Férias

2012-03-26-productive

My Cardboard Life

Anúncios

26 anos, 7 meses e 8 dias

Eu estou tão cansada de dizer que estou cansada… Estou muito, muito, muito cansada da forma como as coisas são feitas nesse lugar, da homofobia, do preconceito, dos ‘diretos humanos para humanos direitos’, do capitalismo selvagem, da imposição da fé.

Eu queria viver em modo berserk, só esbofeteando os escrotos que acham que têm o direito de sair por aí causando na vida alheia. Mas a verdade é que eu não sei, eu não posso, eu não consigo. A verdade é que eu só queria viver num mundinho cor de rosa onde todo mundo é legal e amigo e respeita todo o resto que não é ele mesmo.

Eu costumava ter essa fantasia enquanto eu crescia. Como sempre fui chegada em culturas diversas, sempre imaginei um lugar em que todo mundo convivia em paz. Não pelo ‘conviver em paz’, porque isso era um non-issue pra mim, nem conseguia imaginar nada diferente. Todo mundo convivia no sentido de aprender e admirar a diferença alheia. Muçulmano com judeu com chinês com branquelo com zulu com charrua com mulheres-girafa. E agora eu tenho a vergonha de admitir que isso é a coisa mais ingênua que eu já imaginei na vida.

Eu estou cansada de estar cansada, estou cansada de chorar todos os dias por comentários cruéis de reportagens do G1, de gente que gosta de ser ignorante. Estou cansada de dizer que estou cansada. Mas, infelizmente, é só assim que eu consigo continuar. Quando eu paro pra fazer um mimimi e alguém me sussurra que eu tenho que seguir, que ainda tem muito a ser feito.

Eu quero parar, lavar as mãos. Mas ainda tem muito a ser feito. Tenho que continuar. Tenho que continuar. O meu mantra atual.

Ma foi est mon combat.

Tempo de folga para escrever e revisar este texto dentro do ônibus

Acho que quem nasce e passa a vida inteira em capital não tem noção de como a vida em uma é ridícula. Quem é do interior passa a vida querendo ir pra ‘cidade grande’, mas na verdade esse deve ser o sonho mais furado de todos.

Até eu caí nessa, veja bem. Eu, cujo único sonho era parar quieta em uma cidade só depois de passar uma infância inteira excursionando pelo interior de São Paulo. Nunca gostei de capital, abominava São Paulo e Rio desde sempre. E o problema foi esse, acho; essa cabeça de paulista de achar que só existem dois estados no Brasil.

Quando eu descobri a existência de Belo Horizonte, surgiu uma ilusão de uma capital tranquila, bacana, sem aquele estresse que eu costumava associar a metrópoles. E, de fato, nos primeiros anos foi assim. Não sei se porque de repente todo mundo teve a mesma ideia que eu ou se foi só o fato de que eu não punha meus pés fora da Pampulha.

Pode ser também que o poder aquisitivo tenha aumentado e o preço dos carros, diminuído. Porque a verdade é essa: o que me irrita, no fundo, é o trânsito, são os carros, é o levar duas horas pra chegar no trabalho. Porque, bem, eu sou a ‘sortuda que tem que pegar um ônibus só’.

Existem um milhão de desculpas. Toda vez que você questiona a necessidade dos carros, alguém ou fica profundamente ofendido ou concorda, mas faz a ressalva para o próprio caso, porque, afinal, “eu preciso muito”. E eu entendo a vontade, o sonho, o símbolo de status. Cada vez que eu entro num ônibus lotado, com gente me acotovelando pra pegar um lugar pra sentar, eu entendo. Todo mundo tem direito a querer ter conforto. Individualmente, isso é lindo; idealista, até. Só que quando a gente multiplica por um milhão e meio, acabamos é com um belo de um problema.

Belo Horizonte é a terceira capital com mais carros no Brasil. E, olha, não comporta de jeito nenhum. E o que você mais vê é gente querendo tirar carteira e botar mais um carro na rua. Gente que tá dentro do ônibus assistindo à insanidade e querendo contribuir mais um pouco. Dia desses eu estava num debate sobre isso com uma aluna e ela me disse, com ar de resposta óbvia: ‘se você fosse escolher entre ficar duas horas no ônibus e ficar duas horas no seu próprio carro, o que você escolheria?’ E eu respondi que o ônibus, na verdade, era a minha escolha. Ela arregalou os olhos e não soube muito bem como reagir diante de uma louca.

