Asas vermelhas com pluminhas: super coreano

Todo mundo sabe – bom, todo mundo que conhece – que o Takarazuka é dono de uma breguice ímpar e sem fim. *Pausa para o coraçãozinho com a mão* Basicamente, não há como assistir nada do Zuka sem chorar glitter com paetê.

Aí hoje eu fui assistir The Legend Ver. II (Hoshigumi, 2009). E pensei que, há!, alguém estava violando as regras do teatro. Duas horas e meia de show e o figurino estava impecável, a maquiagem estava impecável, os cenários estavam ótimos, a coreografia, excelente.

Até a cena final.

SANTA MÃE DE DEUS, O QUE É ISSO! Juro que essas asas vermelhas de crepon com paetê e pluminha saíram d-o-n-a-d-a. E abriram. E ainda vieram acompanhadas dessa plataforma com fumacinha que eles dão um jeito de colocar em tudo também.

É engraçado porque não tem a ver com NADA do resto da peça. Queria saber quem toma essas decisões lá dentro. Sério.

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Mas eu gostei da peça e gostei do casal Chie-Nene. Sim, foi a primeira peça que eu assisti com elas de top. Tenho um mal grave que é ter preguiça de atrizes novas, então acabo demorando a dar chance. Mas elas são ótimas. E a Nene é uma graça e canta muito bem, o que tava difícil de ver em onnayaku. Agora entendo a histeria que rola no Tumblr.

Necessito: Legend, a série coreana. Torrent em 3, 2…

Dia 250: Takarazuka: Parte VII – Etc.

Minhas atrizes favoritas, aquelas que estavam na época em que virei fã, já saíram quase todas. A saída mais dolorosa foi a da Sumire Haruno, porque eu realmente esperava ver uma performance dela ao vivo, antes dela se ‘aposentar’. E, no fim, a gente sempre espera que a atriz vá escolher ficar lá pro resto da vida. Tipo a Todoroki. Mas ela tinha outros planos. Saiu pra se casar.

Sorte que a Todoroki tá lá. É das minhas favoritas. E tem sempre a Hiromu Kiriya também. Que eu espero que vá longe, porque ela é boa. Virou top recentemente, depois de longos anos seguindo a Jun Sena. A Jun foi a última da minha geração favorita a deixar o teatro.

[Da esq. pra dir, de cima pra baixo: Sumire Haruno, Yuu Todoroki, Jun Sena e Hiromu Kiriya]

Ainda estou me acostumando às outras tops. Uma que eu definitivamente não gosto, e que vai sair em breve, é a Natsuki Mizu. Sai em setembro, mas ainda não se sabe quem vai sucedê-la. Das musumeyaku, nenhuma das atuais conseguiu chamar minha atenção. A única que eu gosto, a Ayane Sakurano, também vai sair. Dia 30, agora.

[Mizu e Sakurano]

Se é que alguém ainda não procurou, vou colocar dois vídeos aqui só pra dar um exemplo. O primeiro é da peça Me and My Girl, na versão de 1995 do Tsukigumi. A top da época era a Amami Yuuki, famosa por ter sido uma das atrizes mais novas a conseguir o posto, aos 26 anos. O vídeo é basicamente um trailer, misturado com a cena mais famosa da peça, a Lambeth Walk. Me and My Girl é um musical britânico de 1937. Aqui tem uma versão (premiada) inglesa para comparação – a qualidade não está boa, mas gosto dessa versão e não consegui achar outro vídeo parecido.

Para o segundo vídeo, eu ia escolher algum de Elisabeth. Fui procurar no YouTube e acabei descobrindo que existe alguém traduzindo Takarazuka para o português! Eu não tive ainda como assistir tudo, só dei uma passada de olhos, mas a tradução parece ok. É a Elisabeth de 2005, Tsukigumi. Não é nem de longe a minha favorita. Nao Ayaki no papel principal não convence. E Sena Jun, uma otokoyaku, faz o papel de Elisabeth. De uma maneira geral, a interpretação é boazinha, mas a voz dela falha terrivelmente nos agudos. O lado positivo é a Kiriya como Luigi Luccheni.

Vou postar a primeira parte. É possível achar as continuações nos vídeos relacionados.

A melhor versão, infelizmente, ainda não está legendada – pelo menos não encontrei nada. Se você tem interesse e entende japonês (ou tem paciência), é possível assistir no Tudou. Hanagumi, 2002.

