De novo, a potra

História mais bonitinha de todos os tempos.

Meu irmão chegou em casa depois do trabalho em um dia qualquer na semana passada e esqueceu o portão aberto. Quando viu, uma das nossas cachorras – a mais capeta – tinha fugido. Ele ficou desesperado. Gastou toda a gasolina da moto e do carro atrás dela e não achou.

No outro dia, a dona Mariza, diarista que ajuda aqui em casa, disse que ela deveria estar num lugar aqui perto de casa que tem muito mato, coisa que a Mel adora. Meu irmão voou pra lá de moto. Não achava. O telefone tocou, ele parou pra atender e cinco segundos depois sentiu alguma coisa pulando nele. Era a nossa potra. <3

Louis Theroux

Quando eu morava com as inglesas, em 2008, assisti, por influência delas, ao documentário The Most Hated Family in America, sobre a Westboro Baptist Church, uma igreja de lunáticos que pregam que Deus odeia os EUA – o mundo inteiro, na verdade – por ser uma cultura pró-LGBT. Foi o meu primeiro documentário do Louis Theroux. Eu me apaixonei, virei fã na hora, mas só consegui assistir a outras obras dele esse ano. Acordei a fim um dia e baixei tudo pelo santo torrent. E vim assistindo nos últimos meses.

Louis começou a carreira na BBC com o programa Louis Theroux’s Weird Weekends, transmitido entre 1998 e 2000, onde ele ia atrás de subculturas, coisas consideradas ‘bizarras’ pra sociedade em geral. Na primeira temporada, por exemplo, ele fala de cristãos ‘renascidos’, ufologia, indústria pornô e sobrevivencialismo. Essa primeira, aliás, é minha favorita. Tem cinco episódios ao todo; um pra cada tema citado e um especial, onde ele reúne um participante de cada episódio para passarem o Natal juntos.

Entre 2000 e 2002, ele apresentou o When Louis Met…, onde ele acompanhava por algum tempo o dia-a-dia de alguma celebridade britânica de que você provavelmente nunca ouviu falar. Esse programa não me chamou muita atenção, justamente por isso – com uma ou outra exceção – e pelo fato de que, por mais bonito que seja o sotaque britânico, eu não entendo lhufas. O Louis é muito fácil de entender, mas, quando algum sotaque mais hardocore entrava em cena, tudo o que eu podia fazer era chorar. Foi o caso do Jimmy Saville. Mas foi interessante acompanhar os Hamiltons, a picaretagem do Max Clifford e o puritanismo da Ann Widdecombe.

Mas a fase mais interessante dele começa em 2003, quando ele parte para os especiais da BBC 2. Além do ‘The Most Hated Family…’, estão entre os meus favoritos ‘Louis and the Brothel’, sobre um bordel em Nevada; ‘Louis and the Nazis’; e ‘Behind the Bars’, sobre o presídio americano de San Quentin.

O que me fez simpatizar definitivamente com o Louis, depois de tudo, foi perceber o quanto ele se arruinou – consciente ou não disso – com seus primeiros documentários. Ele tem cara de pastel e parece à primeira vista ingênuo, e com isso cativa quem ele entrevista. Como todo jornalista, tenta caçar polêmicas, mas usa desses atributos para conseguir o que quer, o que acabou rendendo a ele uma imagem de perverso. É possível ver o quanto isso afeta a credibilidade dele conforme você avança nos documentários. No que trata do Michael Jackson, por exemplo, Louis não consegue uma entrevista porque várias pessoas que poderiam ter arranjado isso para ele não confiavam no desfecho do documentário.

Louis não vê o menor problema em botar o dedo na ferida, e suas perguntas costumam ser muito diretas. Houve vezes em que eu mesma me incomodei. Pensei ‘oh, Louis… Você não precisava ter feito isso’. Não sei se me agrada ou me incomoda o fato de ele saber exatamente o que está fazendo. Mas eu passei a admirar muito a firmeza que ele tem no que acredita.