E eu sei o quanto a minha resposta é, sim, absurda. A minha escolha é absurda. Eu não posso nem sonhar em querer que metade da população bote a mão na consciência por uma causa dessa quando o serviço de transporte público é um lixo, os funcionários são mal pagos, mal treinados e fazem o que querem – além de atender muito, muito mal os usuários – e o preço da brincadeira só aumenta. É melhor mesmo ter um carro, mesmo que isso signifique que a população inteira da cidade vá chegar mais tarde para o jantar.

Eu não estou fazendo mimimi por fazer. Claro que minha relação com o trânsito é de ódio desde sempre, mas na verdade agora eu só estou frustrada, mesmo. Porque eu parei pra fazer as contas e me dei conta do tamanho do prejuízo que eu levo, de bolso e de vida. Trabalho 27 horas por semana. Vida boa? Preguiça? Não, trânsito. Pra cada hora de trabalho minha, eu gasto mais uma no trânsito. Ou seja, mais 27 por semana. São 27 horas que eu não posso usar para dar outras aulas.

Quando eu comento isso por aqui, a reação é sempre uma cara de interrogação. Qual o problema, afinal? Isso é normal. Pra quem não sabe o que é sair de casa pra um compromisso dez minutos antes e chegar a tempo, isso é normal. Pra quem não passa uma semana sem ver um acidente desnecessário, isso é normal. Pra quem não sabe o que é preferir ficar em casa no feriado a viajar porque a viagem vai render mais cansaço e estresse do que o saudável, isso é normal.

Neste exato momento, eu tenho dois compromissos para as próximas horas e estou seriamente tentada a não ir, porque quando chega o descanso tudo o que a minha alma velha quer é não ter que olhar pra rua.

Metropolitanos adoram tirar onda do pessoal do interior. Perdoem-lhes. Eles não sabem o que é vida.

Procura-se verso bíblico que defenda a paz matinal

Estava eu indo para o trabalho hoje de manhã quando um senhor adentrou o ônibus pra vender aquelas canetas de um real com a finalidade de ajudar alguma instituição evangélica para dependentes de drogas. Não, não vou entrar no mérito de ser bom ou ruim ou falso ou verdadeiro ou de eu odiar pregação ou de como um discurso religioso broxa possíveis contribuintes e invalida sua causa. Tenho minhas próprias ressalvas e elas ficam por aqui.

O que quero que vocês analisem é: são 5 da manhã, o ônibus está lotado como o inferno, eu estou com sono – dormi apenas duas horas -, um belo de um mau humor matinal e uma criatura vem buzinar versos bíblicos no meu ouvido. Meu senhor, o senhor é um fanfarrão!

Eu sou ariana, perco um pouco do meu autocontrole na raiva. Não, não fiz nada, não se preocupem. É só que eu acho que minha raiva fica ligeiramente aparente. Percebi hoje pela cara das pessoas me olhando. Lá pelo sétimo versículo a minha irritação era palpável e dava pra cortar com uma faca. É possível que eu tenha rosnado.

Dia desses, eu arrumei um chato de estimação. Ele sempre vinha sentar ao meu lado. Eu de fones de ouvido, com cara de poucos amigos e a pessoa lá, conversando. Há de se admirar a coragem e a persistência humanas.

Portanto, senhores, um apelo: tento ser uma pessoa legal e agradável, abraço pessoas e ajudo velhinhas a atravessar a rua, mas, por favor, não toquem no meu humor matinal! Ele morde.

Trajeto #2

Na sexta eu estava numa lanchonete, na rodoviária, esperando dar a hora do meu ônibus. E tinha passado o dia todo ouvindo falar sobre fim do mundo e arrebatamento. Aí uma velhinha se sentou na mesa ao lado. Comeu o lanche dela e se levantou pra sair. Tinha cadeiras no caminho, aí eu fui ajudar. Ela agradeceu e perguntou pra onde eu ia. Respondi. Perguntei pra onde ela ia.

– Pro fim do mundo.

