreditam no mesmo que eu. E agora eu vejo várias meninas passando pelo mesmo. Entram e se sentem deslocadas. Têm medo da sua própria opinião. Querem fazer algo, mas não sabem por onde começar. Fogem das garras de uma sociedade machista pra cair nas recriminações de um feminismo que já sofreu tanto que já não sabe como conciliar todas as definições que surgiram, nem educar a variedade de meninas que chegam sem obrigá-las a seguir mais um padrão.

Ainda que me digam que a individualidade seja uma forma de manipulação do ‘sistema’, eu continuo acreditando que não tem nada mais igualitário do que respeitar a diversidade e a diferença alheia. E ainda que me digam que eu não sou feminista – o que, afinal, acabou se provando ser uma opinião compartilhada por uma minoria entre as que eu conhecia -, eu nunca vou deixar de ser. Podem me tirar o título, podem me chamar do que quiserem. Não é o nome que me faz. É o que eu faço e o que eu escolho. E eu escolho viver por mulheres. Não é disso que o feminismo deveria se tratar, afinal?

(11 de março de 2009)
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2 pensamentos sobre “Dia 63: Eu, feminista

  1. Lindo seu texto..não sei seu nome, nem sei quem vc é…mas te encontrei no twitter falando de novelas, nem sei como te encontrei, acho em um desses RTs da vida. Logo eu que detesto novelas..realmente as detesto…comecei a te seguir por causa delas..ironia, né?

    Não gosto de “ismos”, nunca gostei…todos os “ismos” que encontrei na vida, foram repressores de alguma forma. Por isso nunca tive religião, partido, grupos…
    Até nos meus dois trabalhos, tenho problemas em me encaixar, sou psicóloga mas tenho maior problemas com os piscologisismos, sou prof de yoga e fujo de muitas coisa que os prof de yoga achem que temos que ter de semelhante.
    Meu nome é Ludmila, e meu pai, um comunista das antigas, me apresentava qdo eu era criança, assim: Essa é Ludmila que significa: amada pelo povo! Por causa disso, na adolescencia, fiz de tudo para q todos os me detestassem…bobeira..
    Não sou detestável por todos…nem amada…nem nada…
    Hoje sou feliz em ser Ludmila, uma mulher…e adoro isso…adoro ser mulher, adoro estar com mulheres, adoro trabalhar com elas..adoro o mundo feminino…(só tenho filhos homens)….
    Nem sei pq estou te escrevendo isso…, mas acho q de alguma forma me identifiquei…detesto que me aprisionem em rótulos, e que por conta das projeções alheias, me cobrem ser assim ou assado…
    Uma vez descobri a palavra mágica da minha vida, e ela é “TAMBÉM”, toda vez que alguém me diz algo tipo: poxa, vc é tão calma; eu responde: também. Vc é tão assim ou assado; respondo: TAMBÉM! Sou tb isso, mas não espere que eu seja sempre isso!!!!

    beijos!!!!

  2. Pingback: O Feminismo & Eu.

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