Dia 167: 9 ½ Semanas de Vadiagem

Aí amanhã (ou hoje, como queiram), para o bem de todos e felicidade geral da nação (NOT!), eu volto pra BH. É, acabou a festa. Segunda-feira começa tudo de novo. Vou matar a saudade do povão. O Hugo, pelamordedeus, mal aproveitou as férias de tanta saudade (NOT! 2)!

Eu queria escrever, na verdade, algo decente hoje, mas, né?, não deu. Gastei a noite ensinando minha vó a entrar em sites e dando um jeito de enfiar na mala os 9 pacotes de miojo e molho que ela resolveu me mandar. Porque eu tô fraquinha (NOT! 3).

Ainda não sei o que vou – e se vou – fazer alguma coisa no fim de semana, porque agora eu preciso botar a vida de pé de novo. Mas estamos aê para ligações. Meu número é o mesmo, mas os meus cabelos…

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Dia 166: De Costas para o Mundo

Anteontem eu terminei de ler ‘De Costas para o Mundo’, de Åsne Seierstad.

Quis ler por: 1. ter gostado de ‘O Livreiro de Cabul’ – embora eu ainda não tenha lido a resposta, ‘Eu Sou o Livreiro de Cabul’, que é fundamental para eu ter uma visão mais definida do livro; e 2. minha (não tão) recém-adquirida eslavofilia pediu.

Seierstad é jornalista. Por ser correspondente de guerra, tem uma boa experiência no Oriente Médio e nos Bálcãs. Em 1999, foi para a Sérvia cobrir os conflitos com o Kosovo, onde entrevistou e observou uma série de pessoas, bastante diversas, sobre os seus pontos de vista com relação à guerra, como afetava suas vidas, suas esperanças, etc. O resultado disso foi publicado na Noruega em 2000.

Seierstad continuou visitando-os em momentos chave para a Sérvia, como a derrota de Milosevic para Kostunica e sua consequente prisão. O livro foi expandido em 2004.

‘De Costas para o Mundo’ se trata basicamente disso. Pessoas diferentes e o impacto que a guerra e a troca de regimes teve na vida delas. A visão da jornalista não escapa de ser ocidental, fica implícita uma certa ironia ou piedade em determinados momentos.

A coisa mais curiosa foi a música que ela gravou com o cantor Rambo Amadeus! Ele disse que só faria parte do livro dela se ela participasse de um CD dele. Feito. Ela gravou uma música tradicional norueguesa que havia cantado pra ele tempos antes, ‘Eg rodde meg ut på seiegrunnen‘. Isso foi obviamente misturado com uma pá de coisas até render a versão final, a Laganese. Como eu não entendo sérvio e min norsk er dritt, é melhor a própria explicar:

Canto “Eg rodde meg ut på seiegrunnen” em diferentes versões. Alto, baixo, alegre, sombrio, devagar, rápido.

– Me conte uma história sobre um farol que se apaixona por uma plataforma de petróleo – pede Rambo. E engreno numa história bem incoerente em norueguês. Depois me pedem para interpretar os dois pescadores da música. Primeiro o irritado, o que bate, e depois a vítima, o que apanha.

[…]

Para os meus ouvidos a música soa como a coisa mais kitsch que já ouvi. Minha canção de pesca é acompanhada por gritos de gaivotas e barulho de ondas, e acrescentam a história da plataforma e do farol e a luta entre os pescadores. A minha voz está misturada à de Rambo, que tenta estabelecer contato. “Você é estrangeira? Da Hungria? Inglaterra? Não quer falar comigo?” Eu apenas continuo cantando e contando histórias. (pp. 349-350)

Outra curiosidade é que uma das mulheres que aparecem no livro é citada assistindo uma novela brasileira. Escrava Isaura, talvez?

Seierstad diz que a impressão que ela tem dos países balcânicos é que eles sempre se veem como vítimas. Nunca admitem que começaram qualquer guerra, sempre jogam a culpa uns nos outros. Isso fica evidente na fala dos personagens durante todo o livro. E achei engraçado, porque a minha música favorita do Bleiburg, Krizni Put, tem a mesma postura; “pobre Croácia”.