Duas cenas me marcaram. A primeira foi no doc do MJ. A cena da segunda vez em que ele entrevista Joe Jackson. Ele pergunta se Joe gostaria que Michael ‘sossegasse’ – no sentido de ter um relacionamento firme com alguém. Joe – ou o outro cara que estava junto, não me lembro – pergunta se ele se referia a ter uma esposa, ao que ele responde que sim, esposa, ou namorada, ou namorado. Joe fica ofendidíssimo – e obviamente arremata com afirmações ultra-homofóbicas -, mas Louis não pede desculpas pela pergunta. Ele explica qual foi sua intenção ao dizer aquilo, mas não se desculpa. É óbvio que ele sabia que estava cutucando, mas ainda assim é bom.

A outra cena acontece no documentário sobre os nazistas. Louis vai até a casa de um skinhead e, no meio das filmagens, pergunta o que ele faria se descobrisse que Louis é judeu. O nazi afirma que o expulsaria de casa e pergunta se ele é. Louis pede licença para não responder, do que o nazi deduz que ele é, então, judeu. Louis explica que não respondeu que sim nem que não, e que não vai responder porque, pra ele, aquilo não tem importância, e que, se ele respondesse, passaria a imagem de que tem. O nazi continua incomodado e, algum tempo mais tarde, retoma o assunto, mas depois de muita insistência Louis ainda não responde e vai embora.

Parece bobo, mas quantas pessoas não teriam respondido à pergunta? Quantos jornalistas, no afã de obter a entrevista, não responderiam? Eu responderia. Não pensaria muito, simplesmente diria, por puro impulso. E eu acho fantástico como ele não se dobra.

Eu me peguei simpatizando muito com alguns personagens, como os caras que o ajudam a participar do ‘demolition derby’, ou o Mike Cain, um sobrevivencialista muito simpático com cara de Papai Noel. Também passei raiva, como com a mãe das Prussian Blue ou com o Eugène Terre’Blanche. Dá pra se envolver demais.

Carimbei minha carteirinha de fã.

SPAC Lions 2010

Mas vamos falar de coisa boa. Vamos falar na iogurteira Top Therm.

O SPAC ganhou, como era de se esperar, embora eu torcesse para uma zebra. E houve uma zebrinha. Achei que ia dar Niterói x SPAC na final, mas o Desterro conseguiu derrubar as cariocas num ponto de ouro.

O BHR, infelizmente, não levou a Taça Prata. Ficamos em 8º depois de perder para o Charrua e para o Vitória. Mas estar entre as oito já é um tremendo feito. No ano passado, o time terminou na 13º posição. Se continuarmos nesse ritmo, ano que vem disputamos a Taça Ouro. Beware.

Classificação final:

1º – SPAC – CAMPEÃO
2º – Desterro
3º – Bandeirantes
4º – Niterói
5º – Charrua – Campeão Taça de Prata
6º – São José
Vitória
8º – BH Rugby
9º – Recife – Campeão Taça de Bronze
10º – Goiânia
11º – USP
12º – EACH
13º – Lions (SPAC B) – Campeão Shield
14º – Pasteur
15º – Tornados
16º – Jacareí

E eu voltei pra casa carregada. Ganhei camiseta ‘Rugby Girl’ do Zeto, comprei uma irresistível com a haka dos All Blacks nas costas, trouxe bola, chaveiro e os chinelos que ganhamos do clube. Os chinelos foram providenciais, aliás, porque eu tinha esquecido os meus. Não que fossem exatamente uma boa ideia, porque 552 lavadas depois, meu pé continuava cheio de barro.

Também ganhei um calendário do Keep Walking Lords Of Rugby, um time paulista de quarentões veteranos. Tive crises de riso ao imaginar a cara do Zeto e do Hugo quando soubessem. Por sugestão da Bani, fomos tietar os ‘musos’ e conseguimos cinco autógrafos. Quando chegar em Barretos, escaneio. É imperdível.

