Snow White e a minha falta de vontade de pensar num título

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!]

Fui ver Snow White And The Huntsman. Gostei, tem efeitos excelentes, figurino lindo, trilha bacana. E tem o Thor, claro. Lógico que tem mil falhas. Cheguei pronta pra escrever um texto sobre elas. Mas aí li esse artigo da Ms. e decidi que o meu papel aqui é o de advogada do diabo. Sim, muitas coisas me incomodaram, mas não com essa virulência do artigo. Achei um tanto sem propósito.

Eu não sei se a Natalie Wilson esperava demais do filme. Eu não. Talvez por isso não tenha me decepcionado. Aliás, ao contrário dela, achei, sim, que deu grandes passos pra frente, considerando-se que é um conto de fadas hollywoodizado.

A primeira crítica que ela faz é sobre a suposta passividade da heroína. Não a achei, em nenhum momento, passiva. Ele fere um homem pra fugir, corre e cavalga feito o diabo até desmaiar. Eu não esperava que ela fosse sair da torre de espada na mão e lutando, por favor. Ela tem lá os momentos de donzela salva pelo mocinho, ok, mas ela é muito ativa e tenta se salvar a todo custo, coisa que uma mocinha tradicional jamais faria. No máximo, choraria pela própria vida.

Nesse sentido, ela também critica a rainha. Diz que não tem motivação, que ela só segue o que manda o espelho. Ora, como não tem motivação? Ela a repete o tempo todo: se vingar, se vingar, se vingar. A única função do espelho é apontar se ela ainda é a mais poderosa ou se existe algo a ser destruído.

Natalie diz que o modus operandi do filme é vilanizar o envelhecimento feminino, que o filme sugere que a fixação por beleza vem da mente louca das mulheres, perdendo assim uma boa chance de criticar a obsessão hollywoodiana por perfeição. E eu discordo, porque o filme faz, sim, uma crítica, embora de forma muito sutil. Em nenhum momento sugere-se que Kirsten Stewart é mais bonita do que a Charlize Theron. Até porque isso geraria algumas vaias. Durante todo o tempo os personagens repetem que a ‘verdadeira’ beleza do reino está em Branca de Neve, e não é a sua aparência; é o espírito bondoso. A obsessão por beleza da rainha vem sim do externo, do outro, da necessidade de utilizá-la para dominar os homens e se vingar. Ela diz que foi trocada por outra mais jovem, que os homens usam as mulheres e depois jogam fora. A crítica está aí. Não é que a obsessão por beleza surgiu da loucura dela; ela é que ficou louca por conta da obsessão.

O único problema disso, apontado certeiramente pela autora do artigo, é que a rainha é tida como a feminista malvada. Existe uma tendência Cersei Lannister atualmente de vilanizar certas personagens que se tornam arredias depois de terem sido abusadas de alguma forma por homens, e eu não gosto. Tá ok a BdN se vingar da rainha que fez mal pra ela, mas não pode a rainha se vingar dos seus próprios agressores? (Sim, é claro que a proporção é outra; a crítica aqui não é só à Ravenna, mas sim a todas as histórias que vêm adotando essa linha de vilãs.)

Outra coisa que ela critica é o Pai Nosso que a princesa reza. Eu também fiquei bastante incomodada, confesso. Mas, numa conversa que eu tive depois com a amiga que me acompanhou, ela pontuou que é uma história passada na Idade Média, portanto faria sentido. Se a gente comparar com a prece pagã que Maximus faz em Gladiador, faz sentido. Não importa que isso não apareça no conto que a gente ouviu quando era criança. Você provavelmente era cristã nessa época, sua família era cristã, então fica implícito. Não tem por que explicar. Continua me incomodando? Continua. Definitivamente não gosto da propaganda. Mas não está descontextualizado.

O comentário mais WTF dela é sobre os animais. Ela implica com as fadas, com o veado, com tudo. Moça, você entrou no cinema pra ver Branca de Neve ou Duro de Matar? É um conto de fadas, gente. Espera-se que tenha momentos nauseantes. LOTR e HP também têm isso. É fantasia. E eu nem achei forçado assim. O veado é lindo, e está lá pra mostrar a beleza dela. Ok, é uma alusão a deus. E é bonito.

