Dia 209: Humor babaca

Quando eu decidi vir pra Belo Horizonte, não conhecia ninguém. Conhecia umas duas ou três garotas da internet, mas só. Perto do vestibular, no entanto, eu recebi um presente do céu: uma prima um pouco distante, a Bela, que eu não conhecia e de quem eu nem tinha ideia da existência até então, me achou no Orkut. Deixou recado dizendo que tinha visto meu sobrenome e que achou curioso eu ser de Barretos, porque a família dela também é de lá. Claro, a família dela é a minha. Italianos, sabe como é? Três irmãos que brigaram, cada um pro seu canto. O filho de um deles, o Antônio, veio moço pra Belo Horizonte pra estudar e aqui casou, aqui teve uma filha e aqui ficou.

Logo que mudei, eu conheci a guria. Nós não nos encontrávamos – e ainda não encontramos – com muito frequência; horários e trajetos diferentes. Mas aí, uns três meses depois da minha chegada, lá por maio, ele, o Antônio, me ligou. Dizendo que queria me conhecer e que não tinha ligado antes por falta de tempo. Muito gentil e muito educado. Demorou mais um pouco para o encontro acontecer, mas aconteceu. Foi em outubro, quando ele me ligou propondo um serviço: queria que eu fizesse as transcrições de 25 fitas restantes de entrevistas que ele estava usando na tese de doutorado.

Eu topei, claro. O projeto era fascinante. Ele estava dando continuação ao seu mestrado, onde tinha acompanhado 39 crianças de uma comunidade carente de BH, entre 7 e 10 anos (se não me engano), retratando o perfil de saúde e educação delas. No doutorado, a ideia era entrevistar essas crianças, já não mais crianças, 18 anos depois da primeira fase. Nem todas foram localizadas, mas a maioria aceitou participar.

Fora algumas fitas que já haviam sido transcritas, eu ouvi um a um os lamentos de 25 (ou 26; a memória me falha) pessoas que cresceram em situação miserável. Elas tinham tomado caminhos muito parecidos. Embora houvesse um ou outro com uma vida um pouco melhor, a maioria penava, continuava trabalhando pesado pra se manter com pouco. Um outro bom tanto tinha se envolvido com drogas; um morreu, outro estava preso, outro foragido. Outros conseguiram largar. Havia também uma menina com deficiência mental. Essa sozinha já dá um post imenso. Meu estômago até embrulha de pensar no que ela passou.

Drogas, violência doméstica, estupro, assassinato, doenças, pobreza, pobreza, pobreza.

Essa tese mexeu demais comigo. Comecei a pensar em alguma coisa que pudesse ser colocada em prática lá dentro, relacionada à minha área – ainda sem sucesso. Foi tudo um soco no estômago.

Anteontem, o sobrinho de uma pessoa próxima, moradora de uma favela, foi assassinado. Tinha se envolvido com o tráfico. O irmão mais velho já tinha tido o mesmo destino. Veio tudo de volta. E eu fiquei lá, parada, sem ter o que fazer. O que fazer? Eu não sei. Fiquei quieta no meu canto, sem nem saber organizar um post sobre isso.

Aí hoje chego no Twitter e vejo todo mundo denunciando uma tag: #todofavelado. Isso já nem é mais ser ignorante; é ser cruel. É irônico que o ‘favelado’ seja visto como culpado da sua miséria. Sabe como é, né? Se você não é rico e ‘bem-sucedido’, você não lutou o bastante; não mereceu. É como esse comentário. Jason Becker merece ser aplaudido pela força de vontade. Merece mesmo. Mas isso não quer dizer que todos os outros, os suicidas, sejam perdedores. Parabéns pra você que superou todas as adversidades e ficou rico. Isso é pra poucos. Mesmo. Meritocracia é falácia.

Usar essa tag, me desculpe, é declarar o quão estúpido você é a ponto de não conseguir enxergar além do próprio umbigo. E devo admitir, infelizmente, que conheço um bocado de gente privilegiada, que teve uma vida de escola paga e cursinho e hoje estuda em universidades públicas, que usaria essa tag sem dó e sem vergonha. E ainda têm o topete de se dizer ‘elite intelectual’. São só uns toscos.

Quanto à tese, foi defendida, e muito bem, no finzinho do ano passado*. O que ele – e outros – fez e faz pela comunidade em questão não tem preço. Tenho as pessoas certas na minha vida.

.

*”LOMBARDI, Antônio Benedito. A Síndrome da Exclusão Social: as origens, os fatores de risco, os múltiplos sintomas biopsicossociais ao longo dos períodos do ciclo de vida e os fatores perpetuadores. 2009.
Não tenho a referência toda, me desculpem. O orientador é o Prof. Dr. Joel Lamounier. Ainda não foi entregue, mas logo vai estar disponível na Faculdade de Medicina da UFMG.
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4 pensamentos sobre “Dia 209: Humor babaca

  1. Fico muito triste com isso tudo; o mundo acabando, as pessoas da favela perdendo a família inteira, pais, filhos, companheiros, todo o pouco que juntaram e um idiota escreve uma besteira dessas. Eu não sabia desse seu trabalho, deve ter sido tão chocante quando o meu com violêncvia sexual e doméstica. A gente nunca mais é o(a) mesmo(a) depois disso, tenha certeza.

  2. Pingback: uberVU - social comments

  3. Ótimo post! eu trabalhei por 15 anos em comunidades de baixa renda, fiz muitas amigas, é nojento e revoltante ler o (pouco) que eu li na tal tag. Só me faz sentir muito orgulhosa da filha que eu criei e ter pena de ver tanta gente jogando a vida fora com esses valores e idéias.

    Beijoca!

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