Não tenho nenhum grande conhecimento sobre a Sérvia para avaliar se o livro é justo. Até agora, também ninguém escreveu uma resposta, como fez o livreiro afegão. O que posso dizer é que é entretenimento misturado à geopolítica. Pra tarados por Europa como eu, prato cheio.

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SEIERSTAD, Åsne. De costas para o mundo: retratos da Sérvia. Rio de Janeiro: Record, 2007. 366 p.

Esse livro veio coroar a minha (não tão) recém-adquirida eslavofilia

Dia 165: BBB: Paredão nº 7 – O Final

Embora muita gente – a maioria, eu arriscaria dizer – justifique suas torcidas com ‘é só um jogo!’ ou critiquem dizendo que BBB não vale nada, não é assim que eu penso. Penso, aliás, que é uma grande bobagem para um letrado dizer. Porque é mais do que sabido que a TV influencia massas, como bem lembrou o Jean Wyllys.

O BBB, pra mim, não era só brincadeira, diversão. Era também. Aliás, foi assim que começou. Mas com o tempo surgiram situações que exigiam posicionamento. Pra uma população alienada politicamente, é fácil ignorar; ra mim, não. Porque, querendo ou não, cada ofensa homofóbica ali me atingia também. E cada vez que alguém aqui fora aplaudia ou ignorava essas atitudes em pró do ‘jogador’, estava endossando o que era dito ou feito.

O Dourado é um grande desserviço. Como já disse antes aqui outras vezes, eu entendo a empatia; não entendo como se pode ignorar certas atitudes. Já no primeiro dia eu senti que não deveria esperar muito quando ele declarou a primeira de muitas pérolas. Naquela época, eu ainda pensava que ele sairia logo. Não saiu. E aí ficou claro que não sairia mais.

A única esperança era o embate com a Morango, que era a única que ainda dava um páreo. E o que eu senti, no final, foi que a intenção de tirar a Angélica já era grande e velha nas pessoas, e que só seguravam os comentários maldosos porque ela estava abraçando o Dourado. Porque, vejam só, foi só ela desafiar o sujeito que argumentos anti-homofobia, anti-machismo e anti-violência foram pisados com 55% dos votos por gente que acreditava que ela tinha que sair porque era ‘fofoqueira’ e ‘bigoduda’.

Esse paredão não só serviu pra me mostrar que a argumentação brasileira anda fraca. Serviu também pra saber que dá, sim, pra mobilizar um mundo inteiro – ainda que não tenha sido suficiente. AfterEllen, com a Trish Bendix, e o Equal Roots foram altamente atenciosos, ao menos comigo; depois correu a bola de neve e o The Advocate também entrou na roda; até o – vejam só! – Boy George deu um pitaco. Ainda correram pelo Twitter notícias vindas do México, Bélgica e Itália. Valeu só por isso.

E, pra mim, como era de se esperar, o BBB acaba aqui. Não sei se vou continuar assistindo, quanto mais comentando. Hoje foi final. Em número de votos e em paralização nacional. Daqui pra frente a gente conhece o enredo. E eu não tenho coração pra ver o que acontece.

Eu fiquei triste, sim, porque vi ali a cabeça brasileira. E finalmente entendi que não vou viver pra ver nada diferente disso. Vem pra gente, Morango. Tchau, BBB. Um abraço pra quem fica.

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Update: Só mais um agradecimento a algo que eu acabei de receber por e-mail.

Update 2: Dois posts me deram ânimo hoje: o da Haline e o da Mary W. Aliás, fui citada pela última. Já dá pra morrer, né? Outra coisa boa foi o The Advocate lamentando o resultado do paredão. E reparem que em alguns comentários há estrangeiros se posicionando. Coisa boa.

