Dia 215: Livro: Infiel

Comprei esse livro em 2007, em Passos, quando só se falava sobre mulheres muçulmanas e esse era um dos tópicos em que eu mais tinha interesse.

Ayaan nasceu na Somália, filha de Hirsi Magan, um revolucionário somali. Muçulmana, passou por toda a tortura islâmica aplicada a mulheres: leis de submissão, clitorectomia, casamento arranjado e forçado. À época do casamento, fugiu para a Alemanha e, em seguida, para a Holanda, onde conseguiu uma cidadania. Estudou Ciência Política, rejeitou e foi rejeitada permanentemente pelo islã e entrou para o parlamento holandês em 2003.

Desde que começou sua carreira política, Ayaan tem sido alvo de muita crítica por sua postura polêmica em relação ao Islã. Ela questiona a adaptação dos muçulmanos à comunidade europeia e faz uma crítica pesada ao papel relegado às mulheres nos países islâmicos.

Logo após sua eleição para o parlamento, filmou, com Theo van Gogh, um curta sobre mulheres muçulmanas chamado ‘Submissão’, que levou ao assassinato do cineasta por um marroquino-holandês. Ayaan foi obrigada a ficar escondida por dois meses e meio.

Em 2006, a então ministra da imigração, Rita Verdonk, anunciou que iria retirar sua cidadania, devido ao fato de que Ayaan havia mentido sobre alguns fatos para as autoridades holandesas à época de sua chegada ao país a fim de obter asilo. O fato causou alguma comoção e levou à queda do governo Balkenende.

O livro se encerra aí, com Ayaan obtendo de volta a cidadania holandesa e se mudando para os Estados Unidos, onde haviam lhe oferecido um novo emprego.

É um bom livro, fácil de ler. Algumas vezes um pouco autoindulgente, na minha opinião, mas muito bom.

Trecho:

Eu tinha dezessete anos e sofria muito com a ausência dela. Minha amiga Fardawsa Abdillahi Ahmed também deixou Nairóbi para morar no campo, com os irmãos menores, até que a casassem. No colégio, só me interessavam os estudos islâmicos. A proximidade do exame do nível básico não me preocupava. Eu tinha necessidade de atingir o núcleo daquilo em que acreditava. Todas as demais garotas se resignavam em aceitar as normas da nossa religião tal como eram apresentadas, mas eu me sentia compelida a tentar entendê-las. Meu sistema de fé precisava ser lógico e coerente. Essencialmente, eu precisava me convencer de que o islã era a verdade. E começava a me dar conta de que, embora muita gente admirável tivesse certeza de que era a verdade, parecia haver falhas na sua coerência.

ALI, Ayaan Hirsi. Infiel: a história de uma mulher que desafiou o islã. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 496 p.

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Dia 212: Filmes. Pra variar.

Então, nestes últimos dias, eu venho tentando assistir todos os filmes possíveis. Ando numas de desesperada. Tô lendo livros, vendo filmes e ouvindo músicas alucinadamente. Das duas, uma: ou é medo de 2012, ou é a consciência de que eu só tenho até o fim do ano que vem pra vagabundear. Aí eu me formo.

Assisti sei lá quantos filmes. Já não lembro de metade. Provavelmente porque eu não gostei. E não anotei pra escrever aqui. Então vou fazendo um post meia-boca sobre os que eu for lembrando.

O primeiro foi A Fita Branca. Estava ansiosa pra ver esse filme. E gostei muito. Mas não vou comentar. Não sei comentar esse tipo de filme. É preciso assistir. Fim.


Aí eu entrei numas de ver A Espiã, sobre uma judia holandesa que se envolve com um oficial nazista na Segunda Guerra como colaboração com um grupo de resistência. O nome é de filme de Sessão da Tarde, né, e quase que o filme é isso mesmo.

Vi muita gente fazendo uma crítica tão boa, que eu cheguei à conclusão de que pirei. Só pode. O filme é deprimente de tão ruim. Tá, eu não simpatizo com Verhoeven, mas juro que eu nem sabia que era dele quando vi. Podendo escolher, optem por ‘Curtindo a Vida Adoidado’. É mais feliz, Sessão da Tarde autêntico e você não tem que ver um nazista sem dotes pelado.