Sobre o caçador. Tá, o romance é um saco, ele não tem porque estar no título do filme, mas, ó, poderia ser bem pior, hein? Pelo menos agora ela cuida do seu próprio destino e é ele quem a acompanha. Não, ele não a salva – não no ápice. Ela lidera seus homens, invade o castelo e mata a rainha, enquanto ele não consegue se livrar do feitiço dela – é ela quem o salva. E ele a segue, não o contrário. Quando descobre que ela é a princesa, boa parte da sua arrogância se vai e ele se deixa guiar por ela.

Se tem uma coisa em que o filme ainda peca, e muito, é no maniqueísmo. Isso sim incomoda. Não sei até onde a gente pode retirar o dualismo sem destruir o conceito de conto de fadas, mas é o que falta mudar. O bem absoluto – a moça pura que reza – contra o mal incorrigível – a rainha impura, violada, que quer se vingar a todo custo.

Ademais, é divertido, cheio de referências, vale a pena. É um grande salto, sim. Eu queria ver mais? Queria. Eu queria ver um exército inteiro de amazonas, não só a Joana D’Arc. Mas já é um começo. A Branca de Neve que a sua filha vai ver usa armadura. E, se você que foi criada vendo aquela saia amarela sem graça é feminista, imagina então o que ela vai ser.

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Adolescence of Utena: enfim, o filme!

Juro que eu queria achar esse filme uma merda. Juro. Porque eu tô me achando um saco de tão repetitiva. Mas que filme! Que filme! Eu vou ter que dar o braço a torcer pro Ikuhara.

O filme não tem nada a ver com o anime. O espírito é o mesmo, mas a história é outra. Os personagens são os mesmos, mas as personalidades são outras. A Utena é a mesma, mas a motivação é outra. E ele é muito mais explícito, até mais agressivo, na mensagem. [Atenção para possíveis spoilers a seguir.]

Anthy está diferente. Muito. Mais tagarela, mais solta. Mais sensual. Aliás, essa é a grande diferença do anime pro filme. Embora o sexo esteja constantemente presente no anime, no filme fala-se abertamente sobre. Sobre todo sexo. O incesto está de volta. A homossexualidade também aparece escancarada. Nada meramente sugestivo, como no anime.

A cena da dança, a famosa, é realmente de tirar o fôlego. Aliás, o filme todo é assim. A estética é impecável. Dispensaria a cena da vaca. Se a Nanami não ia aparecer no resto do enredo, por que enfiar aquela coisa nonsense ali? Bom, na verdade nem dá pra criticar nonsense quando se fala de Utena. Mas eu dispensaria.

Uma coisa: lembro de ter lido em algum review da Valéria-sama que no filme Utena se passa por menino na escola. E não é verdade. Tanto que, na cena em que Saionji descobre que Utena é uma menina, ela mesma diz que nunca havia dito não ser menina. Ela simplesmente age neutramente. É claro que, considerando-se que a palavra ‘eu’, em japonês, é dita de formas diferentes de acordo com quem fala, e que o padrão para meninas é ‘atashi/watashi’ e para meninos é ‘boku’, e Utena usa boku, a confusão acontece facilmente. Mas, de fato, como ela diz, em nenhum momento ela diz ser menino. Os outros personagens simplesmente presumem que seja por causa de um padrão. De fala, de roupas, de comportamento.

E é essa a missão do filme, afinal. Questionar esses padrões. Como se já não fosse claro o suficiente, a mensagem é explícita quando Anthy… Bom, aqui vai um spoiler gigante, então, se você pretende ver e não quer que eu arruine sua interpretação do FINAL do filme, melhor parar por aqui. Aproveite!


Pra quem ficou: Anthy se recusa a voltar com Akio pro mundo onde ela é um ‘cadáver vivo’. Essa é, aliás, a parte mais polêmica do filme. Porque, ao meu ver, é um suicídio. Ela está escapando de um mundo que faz mal para ela. A expressão ‘cadáver vivo’ já dá uma ideia, eu acho. E tem todo um jogo de coisas que sugerem isso. Como quando ela olha para os pneus do carro-castelo e diz que ali está a saída – e se joga debaixo deles. Mas dizer essas coisas assim não faz sentido nenhum pra quem assistiu, então eu paro aqui.