Como eu já disse, o Zuka é bem desconhecido no Brasil, mas felizmente tem muitas fãs nos EUA e na Europa. Por isso, é relativamente fácil encontrar sites de fãs. Muitos sites já estão desatualizados e; ou foram abandonados, especialmente porque hoje em dia existe o Takawiki facilitando nossas vidas. As fãs também costumam se comunicar pelo LiveJournal, através da comunidade principal ou por blogs pessoais. O site oficial é esse. Também tem uma versão em inglês, mas não tem muitas informações; só as peças em cartaz e o básico sobre acesso ao teatro.

O melhor livro sobre o Takarazuka é o que já citei:

ROBERTSON, Jennifer. Takarazuka: sexual politics and popular culture in modern Japan. Los Angeles: University of California Press, 1998. 278 p.

Existe um documentário, também, sobre o teatro, chamado Dream Girls (favor não confundir com o filme). O Japanorama, aquele programa da BBC que eu citei no post sobre hosts, também falou um pouco sobre o Takarazuka no mesmo episódio dos hosts – eu só assisti essa parte; já estou baixando as três temporadas do programa pra assistir.

E aqui tem um artigo que o Asahi Shinbun publicou em 2008 sobre aspirantes ao Takarazuka. Existem vários outros artigos.

E eu encerro aqui o meu Takarazuka For Dummies. Espero que eu tenha conseguido fazer uma coisa mais ou menos clara, que dê pra entender. Com exceção dessa última parte, os outros posts eu escrevi todos numa noite, com sono. Deixei todos programados, e como não tive muito tempo nos últimos dias, nem tive tempo de revisar antes que fossem publicados. Já vi uma série de erros bobos. Perdão. Vou corrigi-los com o tempo, mas não é nada que atrapalhe a compreensão, espero.

Pra quem tiver interesse, é só pedir socorro por aqui. Ajudo no que puder. Ter com quem discutir é sempre bom.

O Takarazuka pode e deve provocar muito debate. O que eu me propus a fazer aqui, no entanto, não dá muito espaço pra isso, só pra passar rapidamente por alguns tópicos. Espero ter provocado a curiosidade de alguém pra levar isso adiante.

Dia 249: Takarazuka: Parte VI – SHINY!

Uma das maiores características estéticas do Zuka é a maquiagem pesada, de forma a dar um ar mais ocidental. Os olhos, por exemplo. Essas feições – os olhos gigantes – que hoje nós identificamos facilmente nos animes foram inspiradas no Takarazuka. Osamu Tezuka, o ‘pai do mangá’, era fã do teatro.

Mas existem outras coisas que chamam mais a atenção dos não japoneses. A essa altura, se você andou googlando takarasiénnes por aí, com certeza já percebeu que a estética do teatro é, digamos, peculiar.

Lembrem-se que o Takarazuka surgiu originalmente como teatro de revista (o nome oficial internacional do teatro é Takarazuka REVUE), e as características deste formato foram incorporadas – e, inclusive, ‘aperfeiçoadas’ – na imagem do Zuka.

A que mais chama atenção, a princípio é o brilho. Muito, muito brilho. Ternos brilhantes, vestidos brilhantes, chapéus brilhantes, palco brilhante, luzes coloridas piscando. BRILHO! Uma piadinha que sempre circula por aí é: “Takarazuka: because the world needs mor SHINY!”

[Shirahane Yuri e Kozuki Wataru, Neo Dandyism!, Hoshigumi, 2006]

O brilho eu até perdoo. Tem coisa pior, quer ver? Por exemplo, o esplendor.

[Mizu Natsuki, The Dawn at Solferino, Yukigumi, 2010]

ESPLENDOR, GENTE! É horrendo, e no entanto é a marca registrada do Takarazuka. Toda, absolutamente TODA peça é encerrada com um figurino de esplendor.

Também tem as tiaras.

Lembra que eu disse, no começo, que não gostei de cara de A Rosa de Versalhes por causa do visual? Pois é, embora eu aceite melhor hoje em dia, eu ainda não consigo gostar da peça. E olha que é dos meus mangás top-top! EHome em dia eu ignoro esses exageros. São bem característicos do Japão ocidentalizado. Mas costumo preferir peças em que as roupas não saiam cegando ninguém por aí.

[A Rosa de Versalhes, Yukigumi, 2006]

Felizmente, os anos 80 já passaram. Acreditem, era BEM pior. Aqui tem um exemplo, que eu nem vou postar. Se quiser clicar, é por sua conta e risco.

Dia 248: Takarazuka: Parte V – Subversão

Como eu disse antes, o Kobayashi era muito homofóbico. Nas décadas de 20 e 30, conforme o teatro foi ganhando popularidade, acabou sendo alvo de inúmeras críticas por conta de algo que até então não fazia parte nem do imaginário japonês: as lésbicas.

