‘Bi’ de ‘cuida da sua vida!’

Eu comecei a perceber minha atração por mulheres quando eu tinha, sei lá, 14 ou 15 anos. Continuei minha vida normalmente, não parecia nada fora de normal. Primeiro, porque eu tinha crescido num ambiente gay-friendly. Segundo, porque sempre ouvia falar que é normal – e é normal – rolarem questionamentos sobre a própria sexualidade na adolescência.

Ok. Cheguei aos 18, 19, percebi que não era só questionamento, não era fase. Eu realmente gostava de mulheres. Nessa época, eu achava que eram só mulheres e que essa coisa de gostar de homem, sim, é que tinha sido fase, reflexo da minha educação. Me considerei 100% lésbica por uns bons dois anos, até que, já aqui em BH, eu percebi que estava enganada.

Aí eu passei a dizer que gostava de homem e mulher de jeito igual, não tinha preferência. Mas com o tempo veio outro baque porque, né, a pior coisa pra uma pessoa que tem toda essa delicadeza natural – não – é ter que encarar o fato de que provavelmente não vai pegar ninguém pro resto da vida gostando de homem.

E o fato é esse. Eu acabei descobrindo que tenho mais atração por homem do que por mulher, e blablablá. Tanto faz,  isso. TANTO FAZ. Isso não diz respeito a ninguém, e na verdade a única coisa que mudou foi que eu passei a fazer a alegria das héteros da minha timeline twitteira com os jogadores de rugby seminus que posto ocasionalmente.

Mas por mais que eu brigue diariamente e diariamente leve na esportiva piadinhas sem graça, a verdade é que uma hora cansa. Poxa. Se toca. ‘Cê acha que bissexual é bagunça?

Gay sofre preconceito por ser gay. Bissexual sofre preconceito por ser gay e por ser hétero. Parece mentira, mas em pleno 2011, movimento LGBT no auge, gay ainda acha que bi ‘traiu o movimento’ ou que tá na indecisão. Porque, ó, vou dizer, não tem nada mais bacana do que ficar ouvindo todo santo dia que você tem que se decidir logo ou que você tá ‘fingindo’ algo pra obter privilégio. Pff. ORLY?

Eu sempre digo que o pior preconceito é o que vem de casa. Como minha família é tranquila, como eu nunca tive problemas, como eu sei que posso contar com eles, eu sempre achei muito fácil passar por tudo. Mas o movimento gay é meio que a segunda casa de todo LGBT, então sofrer preconceito dentro do próprio movimento tem quase o mesmo impacto.

Mas tô quase pra falar que vocês ganharam, viu? Tô desistindo. Foi tudo brincadeirinha. É que eu tava afim de rir da cara de vocês aí, sofrendo todo esse preconceito sozinhos, enquando eu fico aqui, aproveitando meus PRIVILÉGIOS de bissexual. Desculpa, viu?

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Transfobia: cadê a novidade?

Não que me surpreenda, mas a Ariadna saiu. Como disseram várias pessoas no Twitter, não dava pra achar que quem premiou o Dourado fosse deixar uma trans passar. Ainda que minha opinião sobre o Dourado seja mais tênue do que as que eu tinha durante a raiva toda do ano passado, não dá pra achar que ele não fosse homofóbico e um símbolo pro brasileiro macho e moralista.

Ano passado ainda teve uma certa resistência. Esse ano eu não vi tanto. Talvez porque o programa ainda estivesse no começo, talvez porque muita gente estivesse reticente quando a assistir de novo. Mas eu não consigo deixar de achar que talvez, só talvez, houvesse um certo ceticismo diante de uma transexual.

E eu não estou falando dos héteros, não. Estou falando é da comunidade gay, mesmo. O ceticismo existe.

Eu fui perguntada há poucos dias sobre o porquê de defender a comunidade trans. Sabe? Não é a sua, então por que você não lava as mãos? Você não é negra, não é judia, não é trans, por que defender?

Fato. Vamos nos dividir e deixar o mundo se foder, né? Eu não sou negra, nem judia, nem trans, e você, amigo, não é humano.