Me disseram que Utena é confuso pra quem nunca assistiu o anime, mas eu discordo. Não dá pra avaliar, já que eu já vi o anime várias vezes e já conheço toda a mitologia de Utena desde a adolescência – cara, hoje que eu me dei conta de que isso faz dez anos! -, mas acredito ser possível entender com facilidade. É claro que provavelmente não vai ter a mesma graça, já que uma das diversões é observar as diferenças entre o filme, o anime e o mangá, mas a mensagem está lá. E ela é válida. E, não fosse um filme tão adulto, eu diria que é obrigatório pra toda criança. Porque quando eu tiver uma filha e ela tiver idade pra entender, ela vai assistir.

Programação de férias

FÉRIAS! A ficha só tá caindo agora, apesar de eu estar de folga desde sexta. E acho que eu nunca curti tanto assim um início de férias. E isso é muita coisa.

Talvez seja a sensação de que essas serão as únicas férias decentes que eu vou ter pro resto da vida, porque logo eu me formo e todo mundo já tá me passando todo aquele terror sobre vida de proletário, mas o fato é que eu estava ansiosa e passei o mês de junho todo pensando no que faria em julho.

No fim vai tudo por água abaixo, porque eu queria mesmo é ficar aqui em BH, por conta dos treinos, porque é a oportunidade que eu tenho pra pensar só nisso, mas eu tenho que ir pra casa também. Então eu vou passar um tempo aqui treinando, tem viagem de jogo no fim do mês, mas também vou pra Passos, pra Barretos, gastar um bom tempo na ociosidade. Já comecei a praticar o ócio desde já, aliás. Estou botando em dia filmes, séries e livros que queria ver/ler. Já risquei Game Of Thrones da lista. A série. Estou esperando arranjar os livros. E roendo unha de ansiedade pela próxima temporada.

Segue a lista das coisas que estou assistindo ou vou assistir nos próximos dias:

1. Daria

Comecei a quarta temporada.

2. Honey & Clover

H&C foi o anime que me acompanhou durante meu primeiro semestre em BH. Por ser ambientado numa faculdade e por ser centrado em um grupo de amigos, eu via muitas semelhanças com o que eu estava passando. Tanto que a primeira música de encerramento, ‘Warutsu’, acabou virando a trilha da época. Mas eu só tinha visto a primeira temporada, então estou assistindo a segunda agora. É lindo, lindo, e eu aconselho demais. H&C tem também o melhor personagem de todos os tempos, que é o Morita. A melhor cena também é dele: quando, em um festival escolar, ele parodia o Hikawa Kiyoshi. Gênero: josei.

3. Utena

Utena é o anime da minha vida. Sério. Tô pra ver um que vai desbancar. Só Ikeda poderia fazer isso, mas infelizmente a produção dos animes dela sempre foi incrivelmente fraca comparada à qualidade dos mangás. Utena é o contrário, aliás. Não gosto do trabalho da Saito, e acho que o anime só é o que é pela interferência do Ikuhara – e me custa alguma coisa admitir isso. O anime é razoavelmente feminista e toca em pontos ‘polêmicos’. É provavelmente o anime mais lembrado quando se pensa em yuri – e ele nem é explicitamente yuri -, e trata de papéis de gênero, homossexualidade e incesto. Também é um questionamento óbvio ao shoujo clássico, o que corresponderia ao questionamento ocidental aos contos de fada. Dá uma tese inteira, e de fato existem diversos artigos dedicados a ele. Um dia ainda faço um post sobre. Gênero: shoujo.

4. Azumanga Daioh

AD é um anime que me divide. Porque ele é bonitinho demais. Se você curte essa onda kawaii, esse é o canal. Mas é isso. Nada me tira da cabeça que é um anime feito pra estrangeiros, puramente estético. O mangá de AD é todo feito em tiras. Ou seja, as histórias são curtas e rápidas, então fica difícil transformar em uma animação tradicional. Os episódios são formados por várias histórias rápidas, no mesmo estilo, e essa foi a melhor solução, é claro, mas ainda assim existe um vazio, a história fica lenta e arrastada pra preencher o tempo.

