Dia 242: Hosuto kurabu

Em 1853, o comodoro americano Matthew Perry chegou ao Japão com quatro navios para exigir a abertura dos portos japoneses aos Estados Unidos. Durante os 14 anos seguintes, o Japão passaria por uma transição, pondo fim ao xogunato e entrando na Era Meiji.

Conforme as relações entre os dois países foram crescendo, a curiosidade mútua se acirrou, ainda que de maneira desigual. O Japão sofreu um processo de aculturação intenso, procurando se adequar ao modelo ocidental. Os EUA, por sua vez, adotaram a cultura japonesa como um item ‘exótico’ e venderam uma imagem romântica de uma terra em que todo mundo era samurai ou gueixa.

As gueixas. Um mistério para os ocidentais. Não tendo nada semelhante em sua própria cultura com que comparar, as gueixas se tornaram, para os americanos, prostitutas, sinônimos não só de sensualidade, mas de sexo e submissão.

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Eu acho super repetitivo dizer isso, mas gueixas não são prostitutas. O kanji ‘gei’ (芸) em ‘geisha’ (ou ‘geiko’) significa ‘arte’, e é nisso que se especializam: em entreter clientes com música, dança, jogos e conversas interessantes. Ainda existe muita confusão e pouca definição sobre qual a real natureza do hanamachi (os distritos de gueixas), e não há dúvidas de que a profissão, em dadas circunstâncias, envolve sexo, mas esse não é o seu fim.*

Mais de cento e cinquenta anos depois, o cenário muda, mas a incógnita permanece a mesma. Os quimonos dão lugar ao visual moderno, a música tradicional vira música techno e os clientes trocam o sake por champanhes caros. São os host clubs, que também invertem o papel sexual: o maior nicho desse negócio é o de homens que atendem mulheres.

Digo que a dúvida permanece porque os hosts são encarados da mesma forma, como prostitutos. As hostesses, muito mais. Assim como aconteceu com as gueixas, a mente ocidental não consegue processar muito bem a diferença, talvez pela pouca familiaridade com a cultura em questão.

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O que é tão difícil pro pessoal do lado de cá do mundo entender é que conceito de amor romântico é uma coisa muito nossa. As pessoas crescem achando que é natural você querer se apaixonar e casar com aquela tal pessoa, ‘o amor da sua vida’, e viver feliz pra sempre. E não é. É só mais uma construção social.

No Japão tradicional, casamento nada tem a ver com amor. Pode acontecer, né? Mas daí você não passa de um tremendo sortudo. Casamento é dever. É quase uma profissão. E, como talvez em todo lugar, mais profissão de mulher que de homem. E eu não estou chutando um palpite aqui. Essa é uma observação da minha convivência com os próprios.

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Eu cresci entre japoneses. São Paulo, né? É muito, muito mais comum você ver japoneses na padaria do que aqui em Minas Gerais. Aqui eu conto nos dedos os japoneses que vi nesses quase dois anos e meio. Lá, não. E minha cidade faz fronteira com cidade-colônia, então fica mais fácil ainda. Minha família tinha amizade com uma família japonesa de lá. E eu cresci comendo a comida deles, nadando na piscina deles e chamando o vô deles de vô.

O tal vô era o patriarca da família. Masao-san. Jii-chan, vovô. Ele era um velhinho muito alegre, corcunda, falante. Adorava contar histórias. Foi com ele que eu aprendi a ler hiragana, katakana e meus primeiros kanji. O jii-chan era mais ou menos um japonês típico, mas tinha lá o seu toque brasileiro, já que tinha vindo pra cá muito novo. E o jii-chan era casado com a baa-chan. A vovó.

A baa-chan era a mulher japonesa escrita. Não tinha nada que fosse diferente. Ela fazia tudo com muita habilidade, como se houvesse sido treinada pra tudo. Era séria, muito séria. Se eu a vi sorrir alguma vez em 15 anos, não me lembro. Ela tinha lá as suas mágoas do passado, mas no geral tudo era só um reflexo da sua praticidade mecânica. Que era como funcionava o relacionamento deles. Tudo era mecânico, sem muito sentimento. O casamento era só uma forma de ajudarem um ao outro, de fazer o mundo continuar girando.

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Casamentos tradicionais** japoneses são bem assim. Existe o companheirismo, mas é aquele do dia-a-dia, do falar sobre contas, filhos, o dia no escritório. O amor pode existir, até com mais frequência do que eu imagino. Mas é amor construído, não paixão ou romantismo. É coisa que o tempo traz.

E é aqui que entra o x da questão. Sabe aquele ditado do homem que vai procurar fora de casa e mimimi? É bem isso. Mas não é bem o sexo. É a conversa, a distração. Esposa serve pra cuidar do filho. Pra conversar, contrata-se gueixas. E as gueixas viraram hostesses, para os modernos. E renderam um nicho que acho que nem os próprios japoneses previam, que era o da mulher como cliente.

A mulher-cliente ganhou duas opções. A primeira e mais óbvia é o host. Um homem moderninho, ‘bem-vestido’ (dentro do critério japonês; aos olhos ocidentais, parece bem estranho, exagerado e brega, talvez) e bom de lábia, que a trata como alguém especial e faz acreditar que um dia, quem sabe, vai se casar com ela.