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“Why do we have to endlessly recycle the old conflicts: first we fought about slavery, then segregation, then gender, and now sexual orientation, while gender identity is in the wings waiting. Why can’t people look at the phrase ‘liberty and justice for all’ and simply accept that ‘all‘ means all‘?”
[Autor desconhecido]

Dia 248: Takarazuka: Parte V – Subversão

Como eu disse antes, o Kobayashi era muito homofóbico. Nas décadas de 20 e 30, conforme o teatro foi ganhando popularidade, acabou sendo alvo de inúmeras críticas por conta de algo que até então não fazia parte nem do imaginário japonês: as lésbicas.

O Japão tem um longo histórico de homossexualidade registrada, aceita e encorajada, mas apenas a homossexualidade masculina. Mulheres, até então, não tinham desejo. Mulheres, aliás, não eram nada. Só esposas em potencial, esposas de fato e mães.

Mas vamos combinar que Kobayashi deu a elas uma oportunidade de ouro para descobrir um outro mundo, né? E aí que, um a um, os casos entre atrizes e entre atrizes e fãs foram aparecendo, e o Takarazuka virou um escândalo total. O Kobayashi, nem preciso dizer, deve ter tido uns 73 enfartes nessa época. Fez de tudo para ‘limpar’ a imagem do teatro, inclusive proibindo as atrizes de trocar cartas, mensagens e confraternizar com as fãs.

Isso, é claro, não serviu de muita coisa. As atrizes continuaram e continuam tendo casos entre si, e encontraram sua própria maneira de se aproximar das fãs – hoje em dia as restrições diminuíram, mas ainda existem diversas regras no que diz respeito às fãs.

Feliz ou infelizmente, todo o esforço de Kobayashi para impedir que escândalos chegassem à imprensa surtiu efeito em um aspecto: o Código Sumire*. O Código é um acordo silencioso entre atrizes, funcionários do teatro e fã-clubes de não divulgar absolutamente nada que não seja oficial. É quase uma ordem secreta: só quem está lá dentro é que sabe. Os fã-clubes são bastante organizados e têm um controle surpreendente sobre as informações que circulam e quem as recebe.

Isso é bom por um lado, porque protege a identidade** e a vida pessoal das atrizes. Por outro lado, não deixa de ser um grande armário, dando a entender que elas estão fazendo algo errado, que deve ser escondido.

Claro que o Código também cumpre muito bem o seu papel de atiçar a curiosidade de quem está de fora. Suspeitas de relacionamentos entre atrizes são constantes, e volta e meia discute-se quem está com quem. Acho que o caso mais famoso dos últimos anos é do casal top-top-de-todos-os-tempos, Youka Wao e Mari Hanafusa.

[O-Hana e Takako, Lightning in the Daytime, Soragumi, 2003]

As duas bateram recordes de tempo como top stars. Uma atriz geralmente fica nesse posto por um período de três a quatro anos. A Takako (Wao) ficou oito; a O-Hana (Hanafusa), doze. Por aí já dá pra perceber o tamanho da popularidade das duas. Elas eram o Golden Combi (o casal principal) do Soragumi. E sempre levantaram suspeitas. Que não diminuíram quando deixaram o teatro juntas, nem quando a O-Hana apareceu de repente no meio de uma viagem que a Takako fazia com as fãs***, e piorou quando esta última resolveu seguir na carreira artística tendo a O-Hana como empresária.

Essa subversão, não só das regras, mas de toda a ideologia que o Kobayashi pregou, é possível graças a um outro ato surpreendente. Por duas vezes, quando o teatro já era popular, Kobayashi tentou introduzir atores masculinos no teatro, uma pré e outra pós-guerra. Nas duas, falhou epicamente. As atrizes se recusaram absolutamente a atuar com homens.

Aqui entra uma visão interessantíssima da coisa toda. Muitas atrizes veem a oportunidade de ser otokoyaku como uma chance de serem livres. Dentro da sociedade japonesa, limitada, como mulheres, elas só podem cumprir papéis específicos; em cima do palco, como homens, elas se sentem assim, livres. Curiosamente, essa também é a visão das fãs. Elas se realizam através das atrizes. Vou usar como exemplo a carta que uma fã escreveu para Mao Daichi, uma atriz muito popular da década de 80, quando ela deixou o teatro para seguir a carreira de atriz:

To Daichi Mao-sama: You were an absolutely new flower. There has been no other star in Takarazuka history who had displayed your gorgeous androgynous elegance. Before you, there were many orthodox otokoyaku . . . but you gave rise to a new type of player of men’s roles . . . with your round face, slim body, and sinuous movements . . . When we fans first hear you sing [about love], we were swept away in a strange and fragrant world. Without question your charm was your very womanliness. Not the posturing come-on of mannish females, but an affirmation of a womanliness of female bodies. You symbolized a new era when females could begin to love themselves as themselves.