Ficamos em um hotelzinho próximo ao Shopping Morumbi. E tinha uma convenção da HerbaLife por lá. Acho que nunca vi tanta gente junta na minha vida. E nunca senti tanto medo. Sorte que algumas das nossas gurias estavam circulando com camisetas de ‘atleta’ e ninguém ousou nos abordar.

O terceiro tempo foi aquele nonsense bêbado de sempre. Quem basicamente dominou a empolgação dessa vez foi a USP. Gritaram e cantaram alucinadamente, e acabaram arrastando os mais dispostos – ou mais bêbados – pra uma brincadeira que eu não sei como não resultou num pescoço quebrado. Eu fiquei de fora vendo e tendo crises de riso.

Aí veio a raivinha da viagem, aí veio BH. Agora é partir pras comidas boas e pro colo materno no fim de ano. Em janeiro tem Floripa. Agora me pergunta se eu quero outra vida.

Quer transformar sua viagem de 8… ops!, 12 horas em uma ida ao psicólogo? Pergunte-me como.

Posso falar? O BHR é CA-GA-DO pra arrumar motorista. Assim mesmo, em letras maiúsculas e sílabas destacadas. Os motoristas se perdem em TODAS as viagens, não importa se a gente tá andando em São Paulo ou em Colina. E nunca é uma coisa simples; é sempre algo que atrasa tudo em três horas.

Mas o desse fim de semana é o campeão so far. Porque motorista que se perde na ida é ok; a gente entende. Mas motorista que morou vinte anos – segundo o próprio – em São Paulo e consegue se perder saindo da cidade é inédito.

Ele me pediu pra programar o GPS. Só que o GPS não ligou. Até então eu não tinha percebido por que ele precisava tão desesperadamente do aparelho. Fui saber só quando ele entrou na via errada.

Pra você, amigo, que graças a deus nunca teve a infelicidade de andar em São Paulo, é bom saber que dar uma erradinha lá equivale a ir e voltar de Belo Horizonte umas três vezes. Mentira. Mas o drama é quase o mesmo.

E eu tinha me sentado ao lado dele na van. Deixei o time bêbado dormir em paz lá atrás e achei melhor ir ao lado do motorista, já que eu estava sem um pingo de sono. E quase chorei quando ele disse que tinha se perdido. Porque, né, eu sou A perdida. Não sei nada de São Paulo. Tenho um bloqueio com a cidade. Então não poderia ajudar em nada. Nenhuma de nós podia, na verdade. E aí se instaurou o caos.

Ele queria achar a Dutra. Aí eu fui lendo as placas e, por fim, achamos. E eu, muito ingênua, achei que dali em diante ele soubesse prosseguir. E relaxei, me distraí.

– Era aqui que eu tinha que ter entrado?

– Anh?

– Essa via aí da direita? É a Fernão Dias?

Essa hora eu apaguei da memória pra continuar sendo uma pessoa feliz, mas provavelmente o que aconteceu foi que eu virei pro lado e comecei a mascar o vidro da janela pra evitar voar no pescoço dele. Lá fomos nós, DE NOVO, procurar um retorno. Aí o time inteiro já estava querendo deixá-lo na estrada e seguir sozinho.

Um posto de gasolina e muitas informações não assimiladas depois, ele ainda estava perdido. Eu tinha pulado pra trás, sugestão das meninas pra eu não morrer enfartada. Por fim, com o time inteiro lendo as placas em coro pra ele, nós acabamos chegando na tal.

Às 3:30 da madrugada, nós paramos em um posto pra consertar um pneu furado – você realmente achou que ia ser fácil assim? – e constatamos que tínhamos levado cinco horas pra percorrer 200 quilômetros. Um feito para o Guinness.

Junte a isso uma batida na viagem de ida. Ou melhor, uma encostada. Uma coisa simples, que foi culpa de outro motorista e que o outro prontamente assumiu e se dispos a resolver, que quase terminou em uma manchete de jornal envolvendo um louco sem noção provocando um professor de karate.

E você pensava que a emoção do rugby terminasse no terceiro tempo.

