O gosto agridoce da Irmandade

Eu estou chegando atrasada na conversa. Não entendi direito por que estavam falando tanto de sororidade nos últimos dias, e a bem da verdade ainda estou me situando. Mas li alguns bons textos sobre o assunto e achei por bem dar o meu pitaco.

Eu me encontro em diversos pontos do espectro dos debates. Primeiro, porque sou moça branca cisgênera não deficiente de classe média, o que por si só já me confere um privilégio inegável sobre outras mulheres. E, como tal, embora eu tivesse passado toda a minha vida tentando me livrar dessas barreiras de cor, identidade e classe, eu posso muito bem ter feito – e provavelmente fiz, visto que sou passível de erros -, sim, discriminações, porque não é preciso estar consciente do seu preconceito para realizá-lo. Muitas vezes nós apenas nos desligamos das alternativas, não nos damos conta do que é diferente, simplesmente porque estamos sempre egoisticamente focadas no default, e causamos um desconforto não por malícia, mas por negligência. Negligenciar também é discriminar.

Apesar disso, eu também tenho em mim características de minoria. Como ser bissexual. Já falei e reafirmei aqui sobre bifobia, por exemplo. Que pra muita gente parece absurdo e forçação de barra, mas eu continuo jurando que não é. Existe discriminação, sim, tanto hétero quanto homossexual quanto a quem não está ‘nas pontas’. Mas este não é o ponto. Era só um exemplo para dizer que eu não estou de todo no grupo que retém o privilégio. Minha sexualidade, minhas crenças, meu físico, meu conceito particular de sororidade me arrastam em parte para fora.

Eu gosto muito desse termo. Sororidade. Sisterhood. É maravilhoso pensar em um grupo de mulheres que se apoiam. No entanto, eu fui muito ingênua, admito, em pensar que todo feminismo é receptivo. E isso mostra muito como o meu privilégio me cega. Eu mesma já sofri retaliações por não ser ‘adequadamente feminista’, e cá estou eu surda ao preconceito que outras pessoas sofrem dentro do próprio movimento. No meu mundinho bonito de gente tranquila, todo mundo é legal e inclusivo. De novo, porque eu sou branca, de classe média, estudei em uma boa universidade, convivo com a ‘elite intelectual’ (who?) e não preciso me bater diariamente com preconceitos absurdos. Até os preconceitos que eu sofro são ‘privilegiados’, porque estão em foco no momento e não me botam pra apanhar na rua.

E me dói, sim, ver a gente se batendo dentro da tal sororidade. Eu preferiria mesmo que o fato de ser mulher, de saber o que é discriminação, ainda que você seja discriminada por um fator só enquanto sua companheira é discriminada por dez, trouxesse automaticamente o bom-senso de nos apoiar.

E é aí que entra o entendimento mútuo. Um lado entende que não é preciso nascer mulher pra ser mulher e que ser pobre é diferente de ser rica, e o outro entende que é natural a gente pender a uma questão ou outra. O fato de eu ter uma tendência maior a me envolver com movimentos referentes à atuação física feminina ou ao movimento gay e transgênero não exclui o meu apoio às questões negras, de classe ou de deficientes. E deveria ser só isso. Você faz o que sabe e eu faço o que eu sei, e a gente vai juntando essas pecinhas e montando um todo melhor. Esse é o meu conceito de sororidade. E é por isso que me aborrece ver esse boxe desnecessário. As críticas têm que ser feitas E aceitas por todos os ramos. (Isso no meu mundo de arco-íris e unicórnios, é claro, porque humano é humano e nada é assim preto no branco.)

Apesar disso, infelizmente, a situação não me espanta. Não é de hoje que eu vejo esse sentimento de correr para salvar a própria pele e apoiar somente o que é conveniente. A real é que, antes de lidarmos com feminismos, nós temos que lidar com humanidades, e isso passa por entender que lutar por ou contra alguma coisa é nada mais, nada menos do que uma projeção dos nossos medos e fantasias individuais. É uma certa ilusão acreditar que um conceito A abarca outro B, porque sempre haverá dissidência – e ela não é necessariamente ruim. Por uma questão fonética, the F word nunca será the T ou the L ou the B word. É preciso juntar o alfabeto.

– Os dois textos mais sensatos que eu li sobre o assunto: “A sororidade que não transa críticas“, da Srta. Bia; e “Sororidade 101: sobre feministas brancas, cisgêneras e classe média“.

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