And so why you became an ordinary woman?

There are a million of actresses. There’s no reason for you to become yet another actress who titillates actual males . . . Now all you do is take roles that have you pout at males and say things like, “Why don’t you like me?” That kind of role is totally unrealistic; it’s a pathetic joke. You’ve gone from being a jewel to being a mere pebble. I can never forgive your betrayal in playing women who exist for males. When we see you being embraced by a male, it’s as though our dreams have been stolen.

You – Takarazuka’s new flower, females’ freedom and joy, our fin de siècle dream. Why did you become a woman? Just an ordinary woman!?

Yours, Hoshi Sumire.

(ROBERTSON, Jennifer. Takarazuka: sexual politics and popular culture in modern Japan. Los Angeles: University of California Press, 1998. pp. 79, 81)

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*Sumire = violeta, a flor-símbolo do teatro.
**No Japão, costuma-se adotar nomes artísticos de acordo com a profissão.
***Geralmente, atrizes que deixam o teatro fazem algum tipo de viagem com as fãs em seguida.

Dia 231: The L word is not the T word

Então eu estou aqui, né, em Barretos, curtindo a semana de fér… ops!, a semana da Mostra de Profissões da UFMG. É, tá, eu deveria estar lá ajudando e fingindo ser a aluna exemplar que eu não sou, mas perdoem uma menina que mora longe e que tem saudades de casa.

Antes de vir pra cá, comecei a baixar The L Word, que eu amo, mas que ainda não tinha gravado. Como eu estava baixando temporada por temporada por torrent, a primeira a ser concluída foi a terceira temporada, então eu comecei a reassistir por ela. Muito bom, porque é a minha favorita. É a mais tensa, mas também a melhor.

[ATENÇÃO: Muitos, MUITOS spoilers a seguir.]

E aí, conforme os episódios foram passando, eu comecei a perceber algo que ainda não tinha notado, uma abordagem um pouco, digamos, preconceituosa sobre a transexualidade. Não que eu não soubesse. Na verdade, quando comecei a assistir a série, há uns dois anos e meio, acabei caindo num artigo do AfterEllen que falava justamente sobre isso. Sobre o conflito do que a Ilene Chaiken considerava butch com o que o resto do mundo lésbico considera butch e a forma como a personagem trans (Max/Moira) é sempre ridicularizada. E, de fato, quando eu comecei a assistir essa temporada, senti um desconforto com a personagem, mas não dei muita atenção. Eu estava empolgada com outras coisas.

O feminismo, como todos os outros grandes movimentos, não é homogêneo. Não existe um feminismo só, assim como não existe só uma visão das coisas no movimento gay. E existe uma boa parte dele – e talvez seja nesse ponto que o lado mais conservador e o mais radical se encontrem – que não acredita em transexualidade. Porque acreditam que é uma traição, que é um ‘passar para o outro lado’. Que tudo poderia ser resolvido se o gênero fosse dissociado do sexo e com a compreensão de que você pode ser/fazer o que quiser, ainda que o que queira não corresponda ao que a sociedade espera de você. Como diz Kit, a personagem interpretada pela Pam Grier,

It saddens me to see so many of our strong butch girls giving up their womanhood to be a man. We’re losing our warriors, our greatest women…What’s male inside? What’s female inside? Why can’t you be the butchest butch in the world and keep your body? You’ll be giving up the most precious thing, being a woman. (*)

Eu concordo plenamente que o gênero pode e deve ser dissociado do sexo. Eu sou totalmente a favor e adepta do genderfuck. Sou a favor dos gêneros e de brincar com eles. Mas não dessa forma controladora, ditadora, onde quem não entra na dança é condenado. Nós não sabemos onde começa a transexualidade e qual é sua causa. Nós não sabemos quase nada de sexualidade, é fato. E reduzir o desejo da ‘completude’ que a transexualidade traz a um capricho é pesado e, ao meu ver, errado. É minimizar tudo o que um transexual passa na vida. Acho que já me fiz bastante clara sobre isso aqui.

