Dia 258: Historinhas

1. Assisti, nesta semana, a um ‘Troca de Esposas’ – aquele em que pegam duas famílias e trocam as esposas de lugar por um tempo – no Discovery Home & Health. Eu adoro esse programa. É altamente fake, mas eu adoro. Enfim, o negócio é que o dessa semana foi uma troca entre uma mulher assustadora que enfiava a filha em concursos de beleza (pageantry) desde que ela era bebê e uma ‘feminista’. Assim mesmo, entre aspas.

Durante o programa, a ‘feminista’ foi ficando até bem razoável, mas fez coisas que me renderam uns três facepalms. Não só isso, mas a forma como o programa a apresentou foi bem cretina. “Ela educa as filhas em casa para poder doutriná-las em seu estilo de vida feminista”. Ah, vão tomar no meio dos seus cus, por favor.

Isso me lembra como eu acho a DH&H podrezinha. Pensem: os programas são basicamente sobre noivas, vestidos de noiva, gravidez, gravidez de gente que não sabia que estava grávida e Supernanny. Ou seja, nenhuma diferença na sua home & health.

2. Outro canal que eu não sei pra que existe é o History Channel. Só fala sobre fim do mundo, 2012 e Nostradamus. Deveria se chamar Superstitions Channel. Se você tiver sorte, ainda pode conseguir algum programa que fale sobre a mística do Terceiro Reich. Aparentemente, o nazismo foi um plano da Nova Ordem Mundial e talz. Céus.

3. Eu moro em um condomínio de gente de bem. Sabe? Classe média, engravatadinha, carrinho zero na garagem, fofoquinha pelos corredores. Imaginem isso. E desde que eu cheguei aqui notei três pedras que compõem um desenho peculiar no jardim de entrada: um pênis. Olha, essa gente vê pinto negro no símbolo da Marlboro; não conseguia imaginar como é que ainda não tinham visto e ‘resolvido’ isso. E agora, finalmente, botaram um xaxim na frente das pedrinhas. Achei uma censura do caralho.

4. Duas semanas atrás, vinha eu conversando com um taxista. Sobre futebol. Lá pelas tantas, ele começa a zombar do Richarlyson. Aqueles comentariozinhos cretinos que você já sabe o que são. Enfim, eu não queria que ele jogasse o carro do viaduto, então evitei a briga e só virei a cara pro lado e fiquei quieta. Ele obviamente percebeu que eu tinha ficado incomodada e tentou consertar: “Eu não tenho nada contra, não, moça! É só que…” [Não, filho. Você não tem nada contra, não. Imaginação minha.] …é só que ele é RIDJECULO!” Doeu segurar a gargalhada.

Dia 254: Caso, compro uma bicicleta ou caso com a bicicleta?

Eu não sei se deveria escrever hoje. Aliás, na verdade, eu não sei de mais nada.

Eu passei a vida toda levando uma vida confortável, nunca sendo atingida por nada, com uma família não muito grande, mas que sempre, sempre me protegeu. Imagina uma mãe coruja.

Isso é bom e ruim. Bom, porque minha vida foi toda cor-de-rosa, eu não tenho grandes traumas e sempre tive tudo, não só o que era necessário. Ruim, talvez pelos mesmos motivos. Eu vi muita coisa por aí que não fazia parte do ‘meu mundo’, trabalhei e convivi com gente sofrida, mas sempre dentro da minha zona de conforto.

Agora eu sinto, quero e preciso sair. E sei exatamente o que quero fazer. E teria toda a coragem do mundo, não fossem esses laços de amor demais. Sabe? O meu problema é gostar demais da minha família. Eu viro nada perto deles. Não sei se vou, se fico, se caso, se compro uma bicicleta. Tudo o que eu queria, no momento, era voltar pro útero da minha mãe e ficar lá. Pra sempre. Ninguém me perguntou se eu queria crescer.

Dia 253: ‘Ain’t I a woman?’

Well, children, where there is so much racket there must be something out of kilter. I think that ‘twixt the negroes of the South and the women at the North, all talking about rights, the white men will be in a fix pretty soon. But what’s all this here talking about?

That man over there says that women need to be helped into carriages, and lifted over ditches, and to have the best place everywhere. Nobody ever helps me into carriages, or over mud-puddles, or gives me any best place! And ain’t I a woman? Look at me! Look at my arm! I have ploughed and planted, and gathered into barns, and no man could head me! And ain’t I a woman? I could work as much and eat as much as a man – when I could get it – and bear the lash as well! And ain’t I a woman? I have borne thirteen children, and seen most all sold off to slavery, and when I cried out with my mother’s grief, none but Jesus heard me! And ain’t I a woman?