Penseira

Lembra quando eu disse que odeio ter a impressão de falar demais aqui? Pois é, só que eu também odeio esse silêncio. Porque ele dá aquela impressão de ‘ok, cansei de vocês; fui brincar lá fora’, a.k.a. ‘fui ali viver a vida’. E esse é o tipo de atitude que eu desprezo absolutamente. Essa coisa de achar que quem tá no clube torrando no sol é cool e quem leva uma vida verde-escritório é loser.

E eu não fui brincar lá fora. Ou melhor, até fui, mas também tô aqui. Porque, né, ninguém merece essa vida 8 ou 80. Só que eu sento aqui pra escrever, querendo, sei lá, falar um ‘oi’ e não consigo. Eu penso, penso, penso e me desprezo. E tem tanta coisa pra falar, tanta coisa na minha cabeça, que uma penseira agora cairia bem. Preciso voltar a escrever qualquer bobagem, me familiarizar com isso aqui de novo.

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Fim de ano chegando. E que ano foi 2010! Começou morno, naquela rotina de sempre, e na metade, como sempre acontece, tomei uma rasteira e tudo virou do avesso. Do jeito bom. Os meus planos pra 2011 não saíram como o esperado; eu não esperava estar aqui no ano que vem. Mas vou estar. E de um jeito melhor que o imaginado.

O rugby veio aí bancar o salvador da pátria. E eu me achei. É lindo. Eu vivo roxa, ralada, estou com canelite e um dedo luxado, mas só consigo achar lindo. Um belo dia eu acordei e por certa razão percebi que teria (e terei, se quiser realizar meus planos) que deixar o BHR um dia, e meu coração apertou tanto, tanto, que parecia que eu tinha feito aquilo a vida toda. É altamente clichê o que eu vou falar, mas aquilo é família.

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Por falar nisso, no fim de semana o time feminino do BHR vai jogar em São Paulo. É a terceira etapa do Circuito Brasileiro de Rugby Sevens, no SPAC. Quero toda uma torcida lá.

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Essa vontade de escrever de novo é tudo culpa da minha prima de doze anos. É mole? Tem blog. E é muito bonitinho ver ela escrever. Adoro adolescente. Adoro ver a individualidade dela aparecendo. É forte sem ser mal-educada, mal-agradecida. Sabe o que quer. Essa me dá gosto.

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Uma das coisas mais úteis que eu aprendi esse ano foi encadernação. Achei altamente divertido. E quero tentar brincar disso nas férias. Vou levar os modelos das aulas pra Barretos e destruir tudo por lá. Eu sou péssima com essas coisas manuais, artesanais. Sou um trator, né? Delicadeza, zero. Mas acho divertido. Me deixa.

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Ontem eu estava vendo um documentário sobre comidas estranhas. Já conhecia comida viking e tal, mas eu nunca vou cansar de repetir o quanto carne de tubarão apodrecida é um negócio dispensável. Comida é uma das duas coisas que vikings não sabiam fazer. A outra era música. Pelamordedeus, nunca escutem música viking tradicional. É um 2 Girls 1 Cup para os ouvidos.

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Faz uma semana que eu tô louca pra encher a cara num McDonald’s da vida. Encher a cara de hambúrguer processado e cheddar entope-artéria, digo. Tô aceitando companhia.

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Há dois anos e meio, eu fui literalmente expulsa de uma pensão. Claro que foi loucura de uma doida que nem morava lá. Não tinha como me expulsar; eu tinha contrato. Mas fui embora um mês depois, de qualquer forma, assim que arranjei casa. Éramos 11 meninas, na época. Junto comigo saíram 8 delas. Quatro intercambistas, que foram embora do Brasil; uma que veio morar comigo; uma que foi morar com o namorado; uma outra foi morar com amigas; e a última só trocou a pensão. Sobraram duas irmãs, que saíram em seguida, depois de outro surto da maluca.

A pensão continuou por um tempo, capengando, e faliu. Hoje eu encontrei a tal dona na rua. Passou e me desprezou. Não tenho culpa, amiga.

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Chega.