Trajeto #1

Vou começar a fazer um diário das minhas viagens. Não os destinos; os trajetos, mesmo. Porque ultimamente têm rendido material pra livros. Quando não é a sequência problema com a empresa de ônibus/atraso/engarrafamento/ônibus quebrado, é alguém que você quer pegar pelo pescoço, pendurar do lado de fora da janela e deixar arrastar pelos 700km de percurso.

Neste feriadão não foi diferente. Feriadão que virou feriadinho pra mim, porque embora a professora da manhã de quarta tivesse liberado a turma, a da noite fez questão da aula, aí eu acabei tendo que viajar no caos da quinta-feira. Juro que eu só quero ser rica um dia pra não ter que viajar em feriado, porque classe média sofre.

Na ida foram os problemas técnicos. Na volta, uma mulher estridente no banco de trás. Uma coisa que parece realmente difícil das pessoas entenderem é que, se você está dividindo um espaço com outras 40 pessoas, numa madrugada de segunda-feira, e esse espaço consiste num ônibus, provavelmente esses cidadãos vão trabalhar no dia seguinte e merecem dormir. Então ABAIXA A PORRA DA VOZ. Principalmente se sua voz é irritante.

Mas gente que tem voz irritante nunca sabe que tem voz irritante. Então ela fez questão de rachar meu ouvido a noite inteira. E quando estava finalmente dormindo, o marido/namorado/noivo/acompanhante/whatever fez questão de acordá-la durante uma parada pra comer uma coxinha.

Aí ela reclamou da coxinha. Aí ele pediu pra ela comer pelo menos um pedaço. Aí ela reclamou do tamanho da coxinha. Aí ela perguntou por que ele não tinha comprado biscoito de polvilho. Aí ele desceu e voltou com o tal biscoito e uma garrafa de suco. Aí ela reclamou do tamanho do suco. Aí ela reclamou que ele não tinha trazido canudinho. Aí, quando ela já tinha se entupido de comida, ainda conseguiu reclamar por ter sido acordada. Eu quase virei pra trás e concordei.

Acabou que eu nem tive tempo de ficar irritada, porque paralela a esta cena acontecia outra surreal: enquanto saíamos de uma rodoviária, avistei ao longe um caminhão, com a luz acesa e um casal. Fazendo sexo.

Eu pensei que não, não era possível. Era a noite, era a distância, era a miopia. Mas não, amigos. Era verdade. Porque o ônibus passou ao lado e eu vi. Surreal porque estavam no meio da rua, luz acesona, porta do passageiro aberta, senhôra debruçada no volante e companheiro atrás. Mais surreal ainda porque, naquele ônibus cheio de velhinhas beatas de interior, ninguém esboçou qualquer reação, o que me me faz temer pelos meus sonhos, pela minha visão ou pela minha sanidade.

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