Then they talk about this thing in the head; what’s this they call it? [member of audience whispers, “intellect”] That’s it, honey. What’s that got to do with women’s rights or negroes’ rights? If my cup won’t hold but a pint, and yours holds a quart, wouldn’t you be mean not to let me have my little half measure full?

Then that little man in black there, he says women can’t have as much rights as men, ‘cause Christ wasn’t a woman! Where did your Christ come from? Where did your Christ come from? From God and a woman! Man had nothing to do with Him.

If the first woman God ever made was strong enough to turn the world upside down all alone, these women together ought to be able to turn it back , and get it right side up again! And now they is asking to do it, the men better let them.

Obliged to you for hearing me, and now old Sojourner ain’t got nothing more to say. 

Sojourner Truth, 1851.

Dia 251: Livro: Doze Contos Peregrinos

Acabei agora.

Foi uma deflagração. O conde de Cardona estava escutando o dueto de amor de La Bohème, cantado por Licia Almbanese e Beniamino Gigli, quando chegou até ele uma rajada casual das notícias do rádio que Maria dos Prazeres escutava na cozinha. Aproximou-se com cuidado e escutou também. O general Francisco Franco, ditador eterno da Espanha, havia assumido a responsabilidade de decidir o destino final de três separatistas bascos que acabavam de ser codenados à morte. O conde exalou um suspiro de alívio.

-Então, vão fuzilá-los sem remédio – disse ele -, porque o Caudilho é um homem justo.

Maria dos Prazeres fixou nele seus ardentes olhos de cobra-real, e viu suas pupilas sem paixão atrás dos óculos de ouro, os dentes de rapina, as mãos híbridas de animal acostumado à umidade e às trevas. Do jeito que ele era.

– Pois rogue a Deus que não – disse -, porque se fuzilarem um só eu boto veneno na tua sopa.

O conde assustou-se.

– E por quê?

– Porque eu também sou uma puta justa. (pp. 151-152)

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Doze Contos Peregrinos. 18. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. 252 p.

Dia 250: Takarazuka: Parte VII – Etc.

Minhas atrizes favoritas, aquelas que estavam na época em que virei fã, já saíram quase todas. A saída mais dolorosa foi a da Sumire Haruno, porque eu realmente esperava ver uma performance dela ao vivo, antes dela se ‘aposentar’. E, no fim, a gente sempre espera que a atriz vá escolher ficar lá pro resto da vida. Tipo a Todoroki. Mas ela tinha outros planos. Saiu pra se casar.

Sorte que a Todoroki tá lá. É das minhas favoritas. E tem sempre a Hiromu Kiriya também. Que eu espero que vá longe, porque ela é boa. Virou top recentemente, depois de longos anos seguindo a Jun Sena. A Jun foi a última da minha geração favorita a deixar o teatro.

[Da esq. pra dir, de cima pra baixo: Sumire Haruno, Yuu Todoroki, Jun Sena e Hiromu Kiriya]

Ainda estou me acostumando às outras tops. Uma que eu definitivamente não gosto, e que vai sair em breve, é a Natsuki Mizu. Sai em setembro, mas ainda não se sabe quem vai sucedê-la. Das musumeyaku, nenhuma das atuais conseguiu chamar minha atenção. A única que eu gosto, a Ayane Sakurano, também vai sair. Dia 30, agora.

[Mizu e Sakurano]

Se é que alguém ainda não procurou, vou colocar dois vídeos aqui só pra dar um exemplo. O primeiro é da peça Me and My Girl, na versão de 1995 do Tsukigumi. A top da época era a Amami Yuuki, famosa por ter sido uma das atrizes mais novas a conseguir o posto, aos 26 anos. O vídeo é basicamente um trailer, misturado com a cena mais famosa da peça, a Lambeth Walk. Me and My Girl é um musical britânico de 1937. Aqui tem uma versão (premiada) inglesa para comparação – a qualidade não está boa, mas gosto dessa versão e não consegui achar outro vídeo parecido.

Para o segundo vídeo, eu ia escolher algum de Elisabeth. Fui procurar no YouTube e acabei descobrindo que existe alguém traduzindo Takarazuka para o português! Eu não tive ainda como assistir tudo, só dei uma passada de olhos, mas a tradução parece ok. É a Elisabeth de 2005, Tsukigumi. Não é nem de longe a minha favorita. Nao Ayaki no papel principal não convence. E Sena Jun, uma otokoyaku, faz o papel de Elisabeth. De uma maneira geral, a interpretação é boazinha, mas a voz dela falha terrivelmente nos agudos. O lado positivo é a Kiriya como Luigi Luccheni.

Vou postar a primeira parte. É possível achar as continuações nos vídeos relacionados.