Também vi Elizabeth – A Era de Ouro. Que é um filme que eu só desculpo porque é ultraestético. Ah, eu não resisto. De resto, não vale nada. Pra que serve história, né, minha gente, se os roteiristas vão reescrever tudo? Se tiver uns dois fatos verdadeiros ali, fico até surpresa, viu? Mas a produção da maquiagem e do figurino estão de parabéns. E a Abbie Cornish também. Coloquem no mute e fiquem só olhando.

Ah, sim, também preciso dizer que, não sendo uma apreciadora da língua espanhola – a não ser em casos muito específicos, como com as mulheres doidas do Almodóvar -, aquele Filipe II me dava calafrios toda vez que falava. Credo, gente.

Aliás, isso é uma das coisas que não me agrada nesse tipo de filme, também. Filme histórico – fazendo aqui de conta que esse filme é um – não pode ser tão maniqueísta. Os ingleses são heróis e gentlemen, enquanto os espanhóis são macabros, frescos e têm sobrancelhas esquisitas e pernas tortas.

Esse foi meu fim de semana retrasado. Aí, na segunda-feira, eu tive uma má experiência com um filme que eu queria ver há tempos e que a maldita locadora não tinha, a princípio, e desenterrou de alguma filial no fim do mundo e que rendeu tantos problemas que, no fim, me gerou uma multa básica de 24 reais. Ou seja, vou voltar pro torrent.

O filme que causou tudo isso é Ran. É desses clássicos que eu sempre enrolo pra assistir. É sobre um conflito causado entre irmãos quando o pai, um senhor feudal, decide distribuir suas terras entre eles. Um Rei Lear japonês. Essa é a melhor definição que eu consigo encontrar. E eu sofri o filme inteiro. Eu sofro muito com filme japonês. Vai entender.

Na Páscoa, vi Julie & Julia e Coco Avant Chanel. O primeiro é bonzinho, bonitinho. Não consigo não gostar de filme com a Meryl Streep. Mas também não é um filme que eu colocaria entre os tops. Pra mim, é filme de uma vez só. O segundo, dispenso. Não gostei, mas não sei dizer exatamente por quê. Acho que o carnaval que fizeram com o lançamento desse filme é muito maior do que ele.

Ontem, por fim, assisti Donnie Darko. Assisti não esperando nada e acabei me surpeendendo. Não vou nem falar muito, leiam alguma sinopse por aí, porque posso acabar estragando, e ele é todo surpresas. E encerrei o dia com O Lutador, que eu ainda não sei definir. É bom, mas eu terminei um pouco arrasada. Não sabia se dava um abraço no brutamontes do Rourke ou se dava um belo dum tapa. E eu que achava que seria cheesy.

Hoje, se o santo torrent ajudar, assisto Elefante, van Sant. Com sorte, saio inteira. Rezem por mim.

Dia 198: Livro: Catherine the Great

Este é outro livro da safra da amazon.uk. Sem conhecer muito sobre Catarina, procurava alguma biografia que servisse de introdução. Pequei em não procurar com mais cautela.

Catherine the Great, de Isabel de Madariaga, é um dos livros mais citados sobre Catarina que eu já vi. No entanto, ele é obviamente voltado para o público que já tem um prévio conhecimento da história da imperatriz. A autora foca sua análise nos aspectos políticos e econômicos do governo de Catarina. A vida pessoal e pré-reinado são quase completamente deixados de lado, a não ser quando a autora cita os vários amantes da personagem. Não vejo isso como uma coisa ruim, apenas acho que deveria ter ficado explícito na sinopse do livro.

A crítica maior fica por conta de algo que, tenho notado, é comum a alguns biógrafos: favorecer demais o biografado. Catarina, aqui, é uma monarca que não desejava o poder pra si, apenas queria o melhor para o seu país.

Esse é um dos livros que eu vou ter que reler futuramente. É claro que absorvi muita coisa; dá pra entender quem foi a imperatriz. Mas falta muita coisa. Em que contexto ela cresceu? Como foi sua infância? Suas influências? O casamento com Pedro III? Enfim, não é livro para iniciantes.

Uma crítica bem detalhada pode ser vista aqui (em inglês).

