Dia 248: Takarazuka: Parte V – Subversão

Como eu disse antes, o Kobayashi era muito homofóbico. Nas décadas de 20 e 30, conforme o teatro foi ganhando popularidade, acabou sendo alvo de inúmeras críticas por conta de algo que até então não fazia parte nem do imaginário japonês: as lésbicas.

O Japão tem um longo histórico de homossexualidade registrada, aceita e encorajada, mas apenas a homossexualidade masculina. Mulheres, até então, não tinham desejo. Mulheres, aliás, não eram nada. Só esposas em potencial, esposas de fato e mães.

Mas vamos combinar que Kobayashi deu a elas uma oportunidade de ouro para descobrir um outro mundo, né? E aí que, um a um, os casos entre atrizes e entre atrizes e fãs foram aparecendo, e o Takarazuka virou um escândalo total. O Kobayashi, nem preciso dizer, deve ter tido uns 73 enfartes nessa época. Fez de tudo para ‘limpar’ a imagem do teatro, inclusive proibindo as atrizes de trocar cartas, mensagens e confraternizar com as fãs.

Isso, é claro, não serviu de muita coisa. As atrizes continuaram e continuam tendo casos entre si, e encontraram sua própria maneira de se aproximar das fãs – hoje em dia as restrições diminuíram, mas ainda existem diversas regras no que diz respeito às fãs.

Feliz ou infelizmente, todo o esforço de Kobayashi para impedir que escândalos chegassem à imprensa surtiu efeito em um aspecto: o Código Sumire*. O Código é um acordo silencioso entre atrizes, funcionários do teatro e fã-clubes de não divulgar absolutamente nada que não seja oficial. É quase uma ordem secreta: só quem está lá dentro é que sabe. Os fã-clubes são bastante organizados e têm um controle surpreendente sobre as informações que circulam e quem as recebe.

Isso é bom por um lado, porque protege a identidade** e a vida pessoal das atrizes. Por outro lado, não deixa de ser um grande armário, dando a entender que elas estão fazendo algo errado, que deve ser escondido.

Claro que o Código também cumpre muito bem o seu papel de atiçar a curiosidade de quem está de fora. Suspeitas de relacionamentos entre atrizes são constantes, e volta e meia discute-se quem está com quem. Acho que o caso mais famoso dos últimos anos é do casal top-top-de-todos-os-tempos, Youka Wao e Mari Hanafusa.

[O-Hana e Takako, Lightning in the Daytime, Soragumi, 2003]

As duas bateram recordes de tempo como top stars. Uma atriz geralmente fica nesse posto por um período de três a quatro anos. A Takako (Wao) ficou oito; a O-Hana (Hanafusa), doze. Por aí já dá pra perceber o tamanho da popularidade das duas. Elas eram o Golden Combi (o casal principal) do Soragumi. E sempre levantaram suspeitas. Que não diminuíram quando deixaram o teatro juntas, nem quando a O-Hana apareceu de repente no meio de uma viagem que a Takako fazia com as fãs***, e piorou quando esta última resolveu seguir na carreira artística tendo a O-Hana como empresária.

Essa subversão, não só das regras, mas de toda a ideologia que o Kobayashi pregou, é possível graças a um outro ato surpreendente. Por duas vezes, quando o teatro já era popular, Kobayashi tentou introduzir atores masculinos no teatro, uma pré e outra pós-guerra. Nas duas, falhou epicamente. As atrizes se recusaram absolutamente a atuar com homens.

Aqui entra uma visão interessantíssima da coisa toda. Muitas atrizes veem a oportunidade de ser otokoyaku como uma chance de serem livres. Dentro da sociedade japonesa, limitada, como mulheres, elas só podem cumprir papéis específicos; em cima do palco, como homens, elas se sentem assim, livres. Curiosamente, essa também é a visão das fãs. Elas se realizam através das atrizes. Vou usar como exemplo a carta que uma fã escreveu para Mao Daichi, uma atriz muito popular da década de 80, quando ela deixou o teatro para seguir a carreira de atriz:

To Daichi Mao-sama: You were an absolutely new flower. There has been no other star in Takarazuka history who had displayed your gorgeous androgynous elegance. Before you, there were many orthodox otokoyaku . . . but you gave rise to a new type of player of men’s roles . . . with your round face, slim body, and sinuous movements . . . When we fans first hear you sing [about love], we were swept away in a strange and fragrant world. Without question your charm was your very womanliness. Not the posturing come-on of mannish females, but an affirmation of a womanliness of female bodies. You symbolized a new era when females could begin to love themselves as themselves.

And so why you became an ordinary woman?

There are a million of actresses. There’s no reason for you to become yet another actress who titillates actual males . . . Now all you do is take roles that have you pout at males and say things like, “Why don’t you like me?” That kind of role is totally unrealistic; it’s a pathetic joke. You’ve gone from being a jewel to being a mere pebble. I can never forgive your betrayal in playing women who exist for males. When we see you being embraced by a male, it’s as though our dreams have been stolen.

You – Takarazuka’s new flower, females’ freedom and joy, our fin de siècle dream. Why did you become a woman? Just an ordinary woman!?

Yours, Hoshi Sumire.

(ROBERTSON, Jennifer. Takarazuka: sexual politics and popular culture in modern Japan. Los Angeles: University of California Press, 1998. pp. 79, 81)

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*Sumire = violeta, a flor-símbolo do teatro.
**No Japão, costuma-se adotar nomes artísticos de acordo com a profissão.
***Geralmente, atrizes que deixam o teatro fazem algum tipo de viagem com as fãs em seguida.

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2 pensamentos sobre “Dia 248: Takarazuka: Parte V – Subversão

  1. Tata, mas eu amei essa série de posts, não conhecia nada sobre isso, adorei saber, e gostei muito de tanta informação. Muito legal saber que há uma coisa assim no Japão, tão inusitada (pra nós, né?). Abraços

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