A melhor versão, infelizmente, ainda não está legendada – pelo menos não encontrei nada. Se você tem interesse e entende japonês (ou tem paciência), é possível assistir no Tudou. Hanagumi, 2002.

Como eu já disse, o Zuka é bem desconhecido no Brasil, mas felizmente tem muitas fãs nos EUA e na Europa. Por isso, é relativamente fácil encontrar sites de fãs. Muitos sites já estão desatualizados e; ou foram abandonados, especialmente porque hoje em dia existe o Takawiki facilitando nossas vidas. As fãs também costumam se comunicar pelo LiveJournal, através da comunidade principal ou por blogs pessoais. O site oficial é esse. Também tem uma versão em inglês, mas não tem muitas informações; só as peças em cartaz e o básico sobre acesso ao teatro.

O melhor livro sobre o Takarazuka é o que já citei:

ROBERTSON, Jennifer. Takarazuka: sexual politics and popular culture in modern Japan. Los Angeles: University of California Press, 1998. 278 p.

Existe um documentário, também, sobre o teatro, chamado Dream Girls (favor não confundir com o filme). O Japanorama, aquele programa da BBC que eu citei no post sobre hosts, também falou um pouco sobre o Takarazuka no mesmo episódio dos hosts – eu só assisti essa parte; já estou baixando as três temporadas do programa pra assistir.

E aqui tem um artigo que o Asahi Shinbun publicou em 2008 sobre aspirantes ao Takarazuka. Existem vários outros artigos.

E eu encerro aqui o meu Takarazuka For Dummies. Espero que eu tenha conseguido fazer uma coisa mais ou menos clara, que dê pra entender. Com exceção dessa última parte, os outros posts eu escrevi todos numa noite, com sono. Deixei todos programados, e como não tive muito tempo nos últimos dias, nem tive tempo de revisar antes que fossem publicados. Já vi uma série de erros bobos. Perdão. Vou corrigi-los com o tempo, mas não é nada que atrapalhe a compreensão, espero.

Pra quem tiver interesse, é só pedir socorro por aqui. Ajudo no que puder. Ter com quem discutir é sempre bom.

O Takarazuka pode e deve provocar muito debate. O que eu me propus a fazer aqui, no entanto, não dá muito espaço pra isso, só pra passar rapidamente por alguns tópicos. Espero ter provocado a curiosidade de alguém pra levar isso adiante.

Dia 249: Takarazuka: Parte VI – SHINY!

Uma das maiores características estéticas do Zuka é a maquiagem pesada, de forma a dar um ar mais ocidental. Os olhos, por exemplo. Essas feições – os olhos gigantes – que hoje nós identificamos facilmente nos animes foram inspiradas no Takarazuka. Osamu Tezuka, o ‘pai do mangá’, era fã do teatro.

Mas existem outras coisas que chamam mais a atenção dos não japoneses. A essa altura, se você andou googlando takarasiénnes por aí, com certeza já percebeu que a estética do teatro é, digamos, peculiar.

Lembrem-se que o Takarazuka surgiu originalmente como teatro de revista (o nome oficial internacional do teatro é Takarazuka REVUE), e as características deste formato foram incorporadas – e, inclusive, ‘aperfeiçoadas’ – na imagem do Zuka.

A que mais chama atenção, a princípio é o brilho. Muito, muito brilho. Ternos brilhantes, vestidos brilhantes, chapéus brilhantes, palco brilhante, luzes coloridas piscando. BRILHO! Uma piadinha que sempre circula por aí é: “Takarazuka: because the world needs mor SHINY!”

[Shirahane Yuri e Kozuki Wataru, Neo Dandyism!, Hoshigumi, 2006]

O brilho eu até perdoo. Tem coisa pior, quer ver? Por exemplo, o esplendor.

[Mizu Natsuki, The Dawn at Solferino, Yukigumi, 2010]

ESPLENDOR, GENTE! É horrendo, e no entanto é a marca registrada do Takarazuka. Toda, absolutamente TODA peça é encerrada com um figurino de esplendor.

Também tem as tiaras.

Lembra que eu disse, no começo, que não gostei de cara de A Rosa de Versalhes por causa do visual? Pois é, embora eu aceite melhor hoje em dia, eu ainda não consigo gostar da peça. E olha que é dos meus mangás top-top! EHome em dia eu ignoro esses exageros. São bem característicos do Japão ocidentalizado. Mas costumo preferir peças em que as roupas não saiam cegando ninguém por aí.

[A Rosa de Versalhes, Yukigumi, 2006]

Felizmente, os anos 80 já passaram. Acreditem, era BEM pior. Aqui tem um exemplo, que eu nem vou postar. Se quiser clicar, é por sua conta e risco.