Trecho:

In the years after Peter’s death in 1725, the great machine he had created stumbled along much more slowly, and with no clear direction. But Russia gradually absorbed the new orientation he had forced on society. Bowing under the despotism of the tsarist political system, the nobles nevertheless grew to enjoy western culture, which became even more accessible with the foudation of Moscow University in 1755. They benefited from increasing commercial contacts through Peter’s new capital on the Gulf of Finland, St Petersburg, and from intellectual exchanges with the west through the Academy of Sciences, founded in 1726. Many Russians now visited the west on their own initiative, to study or to enjoy western culture. The Russian government continued to send numbers of nobles abroad to western universities. But the millions of peasants remained untouched by, if not actively hostile to, many of the features of Peter’s new regime and bound by a social structure which perpetuaded the arbitrary despotism of one legally defined group over another. (p. 23)

MADARIAGA, Isabel de. Catherine the great: a short history. Reimp. New Haven, CT; London, UK: Yale University Press, 2001. 240 p.

Dia 197: Livro: Eleanor of Aquitaine

Não encontrei imagens decentes na internet, então tirei uma foto meia-boca da minha edição destruída. Comprei de segunda mão pela amazon.uk quando a Anika estava no Brasil e o irmão veio visitá-la e fez o favor de trazer esse – e outros – livros pra mim. Se você tem como fazer algo semelhante, a grande vantagem de comprar por lá é que você às vezes paga menos de R$ 1,00 por um livro usado.

Eleanor tem uma das histórias mais instigantes que eu já vi. Ao contrário da maioria das rainhas, passivas e obedientes, ela era forte e ambiciosa. Foi criada em uma corte que não dispensava uma boa festa regada a vinho, música e poesia e famosa por seus trovadores. Eleanor acreditava na supremacia feminina, e por essas e outras era a protagonista das fofocas da Europa na época.

O livro de Meade é bastante fácil de ler por ter um ritmo de romance. Ao mesmo tempo, muitas vezes fiquei dividida entre certas suposições que a autora faz. A história também gira muito em torno de outros personagens, como os maridos e os filhos, deixando Eleanor esquecida às vezes.

A simpatia da autora pela personagem é óbvia. Eleanor quase nunca é culpada do que acontece. Por outro lado, isso serve pra livrar um pouco a aura de maldade e luxúria que a Igreja construiu ao redor dela na Idade Média.

Trecho:

For Eleanor, the homecoming was made all the more desolating by the confirmation of a suspicion that she may have felt even while crossing the Alps. To her consternation, she realized that she was pregnant. Nothing could have sealed her destiny more decisively, for now there would be no divorce, no possibility of going back to Poitiers, nothing to look forward to but gray years stretching into the interminable future with a man she despised, her priest disguised as a king. Louis, elated, behaved as though he had forgotten the marital trauma of the past two years. At last he could present a heir to his people. Even those Franks who had been busy blackening Eleanor’s name with gossip about her alleged depravity in Antioch were obliged to reagrd the queen with new respect. In hardly anyone’s mind, and certainly not in the king’s, did there arise a possibility that the child might be a girl. Surely a conception so meticulously choreographed by the pope himself could result in nothing but a healthy son. (p. 128)

MEADE, Marion. Eleanor of Aquitaine: a biography. New York: Penguin, 1991. 389 p.

Dia 192: Filmes: ‘Laranja Mecânica’ e ‘Hitler’

Este fim de semana eu pude, finalmente, riscar da minha lista ‘para assistir’ duas obras cinematográficas. Uma delas é tão clássica que muita gente me olhava com cara de espanto quando eu dizia que não tinha assistido: Laranja Mecânica.

Ok. Eu entendo que 99,9% da população considere um filme genial e tudo mais; peguei a moral do final, o controle do Estado, a ‘falsa cura’. Ok. Mas pra mim é só um filme perturbador. Talvez eu precise de mais tempo pra digerir, por isso não vou comentar mais do que isso. Por hora, tudo o que ele fez por mim foi associar ‘Singin’ in the Rain’ a uma cena de estupro. Pra sempre.

O outro foi Hitler: A Ascensão do Mal.

Nem sei por onde começar. O filme trata dos anos anteriores ao governo nazista, desde os primeiros passos de Hitler na política, o Putsch da Cervejaria, até o expurgo de junho, a morte de Hindenburg e a consequente tomada de poder de Hitler.

