Dia 166: De Costas para o Mundo

Anteontem eu terminei de ler ‘De Costas para o Mundo’, de Åsne Seierstad.

Quis ler por: 1. ter gostado de ‘O Livreiro de Cabul’ – embora eu ainda não tenha lido a resposta, ‘Eu Sou o Livreiro de Cabul’, que é fundamental para eu ter uma visão mais definida do livro; e 2. minha (não tão) recém-adquirida eslavofilia pediu.

Seierstad é jornalista. Por ser correspondente de guerra, tem uma boa experiência no Oriente Médio e nos Bálcãs. Em 1999, foi para a Sérvia cobrir os conflitos com o Kosovo, onde entrevistou e observou uma série de pessoas, bastante diversas, sobre os seus pontos de vista com relação à guerra, como afetava suas vidas, suas esperanças, etc. O resultado disso foi publicado na Noruega em 2000.

Seierstad continuou visitando-os em momentos chave para a Sérvia, como a derrota de Milosevic para Kostunica e sua consequente prisão. O livro foi expandido em 2004.

‘De Costas para o Mundo’ se trata basicamente disso. Pessoas diferentes e o impacto que a guerra e a troca de regimes teve na vida delas. A visão da jornalista não escapa de ser ocidental, fica implícita uma certa ironia ou piedade em determinados momentos.

A coisa mais curiosa foi a música que ela gravou com o cantor Rambo Amadeus! Ele disse que só faria parte do livro dela se ela participasse de um CD dele. Feito. Ela gravou uma música tradicional norueguesa que havia cantado pra ele tempos antes, ‘Eg rodde meg ut på seiegrunnen‘. Isso foi obviamente misturado com uma pá de coisas até render a versão final, a Laganese. Como eu não entendo sérvio e min norsk er dritt, é melhor a própria explicar:

Canto “Eg rodde meg ut på seiegrunnen” em diferentes versões. Alto, baixo, alegre, sombrio, devagar, rápido.

– Me conte uma história sobre um farol que se apaixona por uma plataforma de petróleo – pede Rambo. E engreno numa história bem incoerente em norueguês. Depois me pedem para interpretar os dois pescadores da música. Primeiro o irritado, o que bate, e depois a vítima, o que apanha.

[…]

Para os meus ouvidos a música soa como a coisa mais kitsch que já ouvi. Minha canção de pesca é acompanhada por gritos de gaivotas e barulho de ondas, e acrescentam a história da plataforma e do farol e a luta entre os pescadores. A minha voz está misturada à de Rambo, que tenta estabelecer contato. “Você é estrangeira? Da Hungria? Inglaterra? Não quer falar comigo?” Eu apenas continuo cantando e contando histórias. (pp. 349-350)

Outra curiosidade é que uma das mulheres que aparecem no livro é citada assistindo uma novela brasileira. Escrava Isaura, talvez?

Seierstad diz que a impressão que ela tem dos países balcânicos é que eles sempre se veem como vítimas. Nunca admitem que começaram qualquer guerra, sempre jogam a culpa uns nos outros. Isso fica evidente na fala dos personagens durante todo o livro. E achei engraçado, porque a minha música favorita do Bleiburg, Krizni Put, tem a mesma postura; “pobre Croácia”.

Não tenho nenhum grande conhecimento sobre a Sérvia para avaliar se o livro é justo. Até agora, também ninguém escreveu uma resposta, como fez o livreiro afegão. O que posso dizer é que é entretenimento misturado à geopolítica. Pra tarados por Europa como eu, prato cheio.

.

SEIERSTAD, Åsne. De costas para o mundo: retratos da Sérvia. Rio de Janeiro: Record, 2007. 366 p.

Esse livro veio coroar a minha (não tão) recém-adquirida eslavofilia
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