Dia 178: Parte I: Das mulheres

Dia da Mulher, pra mim, é um perfeito desastre. O foco fica nos presentes, nas rosas, nos eletrodomésticos, nos cosméticos; todo mundo ignora o machismo nosso de cada dia e finge advogar a igualdade de gêneros; ninguém discute nada e, quando discute, a culpa cai sempre nos ombros das mulheres.

A entrevista da Mary Del Priore, por exemplo. Ela diz coisas interessantes, coisas que de fato precisam ser questionadas, como essa necessidade absurda que as mulheres brasileiras têm de ser perfeitas, apelando pro espelho. Ela diz bem: “o espelho é a nova submissão feminina”.

Até aí, eu concordo. Mas, conforme a entrevista evolui, muitas coisas vão saindo do foco e as mulheres acabam sendo as principais – se não únicas – culpadas de sabe-se lá quantos mil anos de opressão. Um exemplo:

A tirania da perfeição física empurrou a mulher não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação. Ela precisa se identificar com o que vê na mídia. A revolução sexual eclipsou-se diante dos riscos da Aids. A profissionalização, se trouxe independência, também acarretou stress, fadiga e exaustão. A desestruturação familiar onerou os dependentes mais indefesos, os filhos. [Grifo meu.]

Isso é fato. Prejudicou mesmo os filhos. Mas a afirmação é perigosa. Pode ter sido a edição da revista, mas, do jeito que foi colocada, dá a impressão de que a culpa é da mulher, que saiu de casa para procurar emprego. ‘A profissionalização trouxe independência, mas prejudicou os filhos’. É preciso ter cuidado ao falar da profissionalização feminina, pois um deslize bota a culpa toda nela. Cadê o pai presente, assumindo os 50% de espaço que a mãe desocupou?

Outra coisa que me desagradou:

Istoé – Há saída para a condição da mulher de hoje?
Mary Del Priore – Em países onde tais questões foram discutidas, a resposta veio como proposta para o século XXI: uma nova ética para a mulher, baseada em valores absolutamente femininos. De Mary Wollstonecraft, no século XVIII, a Simone de Beau­voir, nos anos 50, o objetivo do feminismo foi provar que as mulheres são como homens e devem se beneficiar de direitos iguais. Todavia, no final deste milênio, inúmeras vozes se levantaram para denunciar o conteúdo abstrato e falso dessas ideias, que nunca levaram em conta as diferenças concretas entre os sexos. Para lutar contra a subordinação feminina, essa nova ética considera que não se devem adotar os valores masculinos para se parecer com os homens. Mas que, ao contrário, deve-se repensar e valorizar os interesses e as virtudes feminina s. Equilibrar o público e o privado, a liberdade individual, controlar o hedonismo e os desejos, contornar o vazio da pós-modernidade, evitar o cinismo e a ironia diante da vida política. Enfim, as mulheres têm uma agenda complexa. Mas, se não for cumprida, seguiremos apenas modernas. Sem, de fato, entrar na modernidade. [Grifo meu.]

Essa é uma ladainha antiga e mais usada por não-feministas. Essa ideia de que ‘mulheres querem ser como os homens’. Não, mulheres não querem ser como homens. Só não querem precisar ser flores-perfumadas-que-jogam-futebol-de -salto-alto-e-não-suam o tempo todo. Eu não quero precisar ser sensível e chorar por qualquer coisa, não quero ter que gostar de flores e cachorrinhos e bebês só porque alguém acha que é assim que tem que ser.

Valorizar características ditas femininas? Claro! Concordo totalmente. Valorizar tarefas domésticas, sentimentos, etc. Apoio tudo. Só queria que não fossem femininas. Não acho que vamos conseguir alguma coisa separando tudo em caixinhas cor-de-rosa ou azuis. Amor é mulher, sexo é homem. Tão clichê. Por que a gente não vê as pessoas antes do sexo?

Outra tecla em que a autora bate incessantemente é a de que o corpo da mulher sofre com tanta modernidade e que a causa dessa vaidade desenfreada é justamente toda essa rotina louca que se enfrenta hoje em dia. Sofre, sofre sim. Ter que cuidar da casa, dos filhos e trabalhar não deve ser tarefa fácil. Mas de novo, cadê homem aí? Por que é que a culpa é dela? E ela é vaidosa pra compensa tudo isso? Não seria, então, se fosse só dona-de-casa? Então não existia um ideal antigamente?

Vejo que a vaidade hoje em dia só tem proporções maiores do que há cinquenta anos porque o consumo foi obviamente facilitado. Mais empresas, mais produtos, mais acesso, mais publicidade, mais estrelas de cinema para se espelhar, mais cobrança. Você só não é linda, maravilhosa, gostosa, bem-vestida e com aquele cabelo sexy de propaganda de shampoo porque não quer. Logo, se você não faz, você é desleixada. É isso que se prega.

Existe responsabilidade feminina, sim. Não somos bonecas. Pensamos, portanto, devemos assumir as consequências do que fazemos. A questão é que parte da responsabilidade nos cabe e como vamos fazer para reverter os danos. Choramingar não adianta. Dizer que as mulheres são culpadas por tudo e que não fazem nada é ignorar mais de 100 anos de movimento feminista. Coisa que, como ‘especialista em questões femininas’, Del Priore não deveria fazer.

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Textos pro dia de hoje (posto outros conforme forem surgindo):

Troca-se rosa por salário decente, da Lola;

Dispenso esta rosa, da Marjorie, que foi usado em blogagem coletiva no ano passado e virou texto obrigatório para o dia;

Ações no DF, da Bia, com ações no Distrito Federal que começaram hoje.

Recife, Estocolmo, Washington e Seul: O Dia das Mulheres nas “Minhas” Cidades, da Denise.

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3 pensamentos sobre “Dia 178: Parte I: Das mulheres

  1. Pingback: Dia 195: Ad aeternum « Tata Lombardi

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