Tempo de folga para escrever e revisar este texto dentro do ônibus

Acho que quem nasce e passa a vida inteira em capital não tem noção de como a vida em uma é ridícula. Quem é do interior passa a vida querendo ir pra ‘cidade grande’, mas na verdade esse deve ser o sonho mais furado de todos.

Até eu caí nessa, veja bem. Eu, cujo único sonho era parar quieta em uma cidade só depois de passar uma infância inteira excursionando pelo interior de São Paulo. Nunca gostei de capital, abominava São Paulo e Rio desde sempre. E o problema foi esse, acho; essa cabeça de paulista de achar que só existem dois estados no Brasil.

Quando eu descobri a existência de Belo Horizonte, surgiu uma ilusão de uma capital tranquila, bacana, sem aquele estresse que eu costumava associar a metrópoles. E, de fato, nos primeiros anos foi assim. Não sei se porque de repente todo mundo teve a mesma ideia que eu ou se foi só o fato de que eu não punha meus pés fora da Pampulha.

Pode ser também que o poder aquisitivo tenha aumentado e o preço dos carros, diminuído. Porque a verdade é essa: o que me irrita, no fundo, é o trânsito, são os carros, é o levar duas horas pra chegar no trabalho. Porque, bem, eu sou a ‘sortuda que tem que pegar um ônibus só’.

Existem um milhão de desculpas. Toda vez que você questiona a necessidade dos carros, alguém ou fica profundamente ofendido ou concorda, mas faz a ressalva para o próprio caso, porque, afinal, “eu preciso muito”. E eu entendo a vontade, o sonho, o símbolo de status. Cada vez que eu entro num ônibus lotado, com gente me acotovelando pra pegar um lugar pra sentar, eu entendo. Todo mundo tem direito a querer ter conforto. Individualmente, isso é lindo; idealista, até. Só que quando a gente multiplica por um milhão e meio, acabamos é com um belo de um problema.

Belo Horizonte é a terceira capital com mais carros no Brasil. E, olha, não comporta de jeito nenhum. E o que você mais vê é gente querendo tirar carteira e botar mais um carro na rua. Gente que tá dentro do ônibus assistindo à insanidade e querendo contribuir mais um pouco. Dia desses eu estava num debate sobre isso com uma aluna e ela me disse, com ar de resposta óbvia: ‘se você fosse escolher entre ficar duas horas no ônibus e ficar duas horas no seu próprio carro, o que você escolheria?’ E eu respondi que o ônibus, na verdade, era a minha escolha. Ela arregalou os olhos e não soube muito bem como reagir diante de uma louca.

E eu sei o quanto a minha resposta é, sim, absurda. A minha escolha é absurda. Eu não posso nem sonhar em querer que metade da população bote a mão na consciência por uma causa dessa quando o serviço de transporte público é um lixo, os funcionários são mal pagos, mal treinados e fazem o que querem – além de atender muito, muito mal os usuários – e o preço da brincadeira só aumenta. É melhor mesmo ter um carro, mesmo que isso signifique que a população inteira da cidade vá chegar mais tarde para o jantar.

Eu não estou fazendo mimimi por fazer. Claro que minha relação com o trânsito é de ódio desde sempre, mas na verdade agora eu só estou frustrada, mesmo. Porque eu parei pra fazer as contas e me dei conta do tamanho do prejuízo que eu levo, de bolso e de vida. Trabalho 27 horas por semana. Vida boa? Preguiça? Não, trânsito. Pra cada hora de trabalho minha, eu gasto mais uma no trânsito. Ou seja, mais 27 por semana. São 27 horas que eu não posso usar para dar outras aulas.

Quando eu comento isso por aqui, a reação é sempre uma cara de interrogação. Qual o problema, afinal? Isso é normal. Pra quem não sabe o que é sair de casa pra um compromisso dez minutos antes e chegar a tempo, isso é normal. Pra quem não passa uma semana sem ver um acidente desnecessário, isso é normal. Pra quem não sabe o que é preferir ficar em casa no feriado a viajar porque a viagem vai render mais cansaço e estresse do que o saudável, isso é normal.

Neste exato momento, eu tenho dois compromissos para as próximas horas e estou seriamente tentada a não ir, porque quando chega o descanso tudo o que a minha alma velha quer é não ter que olhar pra rua.

Metropolitanos adoram tirar onda do pessoal do interior. Perdoem-lhes. Eles não sabem o que é vida.

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Eventos do fim de semana

Fim de semana vai ser animadinho. Pras todo mundo:

– Em Belo Horizonte e Brasília, no sábado (18), acontece mais uma versão da SlutWalk – ou Marcha das Vagabundas. A concentração em BH acontece na Praça da Rodoviária às 13:00 e segue para a Praça da Estação.

Pra fãs de rugby:

– Ainda em BH no dia 18 tem a disputa do 3º lugar do Campeonato Mineiro entre BH (time B) e Lavras, às 14:00, no campo da PUC-Minas (Coração Eucarístico).

– E em Varginha, no domingo (19),  é a final que acontece, entre BH (time principal) e Varginha, às 15:30, no Melão (Estádio Municipal de Varginha), com direito a amistoso entre os times femininos de BH e Varginha em seguida. O BH, que é o atual campeão mineiro, busca o bicampeonato.

