Dia 251: Livro: Doze Contos Peregrinos

Acabei agora.

Foi uma deflagração. O conde de Cardona estava escutando o dueto de amor de La Bohème, cantado por Licia Almbanese e Beniamino Gigli, quando chegou até ele uma rajada casual das notícias do rádio que Maria dos Prazeres escutava na cozinha. Aproximou-se com cuidado e escutou também. O general Francisco Franco, ditador eterno da Espanha, havia assumido a responsabilidade de decidir o destino final de três separatistas bascos que acabavam de ser codenados à morte. O conde exalou um suspiro de alívio.

-Então, vão fuzilá-los sem remédio – disse ele -, porque o Caudilho é um homem justo.

Maria dos Prazeres fixou nele seus ardentes olhos de cobra-real, e viu suas pupilas sem paixão atrás dos óculos de ouro, os dentes de rapina, as mãos híbridas de animal acostumado à umidade e às trevas. Do jeito que ele era.

– Pois rogue a Deus que não – disse -, porque se fuzilarem um só eu boto veneno na tua sopa.

O conde assustou-se.

– E por quê?

– Porque eu também sou uma puta justa. (pp. 151-152)

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Doze Contos Peregrinos. 18. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. 252 p.

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