Além disso, tem uma coisa que me incomoda demais, que é o moe. Existe um professor pedófilo na série. Pra mim, um personagem altamente dispensável, embora no Japão talvez seja uma piada óbvia quando se trata de um anime ambientado em uma escola. Uma piada de muito mau gosto, que, infelizmente, encontra eco num país onde existe um culto ao moe. Gênero: dizem que é shounen, mas pra mim tem mais cara de seinen.

5. Fruits Basket

Confesso que só comecei a assistir por causa do Shigure, que é um dos meus personagens favoritos de mangá, mas agora já estou criando simpatia por outros, especialmente pela Kagura. Gênero: shoujo.

6. Sailor Moon

HÁ! Clássico da infância de muita gente, com certeza. Tô aqui morrendo de nostalgia e pedindo a Manchete de volta. É um anime tão bobo, tão bobo, e por isso mesmo legal. Gênero: (mahou) shoujo.

7. 311 filmes

…and counting. Na verdade, eu parei de atualizar essa lista há um ano e meio, porque tá me dando medo o tamanho dela. Acho deprimente pensar que não dá pra ver todos os filmes que eu quero numa vida – até dá, mas ainda não arrumei ninguém que me pague salário pra isso. Os primeiros da lista são ‘Tasogare Seibei’, ‘Kundun’, ‘Paprika’ (se não me causar uma convulsão), ‘Le Silence de Lorna’ e ‘La Meglio Giuventù’.

E aí, quem me acompanha?

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Aproveitando o gancho do post, ontem eu finalmente assisti ‘Kagemusha’ e precisava vir aqui indicar. Já assisti ‘Ran’ e ‘Dreams’, mas foi só agora que eu acordei pro Kurosawa. Embora todo mundo fale muito de ‘Ran’, achei ‘Kagemusha’ bastante superior – mas é só a minha opinião, afinal. Eu me apaixonai pelo Nakadai no papel do kagemusha e pelo Ryu Daisuke como Nobunaga.

Um vislumbre do rei

Eu tenho uma certa ojeriza da Academia. Por exemplo, essa coisa de indicar dez títulos na categoria de ‘Melhor Filme’. Eu não sei pra que tanta balela se a gente já sabe que pelo menos cinco deles não têm absolutamente a menor chance. Estão lá só pra destacar o resto. Não que sejam piores; muito pelo contrário. É que a Academia é óbvia assim. A gente já até sabe o que vai ser indicado.

Não tem muito mistério. Cisne Negro, O Discurso do Rei, A Origem, A Rede Social e O Vencedor são os reais competidores com cara de Oscar. Quando a lista saiu, eu, no meu ano mais relapso, percebi que não tinha visto nenhum dos indicados. Nenhunzinho. E já corri pra fazer a lista. Mas dos dez indicados ao maior prêmio, só quatro me chamaram a atenção – só dois dos citados acima: Cisne Negro, O Discurso do Rei, Minhas Mães e Meu Pai e Inverno da Alma.

Não é bem questão de qualidade, e sim de gosto pessoal. Não tenho saco pra assistir 127 Horas, Toy Story ou O Vencedor;  Bravura Indômita não me conquista; A Origem eu vou assistir só por obrigação. O único que eu quase faço questão de não ver é A Rede Social.

Os outros eu quis ver genuinamente. ‘Minhas Mães…’ e ‘Inverno da Alma’ ainda não consegui. ‘Cisne Negro’, nossa, é imbatível. Ou seria, não fosse a Academia. E ‘O Discurso…’, ah, esse é polêmico.

Na realidade, eu mal tinha ouvido falar dele antes da indicação. Fiquei surpresa ao ver que é o favoritíssimo em número de indicações. Na minha ingenuidade, ‘Cisne Negro’ teria muito mais.