Dia 209: Humor babaca

Quando eu decidi vir pra Belo Horizonte, não conhecia ninguém. Conhecia umas duas ou três garotas da internet, mas só. Perto do vestibular, no entanto, eu recebi um presente do céu: uma prima um pouco distante, a Bela, que eu não conhecia e de quem eu nem tinha ideia da existência até então, me achou no Orkut. Deixou recado dizendo que tinha visto meu sobrenome e que achou curioso eu ser de Barretos, porque a família dela também é de lá. Claro, a família dela é a minha. Italianos, sabe como é? Três irmãos que brigaram, cada um pro seu canto. O filho de um deles, o Antônio, veio moço pra Belo Horizonte pra estudar e aqui casou, aqui teve uma filha e aqui ficou.

Logo que mudei, eu conheci a guria. Nós não nos encontrávamos – e ainda não encontramos – com muito frequência; horários e trajetos diferentes. Mas aí, uns três meses depois da minha chegada, lá por maio, ele, o Antônio, me ligou. Dizendo que queria me conhecer e que não tinha ligado antes por falta de tempo. Muito gentil e muito educado. Demorou mais um pouco para o encontro acontecer, mas aconteceu. Foi em outubro, quando ele me ligou propondo um serviço: queria que eu fizesse as transcrições de 25 fitas restantes de entrevistas que ele estava usando na tese de doutorado.

Eu topei, claro. O projeto era fascinante. Ele estava dando continuação ao seu mestrado, onde tinha acompanhado 39 crianças de uma comunidade carente de BH, entre 7 e 10 anos (se não me engano), retratando o perfil de saúde e educação delas. No doutorado, a ideia era entrevistar essas crianças, já não mais crianças, 18 anos depois da primeira fase. Nem todas foram localizadas, mas a maioria aceitou participar.

Fora algumas fitas que já haviam sido transcritas, eu ouvi um a um os lamentos de 25 (ou 26; a memória me falha) pessoas que cresceram em situação miserável. Elas tinham tomado caminhos muito parecidos. Embora houvesse um ou outro com uma vida um pouco melhor, a maioria penava, continuava trabalhando pesado pra se manter com pouco. Um outro bom tanto tinha se envolvido com drogas; um morreu, outro estava preso, outro foragido. Outros conseguiram largar. Havia também uma menina com deficiência mental. Essa sozinha já dá um post imenso. Meu estômago até embrulha de pensar no que ela passou.

Drogas, violência doméstica, estupro, assassinato, doenças, pobreza, pobreza, pobreza.

Essa tese mexeu demais comigo. Comecei a pensar em alguma coisa que pudesse ser colocada em prática lá dentro, relacionada à minha área – ainda sem sucesso. Foi tudo um soco no estômago.

Anteontem, o sobrinho de uma pessoa próxima, moradora de uma favela, foi assassinado. Tinha se envolvido com o tráfico. O irmão mais velho já tinha tido o mesmo destino. Veio tudo de volta. E eu fiquei lá, parada, sem ter o que fazer. O que fazer? Eu não sei. Fiquei quieta no meu canto, sem nem saber organizar um post sobre isso.

Aí hoje chego no Twitter e vejo todo mundo denunciando uma tag: #todofavelado. Isso já nem é mais ser ignorante; é ser cruel. É irônico que o ‘favelado’ seja visto como culpado da sua miséria. Sabe como é, né? Se você não é rico e ‘bem-sucedido’, você não lutou o bastante; não mereceu. É como esse comentário. Jason Becker merece ser aplaudido pela força de vontade. Merece mesmo. Mas isso não quer dizer que todos os outros, os suicidas, sejam perdedores. Parabéns pra você que superou todas as adversidades e ficou rico. Isso é pra poucos. Mesmo. Meritocracia é falácia.

Usar essa tag, me desculpe, é declarar o quão estúpido você é a ponto de não conseguir enxergar além do próprio umbigo. E devo admitir, infelizmente, que conheço um bocado de gente privilegiada, que teve uma vida de escola paga e cursinho e hoje estuda em universidades públicas, que usaria essa tag sem dó e sem vergonha. E ainda têm o topete de se dizer ‘elite intelectual’. São só uns toscos.

Quanto à tese, foi defendida, e muito bem, no finzinho do ano passado*. O que ele – e outros – fez e faz pela comunidade em questão não tem preço. Tenho as pessoas certas na minha vida.

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*”LOMBARDI, Antônio Benedito. A Síndrome da Exclusão Social: as origens, os fatores de risco, os múltiplos sintomas biopsicossociais ao longo dos períodos do ciclo de vida e os fatores perpetuadores. 2009.
Não tenho a referência toda, me desculpem. O orientador é o Prof. Dr. Joel Lamounier. Ainda não foi entregue, mas logo vai estar disponível na Faculdade de Medicina da UFMG.

Dia 167: 9 ½ Semanas de Vadiagem

Aí amanhã (ou hoje, como queiram), para o bem de todos e felicidade geral da nação (NOT!), eu volto pra BH. É, acabou a festa. Segunda-feira começa tudo de novo. Vou matar a saudade do povão. O Hugo, pelamordedeus, mal aproveitou as férias de tanta saudade (NOT! 2)!

Eu queria escrever, na verdade, algo decente hoje, mas, né?, não deu. Gastei a noite ensinando minha vó a entrar em sites e dando um jeito de enfiar na mala os 9 pacotes de miojo e molho que ela resolveu me mandar. Porque eu tô fraquinha (NOT! 3).

Ainda não sei o que vou – e se vou – fazer alguma coisa no fim de semana, porque agora eu preciso botar a vida de pé de novo. Mas estamos aê para ligações. Meu número é o mesmo, mas os meus cabelos…