Um vislumbre do rei

Eu tenho uma certa ojeriza da Academia. Por exemplo, essa coisa de indicar dez títulos na categoria de ‘Melhor Filme’. Eu não sei pra que tanta balela se a gente já sabe que pelo menos cinco deles não têm absolutamente a menor chance. Estão lá só pra destacar o resto. Não que sejam piores; muito pelo contrário. É que a Academia é óbvia assim. A gente já até sabe o que vai ser indicado.

Não tem muito mistério. Cisne Negro, O Discurso do Rei, A Origem, A Rede Social e O Vencedor são os reais competidores com cara de Oscar. Quando a lista saiu, eu, no meu ano mais relapso, percebi que não tinha visto nenhum dos indicados. Nenhunzinho. E já corri pra fazer a lista. Mas dos dez indicados ao maior prêmio, só quatro me chamaram a atenção – só dois dos citados acima: Cisne Negro, O Discurso do Rei, Minhas Mães e Meu Pai e Inverno da Alma.

Não é bem questão de qualidade, e sim de gosto pessoal. Não tenho saco pra assistir 127 Horas, Toy Story ou O Vencedor;  Bravura Indômita não me conquista; A Origem eu vou assistir só por obrigação. O único que eu quase faço questão de não ver é A Rede Social.

Os outros eu quis ver genuinamente. ‘Minhas Mães…’ e ‘Inverno da Alma’ ainda não consegui. ‘Cisne Negro’, nossa, é imbatível. Ou seria, não fosse a Academia. E ‘O Discurso…’, ah, esse é polêmico.

Na realidade, eu mal tinha ouvido falar dele antes da indicação. Fiquei surpresa ao ver que é o favoritíssimo em número de indicações. Na minha ingenuidade, ‘Cisne Negro’ teria muito mais.

Mas fui ver. E foi quase um tédio. É O filme com cara de Oscar. Superação pessoal, blábláblá. Sendo um rei, então… Acho que os velhos da Academia gozaram. Até o Colin Firth consegue ficar apagadinho. E isso é uma proeza.

Eu não fiquei apática, não. Sofri com toda a gagueira real. Me dava uma aflição imensa vê-lo começar a falar e não conseguir. Principalmente no discurso inicial. Mas é uma história morna, sim. A não ser por uma cena.

Foi lá pelas tantas do filme. Vocês vão me perdoar, mas já faz uns bons dias que eu vi o filme, então não vou lembrar o timing. Nem do filme, nem o histórico. Mas acho que na tal cena a guerra ainda não tinha começado. Faz mais sentido.

George VI estava sentado, assistindo um discurso de Hitler. Uma de suas filhas, provavelmente Elizabeth (futura II), pergunta ao pai o que ele está falando. O pai responde: “Não sei, mas certamente ele fala muito bem.”

Foi aí que eu entendi o filme, que ele fez sentido. Talvez não tivesse sido a intenção do diretor, só um devaneio meu, mas eu quase gritei ‘EUREKA!’. Naquele momento, o rei inglês e o ditador austríaco estavam sendo comparados. O discurso dos dois, as metáforas. George, o gago, o segundo filho, sem disposição nenhuma pra governar, à frente de uma Inglaterra decadente, versus Adolf, o tirano carismático, que já tinha as potências europeias nas mãos e parecia querer tirar a Alemanha do caos pós-guerra.

A cena marca o início da real superação do rei, das dificuldades. Ainda que sem poder prático, George VI seria uma importante figura dentro de seu país durante a Segunda Guerra.

Mas seja essa a intenção do filme, seja só uma interpretação pessoal, ele ainda é fraco. Continuo surpresa com o número de indicações. Reduziria pela metade, a começar com o prêmio principal. ‘O Discurso do Rei’ não deveria levar o principal prêmio do cinema. Muito menos em ano de ‘Cisne Negro’.

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