O Japão tem um longo histórico de homossexualidade registrada, aceita e encorajada, mas apenas a homossexualidade masculina. Mulheres, até então, não tinham desejo. Mulheres, aliás, não eram nada. Só esposas em potencial, esposas de fato e mães.

Mas vamos combinar que Kobayashi deu a elas uma oportunidade de ouro para descobrir um outro mundo, né? E aí que, um a um, os casos entre atrizes e entre atrizes e fãs foram aparecendo, e o Takarazuka virou um escândalo total. O Kobayashi, nem preciso dizer, deve ter tido uns 73 enfartes nessa época. Fez de tudo para ‘limpar’ a imagem do teatro, inclusive proibindo as atrizes de trocar cartas, mensagens e confraternizar com as fãs.

Isso, é claro, não serviu de muita coisa. As atrizes continuaram e continuam tendo casos entre si, e encontraram sua própria maneira de se aproximar das fãs – hoje em dia as restrições diminuíram, mas ainda existem diversas regras no que diz respeito às fãs.

Feliz ou infelizmente, todo o esforço de Kobayashi para impedir que escândalos chegassem à imprensa surtiu efeito em um aspecto: o Código Sumire*. O Código é um acordo silencioso entre atrizes, funcionários do teatro e fã-clubes de não divulgar absolutamente nada que não seja oficial. É quase uma ordem secreta: só quem está lá dentro é que sabe. Os fã-clubes são bastante organizados e têm um controle surpreendente sobre as informações que circulam e quem as recebe.

Isso é bom por um lado, porque protege a identidade** e a vida pessoal das atrizes. Por outro lado, não deixa de ser um grande armário, dando a entender que elas estão fazendo algo errado, que deve ser escondido.

Claro que o Código também cumpre muito bem o seu papel de atiçar a curiosidade de quem está de fora. Suspeitas de relacionamentos entre atrizes são constantes, e volta e meia discute-se quem está com quem. Acho que o caso mais famoso dos últimos anos é do casal top-top-de-todos-os-tempos, Youka Wao e Mari Hanafusa.

[O-Hana e Takako, Lightning in the Daytime, Soragumi, 2003]

As duas bateram recordes de tempo como top stars. Uma atriz geralmente fica nesse posto por um período de três a quatro anos. A Takako (Wao) ficou oito; a O-Hana (Hanafusa), doze. Por aí já dá pra perceber o tamanho da popularidade das duas. Elas eram o Golden Combi (o casal principal) do Soragumi. E sempre levantaram suspeitas. Que não diminuíram quando deixaram o teatro juntas, nem quando a O-Hana apareceu de repente no meio de uma viagem que a Takako fazia com as fãs***, e piorou quando esta última resolveu seguir na carreira artística tendo a O-Hana como empresária.

Essa subversão, não só das regras, mas de toda a ideologia que o Kobayashi pregou, é possível graças a um outro ato surpreendente. Por duas vezes, quando o teatro já era popular, Kobayashi tentou introduzir atores masculinos no teatro, uma pré e outra pós-guerra. Nas duas, falhou epicamente. As atrizes se recusaram absolutamente a atuar com homens.

Aqui entra uma visão interessantíssima da coisa toda. Muitas atrizes veem a oportunidade de ser otokoyaku como uma chance de serem livres. Dentro da sociedade japonesa, limitada, como mulheres, elas só podem cumprir papéis específicos; em cima do palco, como homens, elas se sentem assim, livres. Curiosamente, essa também é a visão das fãs. Elas se realizam através das atrizes. Vou usar como exemplo a carta que uma fã escreveu para Mao Daichi, uma atriz muito popular da década de 80, quando ela deixou o teatro para seguir a carreira de atriz:

To Daichi Mao-sama: You were an absolutely new flower. There has been no other star in Takarazuka history who had displayed your gorgeous androgynous elegance. Before you, there were many orthodox otokoyaku . . . but you gave rise to a new type of player of men’s roles . . . with your round face, slim body, and sinuous movements . . . When we fans first hear you sing [about love], we were swept away in a strange and fragrant world. Without question your charm was your very womanliness. Not the posturing come-on of mannish females, but an affirmation of a womanliness of female bodies. You symbolized a new era when females could begin to love themselves as themselves.

And so why you became an ordinary woman?

There are a million of actresses. There’s no reason for you to become yet another actress who titillates actual males . . . Now all you do is take roles that have you pout at males and say things like, “Why don’t you like me?” That kind of role is totally unrealistic; it’s a pathetic joke. You’ve gone from being a jewel to being a mere pebble. I can never forgive your betrayal in playing women who exist for males. When we see you being embraced by a male, it’s as though our dreams have been stolen.