Dia 162: BBB: Dourado: Caso de MP

Este é o tão falado e polêmico vídeo em que o Dourado insinua que ‘quebraria os dedos’ da Morango caso as circunstâncias fossem outras. Isso ocorreu no dia 17, se não me engano, e só hoje o vídeo caiu no YouTube, de onde foi deletado inúmeras vezes – por quê?, se a tal ‘Máfia Dourada’ tá dizendo por aí que quem não deve, não teme? -, até alguém transferir para o Dailymotion.

O Ministério Público está recebendo denúncias contra o Dourado por ‘Incitação ao Crime’ (CP, art. 286), após o ocorrido.

Este assunto tem me cansado enormemente, porque o pessoal já levou pro lado do fanatismo e se esqueceu do bom-senso. Eu tenho lido todas as argumentações pró-Dourado que encontro, porque não quero cair no erro de ignorar fatores importantes, mas de fato não encontro nada que justifique sua defesa. Ao meu ver, ele é, sim, culpado de homofobia (em outras situações) e incitação à violência.

Quando o vídeo começou a correr, correu um calafrio na torcida do Dourado. Por um momento, eles se preocuparam. Em seguida, começaram a dizer que não há nada no vídeo que comprove incitação ao crime e que ele teria apenas ‘sugerido, em um momento de raiva’, bater na Angélica caso ela fosse homem.

Atenção ao grifo, pois ele é importante. Alegar que ele não bateria na Morango porque ela é mulher não anula a incitação. Violência é crime em qualquer dos casos, independendo do sexo do agressor ou do agredido. A acusação de incitação não vem pela ‘ameaça’ contra a guria, e sim por ele ter defendido esta postura como solução para um problema.

No vídeo, o Dourado diz que um homem não apontaria o dedo na cara de outro por saber que “teria volta” e justifica sua não-agressão mostrando que: 1. a Morango é mulher, e ele não bate em mulher – sendo que ele já tinha declarado que bateria em qualquer pessoa, homem ou mulher, que ‘chegasse’ na sua namorada; e 2. porque ele está dentro do programa e seria expulso se o fizesse. Ou seja, sendo as circunstâncias outras, ele não teria problema algum em levar a agressão adiante.

Por fim, a alegação de que era um momento de raiva também é delicada. Porque, num momento de raiva, longe das câmeras, ele também poderia ter explodido além das palavras, como ele mesmo insinuou.

De verdade, não tenho esperanças de que o Dourado não vá ganhar essa edição. Já está decidido pelo público, incentivado que foi pela emissora. Resta esperar que o MP preste atenção ao caso e tome as medidas cabíveis, caso entendam que há fundamento nas denúncias. O que não pode é a Globo fingir que não aconteceu, tentar apagar as provas e apresentá-lo como bom moço.

Dia 161: Links

Pontifícia Academia para a Vida pede a renúncia do Arcebispo Fisichella. Sim, é aquele que defendeu o aborto na menina brasileira de 9 anos que foi abusada pelo padrasto, engravidou e, ao abortar, foi excomungada. Aqui, a mesma notícia, em inglês e em site católico; aqui, a carta aberta divulgada pela academia, em inglês; e, aqui, a carta do arcebispo, que gerou a polêmica, em português.

Ainda sobre a Igreja Católica: a arquidiocese de Washington, que havia ameaçado suspender seus programas assistenciais caso uma lei pró-casamento gay não fosse alterada – e não foi -, cumpriu o prometido. Cortou todos os programas. Ambos os links em inglês.

BBB: Mais dois ótimos textos sobre o comportamento contraditório e agressivo de Dourado.

Feminismo: A Marcha Mundial das Mulheres vai acontecer hoje (20), às 14:00.

Brincadeira: Uma dica engraçada da Gogu, do Reino D’Almofada, para encurtar links deixando-os ‘suspeitos’.

Dia 160: O BBB da discórdia

Eu nunca pensei que ficaria aborrecida por causa de um reality show do qual eu não participo e que, teoricamente, não muda em nada a minha vida. Mas a verdade é que esses programas escondem – ou revelam – coisas muito reais. Eles podem até ser – e são – combinados, manipulados. Mas mostram coisas nossas, comportamentos, visões, ideologias, pensamentos incutidos durante séculos.