Mas fui ver. E foi quase um tédio. É O filme com cara de Oscar. Superação pessoal, blábláblá. Sendo um rei, então… Acho que os velhos da Academia gozaram. Até o Colin Firth consegue ficar apagadinho. E isso é uma proeza.

Eu não fiquei apática, não. Sofri com toda a gagueira real. Me dava uma aflição imensa vê-lo começar a falar e não conseguir. Principalmente no discurso inicial. Mas é uma história morna, sim. A não ser por uma cena.

Foi lá pelas tantas do filme. Vocês vão me perdoar, mas já faz uns bons dias que eu vi o filme, então não vou lembrar o timing. Nem do filme, nem o histórico. Mas acho que na tal cena a guerra ainda não tinha começado. Faz mais sentido.

George VI estava sentado, assistindo um discurso de Hitler. Uma de suas filhas, provavelmente Elizabeth (futura II), pergunta ao pai o que ele está falando. O pai responde: “Não sei, mas certamente ele fala muito bem.”

Foi aí que eu entendi o filme, que ele fez sentido. Talvez não tivesse sido a intenção do diretor, só um devaneio meu, mas eu quase gritei ‘EUREKA!’. Naquele momento, o rei inglês e o ditador austríaco estavam sendo comparados. O discurso dos dois, as metáforas. George, o gago, o segundo filho, sem disposição nenhuma pra governar, à frente de uma Inglaterra decadente, versus Adolf, o tirano carismático, que já tinha as potências europeias nas mãos e parecia querer tirar a Alemanha do caos pós-guerra.

A cena marca o início da real superação do rei, das dificuldades. Ainda que sem poder prático, George VI seria uma importante figura dentro de seu país durante a Segunda Guerra.

Mas seja essa a intenção do filme, seja só uma interpretação pessoal, ele ainda é fraco. Continuo surpresa com o número de indicações. Reduziria pela metade, a começar com o prêmio principal. ‘O Discurso do Rei’ não deveria levar o principal prêmio do cinema. Muito menos em ano de ‘Cisne Negro’.

Louis Theroux

Quando eu morava com as inglesas, em 2008, assisti, por influência delas, ao documentário The Most Hated Family in America, sobre a Westboro Baptist Church, uma igreja de lunáticos que pregam que Deus odeia os EUA – o mundo inteiro, na verdade – por ser uma cultura pró-LGBT. Foi o meu primeiro documentário do Louis Theroux. Eu me apaixonei, virei fã na hora, mas só consegui assistir a outras obras dele esse ano. Acordei a fim um dia e baixei tudo pelo santo torrent. E vim assistindo nos últimos meses.

Louis começou a carreira na BBC com o programa Louis Theroux’s Weird Weekends, transmitido entre 1998 e 2000, onde ele ia atrás de subculturas, coisas consideradas ‘bizarras’ pra sociedade em geral. Na primeira temporada, por exemplo, ele fala de cristãos ‘renascidos’, ufologia, indústria pornô e sobrevivencialismo. Essa primeira, aliás, é minha favorita. Tem cinco episódios ao todo; um pra cada tema citado e um especial, onde ele reúne um participante de cada episódio para passarem o Natal juntos.

Entre 2000 e 2002, ele apresentou o When Louis Met…, onde ele acompanhava por algum tempo o dia-a-dia de alguma celebridade britânica de que você provavelmente nunca ouviu falar. Esse programa não me chamou muita atenção, justamente por isso – com uma ou outra exceção – e pelo fato de que, por mais bonito que seja o sotaque britânico, eu não entendo lhufas. O Louis é muito fácil de entender, mas, quando algum sotaque mais hardocore entrava em cena, tudo o que eu podia fazer era chorar. Foi o caso do Jimmy Saville. Mas foi interessante acompanhar os Hamiltons, a picaretagem do Max Clifford e o puritanismo da Ann Widdecombe.

Mas a fase mais interessante dele começa em 2003, quando ele parte para os especiais da BBC 2. Além do ‘The Most Hated Family…’, estão entre os meus favoritos ‘Louis and the Brothel’, sobre um bordel em Nevada; ‘Louis and the Nazis’; e ‘Behind the Bars’, sobre o presídio americano de San Quentin.