A segunda opção são as onnabe. Onnabe são mulheres travestidas de homem ou mesmo homens transexuais. As clientes das onnabes são mais complexas, porque eu acho que são um misto de várias coisas: da inabilidade social, fruto de uma sociedade com linhas tão rígidas (e, ironicamente, pode-se argumentar que nem tanto assim) quanto aos sexos, onde boa parte de meninos e meninas ainda estuda em escolas separadas; da expectativa não atingida e consequente frustração em não conseguir aquele ideal romântico, o que leva algumas a se sentirem inibidas diante de homens***; e de uma possível ou provável homossexualidade não percebida ou não aceita – excluindo, claro, aquelas que de fato gostam e têm consciência disso.

Eu não sei bem quanto à segunda, mas as clientes da primeira categoria caem dentro de um clichê muito bem aceito: o de que são todas prostitutas. Fala-se como se os hosts fossem alvo dessa classe profissional, como se as prostitutas os procurassem em primeiro lugar. E não é isso; é o contrário.

Como eu disse antes, manter um host – manter, porque você vira cliente fiel – custa muito dinheiro. Seja pra se sentar com ele em algum canto especial do clube, por 50 dólares a hora, seja abrindo uma garrafa de champanhe, que costuma variar entre 500 e 2.500 dólares. Adicione à conta uma garota de, sei lá, uns vinte anos e você terá um novo vício que não raro custa 3.000 ou 5.000 dólares por semana.

E daí que muitos destes clubes são controlados pela yakuza, a máfia japonesa. E a yakuza bate na porta dessa mocinha pra cobrar a dívida e propõe uma solução mágica: se elas se prostituírem por uns três meses, dá pra saldar a dívida e eles nem vão precisar ir atrás da família dela. E é claro que ela aceita e isso descamba para um círculo vicioso. Voilà.

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Existe um documentário bacana sobre host clubs. Se chama The Great Happiness Space e vale bem a pena. É centrado em um clube específico, o Rakkyo, e seu dono, que é o host principal da casa, o Issei.

Lá ele dá os detalhes do que faz. E as clientes falam sobre o que sentem. É tão, tão revelador, que, a pedido do host, o documentário não foi exibido nem divulgado no Japão. Porque entrega todo o ouro. Aqui tem a melhor review.

Artigos sobre host clubs pipocam o tempo todo por aí. E um programa da BBC, Japanorama, também falou sobre isso em um episódio – embora eu ainda não tenha visto.

É um assunto que dá pano pra manga.

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*Como não vem ao caso entrar em muitos detalhes, pra quem se interessar pelo assunto, arrisco dizer que esse é o melhor livro sobre gueixas atualmente: DALBY, Liza. Gueixa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. 360 p.

**É bom eu grifar isso pra que fique claro que eu estou falando do modelo velho. É claro que isso vem mudando com as novas gerações. Não tinha como ser diferente. Mas é também bom lembrar que isso não é um aspecto de todo desfeito; muito pelo contrário.

***Vi uma vez uma cliente dizendo que gostava das onnabe porque ‘se pareciam com homens, mas por dentro ela sabia que eram mulheres’, então se sentia mais à vontade.

Dia 57: Kimono

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Citei um trecho dele ontem e acabei de ler hoje.

Liza Dalby é uma antropóloga americana, mais famosa pelo livro Gueixa. Dalby viveu no Japão quando criança e desenvolveu uma paixão pelo país. Depois de formada, viveu como gueixa durante um ano como parte da pesquisa que geraria sua tese, The Institution of the Geisha in Modern Japanese Society, e, posteriormente, o livro citado.

A convivência com as gueixas fez com que ela se interessasse por outro símbolo nipônico: o kimono. Neste livro, a antropóloga aborda todos os aspectos do vestuário japonês típico, desde sua história até o simbolismo dentro da cultura do Japão.

Sou suspeita, porque sou fã da Dalby, mas considero o livro essencial pra quem gosta de kimono e quer entendê-lo. Aliás, recomendo a leitura dos dois livros, pois são complementares.

Outras reviews.

DALBY, Liza. Kimono: fashioning culture. London: Vintage, 2001. 395 p.

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Susohiki (kimono de geisha e maiko) e obis fantásticos:

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Furisode e tomesode:

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Partes do kimono:

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Dia 56: Ushiro Sugata

Li algo muito interessante que a Liza Dalby escreveu e eu nunca havia percebido:

“Kimono evolved in a chairless environment with low tables, where a clean matted floor was the primary location for social interaction. Kimono appears to its best advantage under these conditions, and can even be comfortable.

[…]

“Kimono is […] disadvantaged in a roomful of tables and chairs where its best points are hidden. A formal kimono sports most of its design interest on its skirts, and the obi on its taiko-fold. By far the major æsthetic focus of kimono is the back, so even a chair destroys its proportions. The allure of the back view of a feminine figure, the ushiro sugata, has been recognized in Japanese culture in a thousand years. Kimono styles evolved with this in mind. Even the modern, somewhat flat version of Japanese dress is more striking viewed from behind.”

DALBY, Liza. Kimono: fashioning culture. London: Vintage, 2001. p. 340-341.

O ushiro sugata é, na minha opinião, a imagem mais romântica da cultura japonesa. Ver uma mulher de kimono sentada de costas é uma das imagens mais femininas e sensuais na ótica japonesa. No entanto, apesar de obviamente achar que um kimono fica deslocado em um ambiente com móveis ocidentais, nunca havia parado pra pensar em quão inconveniente eles podem ser não só pra quem veste, mas também pra quem vê.

Outro ponto interessante que pensei é que pra uma geisha ou uma maiko isso é ainda mais importante.  O pescoço exposto e maquiado é talvez a parte mais insinuante do corpo delas. Não só isso, como também exibem obis mais extravagantes e com nós menos conservadores do que o estilo taiko usado pelas mulheres comuns, especialmente os de uma maiko.

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