A Kit, durante o sermão antitrans que faz pro Max, usa o argumento ‘e se eu quisesse virar branca?’ – ela é negra. Que também é um argumento falho. Porque a inconformidade dos não-brancos com a própria cor, creio, vem de uma coisa puramente cultural, de dominação. E sobre a inconformidade do gênero a gente ainda pouco sabe. É só cultural? É por ser o ‘segundo sexo’ que uma mulher quer se tornar homem? Mas então por que um homem abriria mão de sua posição de conforto para não só se transformar em mulher, mas também pra enfrentar toda a carga que ser transexual traz? E os bigêneros? É um território complicado, esse.

A terceira temporada, que é quando o Max aparece e começa sua transição, é a mesma em que a Dana descobre que tem câncer de mama. E daí se seguem diversas comparações simbólicas. Por exemplo, uma conversa que a Dana – depois de já ter operado e retirado o seio – tem com um trans, onde eles discutem as respectivas mastectomias, e ela pergunta para ele quando foi que ele descobriu (que era trans). Ele responde que, desde que os seios começaram a crescer, ele quis operá-los e que até pediu a deus por aquele tórax (masculino). E ela rebate dizendo que costumava agradecer a deus pelos seios que tinha. O trans é o ingrato que não valorizou o que tinha.

Max é o caipira, o que não se adequa ao grupo, às situações, o que só fala besteiras e que vira um monstro quando começa a aplicar testosterona. E que sofre uma reviravolta, no final, quando engravida do parceiro. E tem que engolir todo o discurso da gravidez mágica e salvadora. Aquela mesma que a Kit escolheu interromper quando precisou. Irônico?

Dia 194: Links

Durante esses dias eu não tive muita vontade de escrever. Assuntos não faltaram. Nem tempo. Apesar de as aulas já terem começado, tudo ainda está relativamente calmo. Mas tem dias que, realmente, não me inspiram.

Nesse tempo, acabei acumulando links para notícias ou artigos interessantes que me mandaram ou estiveram circulando pelo Twitter. Os primeiros são sobre assuntos militares envolvendo mulheres e/ou LGBTs. Muita coisa acontecendo nesses dias. Mas mais pra baixo existem dois três links aleatórios. Aí vão:

Artigo com fotos da WASP na Segunda Guerra – o grupo de aviadoras, não os cretinos, gente. As fotos e as mulheres são lindas. É uma preciosidade.

Fotos de membros LGBT das Forças Armadas norte-americanas que serviram em silêncio ou foram dispensados pela política do DADT.

Mais uma sargenta dispensada pelo DADT. Nada de novo.

Artigo pedindo pra que as mulheres sejam efetivamente permitidas em unidades de combate. As militares americanas já assumem, na prática, posições que teoricamente estão proibidas de exercer, mas não são reconhecidas. Ou seja, elas executam, mas não têm o mérito nem a devida atenção. É muito bom ver artigos assim surgindo com mais frequência.

Congresso americano concede medalhas às veteranas da WASP. Notícia do ano. E a notícia oficial da Defesa.

John Sheehan, ex-general americano, culpa soldados gays holandeses pelo massacre de Srebrenica. Isso é quase um déjà vu. E é bom pra lembrar que não são só os militares brasileiros que falam merda.

Fugindo um pouco do militar:

A garota que beijou a GaGa no clipe de Telephone? É, tá todo mundo falando dela. A Adrina perguntou, eu mandei o link no Twitter, e agora coloco aqui o artigo do AfterEllen sobre Heather Cassils.

Um artigo da Mary Del Priore muito interessante a respeito da relação da Chanel com os nazistas. Embora eu ainda não tenha lido nada sobre a relação dos intelectuais franceses com o regime, uma discussão recente com a Astrocat, a Srta. Bia, a Cynthia, a Juliana e outras meninas acabou despertando o interesse. Eu só li esse e um outro artigo sobre, mas a impressão de que, mais do que antissemita, ela foi oportunista prevalece. Link via Gogu.