O que me fez simpatizar definitivamente com o Louis, depois de tudo, foi perceber o quanto ele se arruinou – consciente ou não disso – com seus primeiros documentários. Ele tem cara de pastel e parece à primeira vista ingênuo, e com isso cativa quem ele entrevista. Como todo jornalista, tenta caçar polêmicas, mas usa desses atributos para conseguir o que quer, o que acabou rendendo a ele uma imagem de perverso. É possível ver o quanto isso afeta a credibilidade dele conforme você avança nos documentários. No que trata do Michael Jackson, por exemplo, Louis não consegue uma entrevista porque várias pessoas que poderiam ter arranjado isso para ele não confiavam no desfecho do documentário.

Louis não vê o menor problema em botar o dedo na ferida, e suas perguntas costumam ser muito diretas. Houve vezes em que eu mesma me incomodei. Pensei ‘oh, Louis… Você não precisava ter feito isso’. Não sei se me agrada ou me incomoda o fato de ele saber exatamente o que está fazendo. Mas eu passei a admirar muito a firmeza que ele tem no que acredita.

Duas cenas me marcaram. A primeira foi no doc do MJ. A cena da segunda vez em que ele entrevista Joe Jackson. Ele pergunta se Joe gostaria que Michael ‘sossegasse’ – no sentido de ter um relacionamento firme com alguém. Joe – ou o outro cara que estava junto, não me lembro – pergunta se ele se referia a ter uma esposa, ao que ele responde que sim, esposa, ou namorada, ou namorado. Joe fica ofendidíssimo – e obviamente arremata com afirmações ultra-homofóbicas -, mas Louis não pede desculpas pela pergunta. Ele explica qual foi sua intenção ao dizer aquilo, mas não se desculpa. É óbvio que ele sabia que estava cutucando, mas ainda assim é bom.

A outra cena acontece no documentário sobre os nazistas. Louis vai até a casa de um skinhead e, no meio das filmagens, pergunta o que ele faria se descobrisse que Louis é judeu. O nazi afirma que o expulsaria de casa e pergunta se ele é. Louis pede licença para não responder, do que o nazi deduz que ele é, então, judeu. Louis explica que não respondeu que sim nem que não, e que não vai responder porque, pra ele, aquilo não tem importância, e que, se ele respondesse, passaria a imagem de que tem. O nazi continua incomodado e, algum tempo mais tarde, retoma o assunto, mas depois de muita insistência Louis ainda não responde e vai embora.

Parece bobo, mas quantas pessoas não teriam respondido à pergunta? Quantos jornalistas, no afã de obter a entrevista, não responderiam? Eu responderia. Não pensaria muito, simplesmente diria, por puro impulso. E eu acho fantástico como ele não se dobra.

Eu me peguei simpatizando muito com alguns personagens, como os caras que o ajudam a participar do ‘demolition derby’, ou o Mike Cain, um sobrevivencialista muito simpático com cara de Papai Noel. Também passei raiva, como com a mãe das Prussian Blue ou com o Eugène Terre’Blanche. Dá pra se envolver demais.

Carimbei minha carteirinha de fã.

Dia 243: Rapidinhas

Ontem eu citei o documentário sobre host clubs e esqueci de comentar duas coisas.

A primeira é que existe um outro documentário, este sobre onnabe, que eu estou procurando há anos. Se chama Shinjuku Boys, é de 1995 e dificílimo de achar. Eu, pelo menos, não consegui. Assim, se você, boa alma, souber onde eu posso encontrar, agradeço muito.

A segunda é sobre o primeiro documentário. Em uma das cenas finais, filmadas na rua, dá pra ouvir uma brasileira gritar ‘filma eu!’. Eu não acreditei; precisei voltar umas cinco vezes pra ouvir. Mas está lá.

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Também estou pra passar esse link há dias. Que foi a Leticia que twittou, eu acho. É sobre estereótipos que se tem por aí com relação a nacionalidades, e o meu estereótipo americano está lá, bem em primeiro lugar.

E eu precisava dizer que não, eu não quero justificar preconceito nenhum com aquele post. Todo preconceito é idiota.