Louis Theroux

Quando eu morava com as inglesas, em 2008, assisti, por influência delas, ao documentário The Most Hated Family in America, sobre a Westboro Baptist Church, uma igreja de lunáticos que pregam que Deus odeia os EUA – o mundo inteiro, na verdade – por ser uma cultura pró-LGBT. Foi o meu primeiro documentário do Louis Theroux. Eu me apaixonei, virei fã na hora, mas só consegui assistir a outras obras dele esse ano. Acordei a fim um dia e baixei tudo pelo santo torrent. E vim assistindo nos últimos meses.

Louis começou a carreira na BBC com o programa Louis Theroux’s Weird Weekends, transmitido entre 1998 e 2000, onde ele ia atrás de subculturas, coisas consideradas ‘bizarras’ pra sociedade em geral. Na primeira temporada, por exemplo, ele fala de cristãos ‘renascidos’, ufologia, indústria pornô e sobrevivencialismo. Essa primeira, aliás, é minha favorita. Tem cinco episódios ao todo; um pra cada tema citado e um especial, onde ele reúne um participante de cada episódio para passarem o Natal juntos.

Entre 2000 e 2002, ele apresentou o When Louis Met…, onde ele acompanhava por algum tempo o dia-a-dia de alguma celebridade britânica de que você provavelmente nunca ouviu falar. Esse programa não me chamou muita atenção, justamente por isso – com uma ou outra exceção – e pelo fato de que, por mais bonito que seja o sotaque britânico, eu não entendo lhufas. O Louis é muito fácil de entender, mas, quando algum sotaque mais hardocore entrava em cena, tudo o que eu podia fazer era chorar. Foi o caso do Jimmy Saville. Mas foi interessante acompanhar os Hamiltons, a picaretagem do Max Clifford e o puritanismo da Ann Widdecombe.

Mas a fase mais interessante dele começa em 2003, quando ele parte para os especiais da BBC 2. Além do ‘The Most Hated Family…’, estão entre os meus favoritos ‘Louis and the Brothel’, sobre um bordel em Nevada; ‘Louis and the Nazis’; e ‘Behind the Bars’, sobre o presídio americano de San Quentin.

O que me fez simpatizar definitivamente com o Louis, depois de tudo, foi perceber o quanto ele se arruinou – consciente ou não disso – com seus primeiros documentários. Ele tem cara de pastel e parece à primeira vista ingênuo, e com isso cativa quem ele entrevista. Como todo jornalista, tenta caçar polêmicas, mas usa desses atributos para conseguir o que quer, o que acabou rendendo a ele uma imagem de perverso. É possível ver o quanto isso afeta a credibilidade dele conforme você avança nos documentários. No que trata do Michael Jackson, por exemplo, Louis não consegue uma entrevista porque várias pessoas que poderiam ter arranjado isso para ele não confiavam no desfecho do documentário.

Louis não vê o menor problema em botar o dedo na ferida, e suas perguntas costumam ser muito diretas. Houve vezes em que eu mesma me incomodei. Pensei ‘oh, Louis… Você não precisava ter feito isso’. Não sei se me agrada ou me incomoda o fato de ele saber exatamente o que está fazendo. Mas eu passei a admirar muito a firmeza que ele tem no que acredita.

Duas cenas me marcaram. A primeira foi no doc do MJ. A cena da segunda vez em que ele entrevista Joe Jackson. Ele pergunta se Joe gostaria que Michael ‘sossegasse’ – no sentido de ter um relacionamento firme com alguém. Joe – ou o outro cara que estava junto, não me lembro – pergunta se ele se referia a ter uma esposa, ao que ele responde que sim, esposa, ou namorada, ou namorado. Joe fica ofendidíssimo – e obviamente arremata com afirmações ultra-homofóbicas -, mas Louis não pede desculpas pela pergunta. Ele explica qual foi sua intenção ao dizer aquilo, mas não se desculpa. É óbvio que ele sabia que estava cutucando, mas ainda assim é bom.