Existem alguns pequenos erros históricos, que seriam até passáveis, não fossem outras coisas mais notáveis. Por exemplo, Hanfstaengl. Foi um homem que muito contribuiu para a a subida de Hitler, financiando a publicação de Mein Kampf e o jornal da NSDAP; foi amigo próximo, participou do Putsch, fez parte do partido. Mas o papel dele, na série, fica muito aumentado. Pelo menos em comparação a outros personagens. Himmler, por exemplo, não aparece. Göring, quase nada. Goebbels é o que ainda se salva, apesar de ter um papel consideravelmente reduzido. A esposa de Hanfstaengl também ganha uma importância talvez maior do que teve.

O elenco também não me agradou. Com exceção de alguns momentos, Robert Carlyle não me convence como Hitler. Peter Stormare como Röhm, então, chega a ser piada. Primeiro, porque Röhm conseguia ser ainda mais baixinho que Hitler, coisa que Stormare definitivamente não é. Segundo, porque eles não tinham NADA a ver e a produção nem tentou disfarçar. A caracterização é desleixada – e não só a dele. Por fim, não consigo ver mais o Stormare em nenhum outro papel que não seja o Abruzzi.

É um filme que, com algum cuidado, poderia ser muito mais interessante. Alô, CBS.

Dia 109: Joana D’Arc – Uma Biografia

Eu cresci adorando Joana D’Arc. Ela foi não só uma personagem importante para a unificação da França e fim da Guerra dos Cem Anos; mais do que isso, foi uma mulher forte que deve ser usada como inspiração.

No entanto, a minha visão sobre ela é, aparentemente, muito diferente do que pensam certos autores. Um deles é Donald Spoto. Nesse livro, Joana D’Arc – Uma Biografia (Joan: The Mysterious Life of the Heretic Who Became a Saint), Spoto tenta provar a santidade de Joana.

Isso em si já é uma decepção pra mim. Pessoalmente – e isso é uma visão pessoal mesmo; não sou historiadora nem tenho nenhum cacife pra provar nada -, eu vejo Joana como uma mulher que sentia que devia ir para a guerra e foi. Simples assim. Deu lá o seu jeito. Sabe como é? Se eu fosse uma mulher no século XV querendo participar da guerra, também veria Deus. Não duvido das experiências religiosas das pessoas, mas não consigo imaginar nesse caso. Tampouco concordar com quem tenta justificar as visões dizendo que eram causadas por doenças físicas ou psicológicas. Pode ser só uma bobagem, mas eu sempre imaginei que foi a forma que ela encontrou pra chegar ao rei.

Mas não é só isso que me desagrada no livro. O tom é ligeiramente sensacionalista.

Aí eu fui pesquisar e descobri as causas dos dois ‘problemas’ que me incomodaram. Donald Spoto, embora eu não conhecesse a figura, é um biógrafo famoso. De celebridades (voilà, sensacionalismo).  E ex-monge (oi, religiosidade).

Enfim, como leitura leve, indico. É fácil de ler e rápido. Mas se você quer alguma coisa menos ‘ela-foi-santa-e-nunca-fez-nada-errado’, procure outra coisa. A historiografia séria agradece.

“Jean Massieu deu o relato mais preciso do que acontecera durante o fim de semana, e seu testemunho juramentado foi baseado no que Joana lhe dissera no dia antes de sua morte. Na manhã de domingo, ela pediu aos guardas que lhe tirassem as correntes para que pudesse usar a latrina. “Eles tiraram seu vestido quando abriram os cadeados, e não o devolveram. Em vez disso, deram-lhe as roupas masculinas que ela usava antes. Ela os lembrou que estava proibida de usar aquilo, mas eles sumiram com o vestido feminino – e assim, compelida pela necessidade, Joana vestiu novamente o traje masculino. Depois de ter sido vista o dia inteiro daquela forma, os trajes tornaram-se o motivo pelo qual ela foi julgada reincidente e condenada.” A charada inteira, de acordo com Massieu, foi “completamente injusta”. (p. 250)

SPOTO, Donald. Joana D’Arc: uma biografia. São Paulo: Planeta, 2009. 299 p.