Pensei: ‘PUTAQUEOPARIUAGORAAVELHINHAVAIMECONVERTER!’.

Tadinha. Era só uma expressão. Ela ia pra Montes Claros.

.

P.S.: Gente, não tenho nada contra Montes Claros, viu? Nem conheço. Quem chamou de fim de mundo foi ela!

There, I fixed it!

‘Cês já viram esse site? Então, lembrei dele agora porque mexi na cama e me dei conta de que eu vivo num mundo muito redneck.

Acho que pouca gente sabe dessa história. Eu guardo pra contar pra pessoas, ouvir um “ÔRRA!” e matar de desilusão logo depois, mas o fato é que, no meu primeiro ano de BH, eu quebrei nada menos do que quatro camas.

Você pensa que uma pessoa assim é muito bem-sucedida sexualmente, né? É. Não fosse o fato de que em nenhuma dessas vezes aconteceu nada remotamente parecido com sexo.

As três primeiras camas quebradas pertenciam à pensão onde eu morei. A primeira era fraca, eu sentava na beirada por horas mexendo no laptop, foi cedendo e eu nem percebi. Aí um dia cheguei de viagem de madrugada, cansada, tinha comido um salgado mofado num bar de estrada, toda ungida na lei de Murphy, sentei na cama, PLOFT! Só tenho dó da Bá, que dormia no quarto debaixo, porque eu só puxei o colchão pro outro canto e dormi.

Aí botaram uma cama lá provisória, mas era pior do que a outra. Quebrei de novo. Filhos, façam a coisa direito!

A terceira foi a da vizinha de quarto. Não estávamos fazendo nada, juropordeus e tenho testemunhas. Só que nós nos sentamos juntas – a essa altura você já percebeu que todas as camas dessa casa eram bichadas – e chão.

Aí eu mudei. Você pode até pensar que foi de vergonha, mas não. Fiquei um tempão me remoendo de remorso pelo prejuízo, mas você veja como são as coisas: a dona da pensão era filha da puta, sacaneou todas as outras meninas e me expulsou, então tudo o que eu penso hoje em dia é que PAPAI DO CÉU TÁ VENDO, FILHA DA PUTA!

Vim pra cá e desde antes já tinha decidido que não ir ter cama. Porque antes de sair de Barretos eu não tinha. Passei tantos anos enchendo o saco da minha mãe, pedindo um quarto japonês, que um belo dia eu cheguei em casa e ela tinha tirado a cama e deixado só o colchão. “TOMA AÍ O SEU FUTON!” Acho que ela queria que eu pedisse a cama de volta, mas não funcionou.

E eu ia voltar aos velhos tempos, mas a alta cúpula familiar proibiu. “VAI TER CAMA, SIM, SENHORA!” Mas eu não queria gastar. Então lá vieram minha vó e o motorista trazendo uma cama que era considerada relíquia de família porque tinha pertencido ao meu biso. Veja bem. As pessoas arriscam.

Chegaram aqui, meu padrasto tinha mandado os parafusos errados. Depois de uma hora de sérias conferências entre motô e padrasto via celular, eles acharam que seria uma ideia muito genial aumentar os buracos dos parafusos pra fazê-los caber. Lógico que umas três horas depois eu fui dormir e a cama foi encontrar meu biso lá no céu.

Mas aí vem a parte bonita da coisa. Porque eu pensei que ia me livrar da tal da cama, mas a Marília – a minha mãe de BH -, que só não é mais redneck que meu padrasto, não curte jogar coisa fora. Tudo dá pra consertar. Então um dia eu cheguei em casa e o lado da cama que tinha rachado – que felizmente é o que fica encostado na parede – tinha sido amarrado em toda a sua extensão com sacos de plástico. Como uma das pontas estava irremediável e sempre ficava mais baixa, ela colocou um toco de madeira em pé equilibrando o estrado da cama.

Ficou lindo, exceto pelo fato de que não definivamente não dá pra fazer sexo sobre ela. Nem virar pro lado à noite sem acordar os outros moradores. Nem tirar a cama do lugar. E é claro que toda semana eu deixo algo cair lá atrás, esqueço, movo a cama, cai tudo e oh, fuck.

Se fosse futon, isso não aconteceria. Eu avisei.