A outra cena acontece no documentário sobre os nazistas. Louis vai até a casa de um skinhead e, no meio das filmagens, pergunta o que ele faria se descobrisse que Louis é judeu. O nazi afirma que o expulsaria de casa e pergunta se ele é. Louis pede licença para não responder, do que o nazi deduz que ele é, então, judeu. Louis explica que não respondeu que sim nem que não, e que não vai responder porque, pra ele, aquilo não tem importância, e que, se ele respondesse, passaria a imagem de que tem. O nazi continua incomodado e, algum tempo mais tarde, retoma o assunto, mas depois de muita insistência Louis ainda não responde e vai embora.

Parece bobo, mas quantas pessoas não teriam respondido à pergunta? Quantos jornalistas, no afã de obter a entrevista, não responderiam? Eu responderia. Não pensaria muito, simplesmente diria, por puro impulso. E eu acho fantástico como ele não se dobra.

Eu me peguei simpatizando muito com alguns personagens, como os caras que o ajudam a participar do ‘demolition derby’, ou o Mike Cain, um sobrevivencialista muito simpático com cara de Papai Noel. Também passei raiva, como com a mãe das Prussian Blue ou com o Eugène Terre’Blanche. Dá pra se envolver demais.

Carimbei minha carteirinha de fã.

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Dia 243: Rapidinhas

Ontem eu citei o documentário sobre host clubs e esqueci de comentar duas coisas.

A primeira é que existe um outro documentário, este sobre onnabe, que eu estou procurando há anos. Se chama Shinjuku Boys, é de 1995 e dificílimo de achar. Eu, pelo menos, não consegui. Assim, se você, boa alma, souber onde eu posso encontrar, agradeço muito.

A segunda é sobre o primeiro documentário. Em uma das cenas finais, filmadas na rua, dá pra ouvir uma brasileira gritar ‘filma eu!’. Eu não acreditei; precisei voltar umas cinco vezes pra ouvir. Mas está lá.

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Também estou pra passar esse link há dias. Que foi a Leticia que twittou, eu acho. É sobre estereótipos que se tem por aí com relação a nacionalidades, e o meu estereótipo americano está lá, bem em primeiro lugar.

E eu precisava dizer que não, eu não quero justificar preconceito nenhum com aquele post. Todo preconceito é idiota.

Dia 136: For The Bible Tells Me So

Passei o dia um pouco amuada, em parte por causa do documentário que vi durante a madrugada, For The Bible Tells Me So. Eu queria ver há tempos, mas, pra variar, enrolei.

É lindo. Eu chorei muito. Tá, confesso que eu já começo a assistir essas coisas quase chorando. Mas tem hora que não dá pra resistir.

‘For the Bible…’ trata do tão atual confronto entre o cristianismo e a homossexualidade. Daniel Karslake, o diretor, utilizou os depoimentos de cinco famílias americanas extremamente religiosas que, em algum momento, viram um de seus maiores pesadelos virar realidade: ter um filho gay.

Entre os depoimentos, especialistas discutem as passagens bíblicas utilizadas pelos fundamentalistas. Alguns recortes de filmes e programas também são apresentados.

Tem duração de apenas 95 minutos e passa muito rápido. Foi nomeado para o Sundance em 2007 e venceu o GLAAD em 2008, entre outros.

O meu choro é não só por não entender a intolerância alheia, mas também por achar linda as reações de alguns pais. Em alguns momentos, os depoimentos surpreendem.

Embora eu não tenha nenhuma grande relação com o cristianismo – apesar da minha família ser católica -, religião é um assunto que me interessa e, por ser do meio LGBT, os confrontos com religiosos mais afoitos são inveitáveis. Pra quem sofre do mesmo mal, é obrigatório.

O próximo da minha lista é 8: The Mormon Proposition.