You – Takarazuka’s new flower, females’ freedom and joy, our fin de siècle dream. Why did you become a woman? Just an ordinary woman!?

Yours, Hoshi Sumire.

(ROBERTSON, Jennifer. Takarazuka: sexual politics and popular culture in modern Japan. Los Angeles: University of California Press, 1998. pp. 79, 81)

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*Sumire = violeta, a flor-símbolo do teatro.
**No Japão, costuma-se adotar nomes artísticos de acordo com a profissão.
***Geralmente, atrizes que deixam o teatro fazem algum tipo de viagem com as fãs em seguida.

Dia 247: Takarazuka: Parte IV – Polêmicas

Existem muitas, muitas polêmicas em torno do Takarazuka. Todas elas giram em torno de uma característica específica do teatro: o sistema patriarcal.

O Zuka é um teatro onde só mulheres atuam e cujo público fiel é formado em 90% por mulheres, mas os bastidores são diferentes. Até pouco tempo atrás, todos os cargos de importância, incluindo diretoria, produção e criação do teatro eram ocupados exclusivamente por homens. Isso vem mudando, inclusive com a entrada de duas atrizes para a mesa de diretores: Yachiyo Kasugano, da turma de 1928 (17ª classe; é atualmente a atriz mais velha do Takarazuka) e Yuu Todoroki, de 1985 (71ª classe). No entanto, não houve ainda nenhuma mudança significativa.

[Yuu Todoroki, Hanakuyou, Senkagumi, 2004]

As críticas giram em torno de certas regras que foram criadas no início do teatro e perduram até hoje. As atrizes não podem, por exemplo, ter qualquer tipo de relacionamento com homens (na verdade, não podem ter qualquer tipo de relacionamento, ponto; ‘com homens’ fica implícito, porque o Kobayashi não imaginava que suas atrizes praticariam qualquer tipo de ato lésbico e era extremamente homofóbico) enquanto estão no teatro, e devem evitar qualquer contato público com homens que não sejam parentes.

Isso era explicado inicialmente pelo lema da TOG: ‘kiyoku, tadashiku, utsushiku’ – não sei traduzir bem, mas é algo em torno de ‘pureza, decência, beleza’. Antigamente, a escola era divulgada como um lugar em que as garotas seriam devidamente educadas para se casar. Lá elas passariam um tempo estudando artes e costumes japoneses (cerimônia do chá, ikebana), e as performances as ajudariam, teoricamente, a compreender melhor os homens. Aqui vem a parte engraçada: as otokoyaku eram vistas como as melhores esposas em potencial, porque, tendo vivido papéis masculinos, entenderiam melhor seus maridos.

Hoje em dia isso não é mais justificativa, embora muitos pais ainda levem suas filhas para lá com esse objetivo. O argumento usado agora é o do marketing: a musumeyaku teria sua imagem de ‘pureza’ destruída se fosse vista na companhia de homens, e a otokoyaku, em contrapartida, acabaria com o sonho das fãs, que as veem como homens.

As musumeyaku têm uma causa própria a defender, e muito justa. Na verdade, eu as chamo de musumeyaku por hábito e por ser o termo oficial e mais usado, mas muitas musumeyaku não o adotam e o acham ofensivo. Ao contrário do kanji ‘otoko’, de otokoyaku, que significa homem, ‘musume’ não significa mulher, e sim ‘moça, filha’. Isso leva a uma imagem de não seriedade. Elas alegam que são sempre tratadas como crianças, sendo guiadas pelas otokoyaku. Isso fica bem óbvio na distribuição de papéis: as personagens interpretadas por elas são sempre meigas e delicadas. Quando existe uma personagem mais forte ou sensual, é muito comum ser interpretada por uma otokoyaku.

[Ayano Kanami, Jazzy Fairies, Tsukigumi, 2005]

Mas o tratamento infantil não é exclusividade delas. Na verdade, todas as atrizes são tratadas assim. Kobayashi tinha atitudes paternalistas, se dizia o pai de todas elas. Quando uma atriz deixa o teatro, diz-se que ela está graduando. Ou seja, é como se todos os anos que ela passou lá dentro, tenha ela 25 ou 50 anos, fosse um tempo em que ela esteve exclusivamente passando por um período de aprendizado. Jennifer Robertson alega que isso é não só uma forma de controlar as atrizes, mas também de fazer com que seus salários sejam mantidos sob um teto: se elas não são profissionais, não têm por que exigir salários altos.