Há algum tempo, quando me exasperei com o pessoal que critica quem assiste o BBB, disse que aquilo é uma diversão, uma competição saudável entre quem assiste, um jogo de futebol. Bem, nem sempre. Não quando passa da torcida animada para a torcida ignorante. Ignorante no sentido mais literal da palavra; o que ignora.

No começo, quando começaram as torcidas para o Dourado, eu nem liguei. Não gostava dele por diversos motivos, mas, né, tesão é tesão, eu pensava. A torcida dele que eu acompanho é toda feminina, hétero e declaradamente atraída por ele. Sem exceções. Mas aí o cara vem e dá N motivos pra ser vaiado e as pessoas ganham outras N oportunidades para dizer ‘opa! Pera lá! Isso, não!’, e não acontece. Preferem insistir no erro.

Ou não é erro? Vai ver é identificação, vai ver concordam. Tá. Cada um, cada um. Aí o erro foi meu de ter, de alguma maneira, me identificado com essas pessoas? Vai ver.

Não me refiro à massa que só assiste a edição do Boninho. Ou, de repente, algum telespectador de passagem, que só tem tempo ou humor pra ver aquela uma horinha – porque ninguém é obrigado a ser à toa como eu e ficar acompanhando tudo – e que deve estar me chamando de drama queen. Tô falando é dos outros viciados, que pagam PPV ou assistem piratão ou ficam acompanhando via Twitter.

Tem gente que acha que falar da suástica é drama. Tudo bem. “Não é suástica, é manji.” Tá bom. Como existe essa polêmica, nem questiono. Mas daí a ouvi-lo dizer que bateria em qualquer pessoa que cantasse a sua namorada e achar normal me espanta. O pessoal mais indignado fez questão de frisar que ele disse ‘homem OU MULHER’, mas não é o que me aterroriza. Homem ou mulher, agressão é agressão. Me desculpe quem não acha isso, mas não acho que bater em homem seja mais desculpável que bater em mulher. Violência é violência, e eu não incentivo briga de machinhos.

Também disse que, se não estivesse na frente das câmeras, teria batido na Morango até mandá-la para o hospital. É pouco pra vocês? Então adicionem a super pérola que ele conseguiu proferir sobre a AIDS: heterossexuais não pegam.

O cara tem uma suásti… ops! um manji!, é homofóbico, machista e agressor. E ainda assim é pouco.

E aí nós, que não achamos isso bonito, é que passamos por doidos ou histéricas, porque nem o Boninho nem a Globo.com se comprometem a divulgar as barbaridades do seu favorito. Esse é mesmo o BBB do Dourado. Vai ganhar de lavada, apadrinhado não só pela massa do programa editado, como também pela ‘elite intelectual’ que acha um charme a ogrice dele e desculpa tudo alegando ignorância. Bom, a desculpa da ignorância é falha, segundo o pai do próprio, que diz que “o Marcelo foi criado no meio de homossexuais”, porque ele, o pai, é ‘homem de esquerda’, e a mãe, artista. O mais legal de tudo é que o ‘homem de esquerda’ disse isso pra livrar o filho da acusação de homofobia e acusar os outros de serem heterofóbicos. Não só falou um artigo inteiro de baboseiras como ainda destruiu o argumento de quem defende o filho. Fail ou Win?

(Ah, e devo lembrar que convivência com gays não necessariamente resulta em tolerância. Só no velho e cretino argumento: ‘Não sou homofóbico! Até tenho um amigo gay!’)

No fim, quem dança é a Morango, que foi a única que teve coragem de peitar o cara, bancando perder todos os fãs dele, e cujo maior demérito, segundo os depilados do Twitter, é ter bigode. Talvez ela tenha feito do modo errado, com os argumentos errados, mas fez, sim, a coisa certa. Mas como tem gente que já disse isso de forma muito melhor do que eu poderia dizer, passo a bola. E confio que alguém ainda vá perceber a contradição que é se dizer pró-LGBT e apoiar um cara desses. Sem mais.