Outra polêmica, é claro, é a heteronormatividade presente nas peças. Isso não deve mudar muito cedo. É algo que agrada às fãs e ao teatro igualmente, e não é de todo ruim, como eu vou argumentar em seguida.

Dia 246: Takarazuka: Parte III – O teatro

Depois do blablablá sem fim sobre a história do Zuka – desculpem-me; foi necessário -, é bom a gente começar a entender de fato o que é o teatro.

Primeiro, existem dois termos que resumem o conceito principal do teatro: otokoyaku e musumeyaku. O Takarazuka é um teatro onde só mulheres atuam, mas não produz peças só com personagens femininas ou com personagens lésbicas. O formato do teatro é clichê, tradicional ocidental, com histórias melosas e heteronormativas.

Assim, as atrizes são divididas entre aquelas que atuam em papéis femininos (musumeyaku – 娘役) e as que atuam em papéis masculinos (otokoyaku – 男役).

[E o vento levou, Hanagumi, 2002]

As atrizes são divididas em cinco trupes oficiais, mais uma especial. As trupes são o hanagumi (花組 – hana: flor; criada em 1921), o tsukigumi (月組 – tsuki: lua; 1921), o yukigumi (雪組 – yuki: neve; 1923), o hoshigumi (星組 – hoshi: estrela; 1933) e soragumi (宙組 – sora: não sei bem a tradução, acho que é ‘céu’; 1998).

Cada uma dessas trupes possui, atualmente, cerca de oitenta atrizes, e cada uma delas possui uma hierarquia, que é tão complicada que eu não vou nem me arriscar a explicar. Basta saber que, para fins de performance, existem duas atrizes principais, as chamadas top stars, que são uma otokoyaku e uma musumeyaku.

A otokoyaku sempre, sempre tem destaque. Ela é o diferencial do Takarazuka, afinal. Então ela é basicamente a atriz principal, seguida da musumeyaku. A terceira atriz mais importante também é uma otokoyaku, assim como a quarta e a quinta. Essas três últimas são chamadas de nibante, sanbante e yonbante, respectivamente.

Para uma garota conseguir ingressar no teatro, só existe uma única forma: o Takarazuka Ongaku Gakkou, ou ‘Escola de Música do Takarazuka’. E não é um muito simples. Só são aceitas meninas entre 15 e 18 anos, que prestam uma bateria de exames de canto, dança e atuação. Só aproximadamente 40 garotas são aprovadas por ano, das mais de 2.000 que se inscrevem.

São dois anos de treinamento na TOG. No primeiro, as meninas recebem aulas básicas de canto, dança, teatro e piano, entre outras coisas. É no final desse primeiro ano que cada atriz vai receber seu ‘título’ de otokoyaku ou musumeyaku. O que define que gênero cada garota vai interpretar envolve um pouco de vontade pessoal, mas a maior parte é decidida com base na sua aparência, modos, altura e traços. Basicamente, com qual sexo a garota melhor se identifica.

A maior parte das novatas quer se tornar otokoyaku, porque são elas que têm o maior destaque e, consequentemente, os maiores fã-clubes. São também geralmente as que conseguem carreiras melhores pós-teatro.

No segundo ano, essas características específicas de cada gênero são treinadas. As otokoyaku aprendem a se portar de maneira mais andrógina, masculina, e as musumeyaku passam a exagerar na feminilidade para criar um contraste com as otokoyaku, de forma a acentuar a masculinidade delas. Basicamente, são dois estereótipos.

Quando se formam, as atrizes assinam um contrato-padrão de sete anos com o teatro. A maior parte das atrizes só cumpre estes sete anos. Primeiro, porque para o teatro não é interessante segurá-las; é preciso dar espaço para as atrizes mais jovens. Para as atrizes, isso também não costuma ser interessante. A maior parte delas não espera de fato seguir carreira e encara – isso pode estar mudando agora – o teatro como uma fase pré-casamento – essa era a ideia inicial da escola e do teatro, propagadas pelo próprio Kobayashi. As que tinham alguma esperança, acabam se deparando com o fato frustrante de que não vão virar top stars. Essas acabam desistindo também; algumas, no entanto, seguem carreira.

Essas vão parar no chamado senkagumi. O senkagumi é uma uma trupe especial, para atrizes com mais de 40 anos de idade. Elas deixam de ser fixas nas trupes, como as atrizes mais jovens, e passam a interpretar papéis específicos conforme a necessidade de cada trupe. O senkagumi, claro, não possui performances próprias, só fornece atrizes para as outras trupes.