Dia 245: Takarazuka: Parte II – História

O Takarazuka foi fundado em 1913 por Ichizou Kobayashi. Kobayashi foi um político japonês, ministro do Comércio e da Indústria à época da Segunda Guerra – sim, ele admirava Hitler. Na época da fundação do teatro, no entanto, ele era presidente da Hankyuu Railway, uma companhia ferroviária.

Takarazuka é o nome de uma cidade japonesa, localizada em Hyougo-ken, na região de Kansai (centro-sul). Takarazuka era uma cidade popular pelas fontes termais, e Kobayashi achou que seria interessante se houvesse algum outro tipo de atração local que aumentasse a venda de passagens para lá – a Hankyuu possuía uma linha que ligava a cidade a Osaka.

Kobayashi considerava a ideia de um teatro tradicional, como o kabuki, antiquada e elitista, e aproveitou a onda de popularidade dos musicais em estilo ocidental para montar um grupo de performance só com garotas.

É preciso entender aqui que a lei que bania mulheres no palco tinha caído havia pouco tempo no Japão. O teatro mais popular era o tradicional, onde só homens atuavam, e atrizes (as que subiam em palcos para atuar com homens) não eram bem vistas. Portanto, a ideia de um grupo formado só por mulheres era mais natural do que um grupo misto.

Durante 1913, o grupo começou a arrebanhar moças e ensaiá-las. O grupo estreou oficialmente em abril de 1914. Durante os dez anos seguintes, se tornou popular a ponto de ganhar o próprio teatro, o Takarazuka Daigekijou (que hoje é o teatro principal).

Em 1927, o Zuka sofreu seu primeiro boom, com a peça Mon Paris. Os anos seguintes seriam marcados por diversas turnês internacionais e a abertura de um teatro em Tokyo (1934), mas também por algum infortúnio, como o incêndio no teatro principal, em 1935, e a guerra, que levou o governo a obrigar o grupo a fechar suas portas e ceder o teatro para usos militares em 1944 – seria reaberto em 46.

Daí pra frente, viria uma nova onda de turnês (incluindo uma passagem pelo Brasil, em 78) e o segundo boom, em 74, com a peça A Rosa de Versalhes (aquela do começo).

Não houve nenhum grande acontecimento de lá pra cá, a não ser algumas mudanças estruturais (que vão ser citadas adiante) e as primeiras performances de Elisabeth, que trariam a terceira onda de fãs.

[Parisette, 1930]

Dia 244: Takarazuka: Parte I – Introdução

Eu venho querendo escrever algo sobre o Takarazuka há anos. Assim, só pra ter. Porque toda vez que alguém me pergunta o que é, eu resumo numa linha: um teatro japonês formado só por mulheres. Acho que todo mundo se deu por satisfeito com essa explicação até hoje, mas eu sempre fico querendo falar mais.

Acho que é por não ter com quem falar. No Brasil, são tão poucas as pessoas que gostam, que chega a ser frustrante. Conheço menos de cinco fãs aqui. Eu tenho ouvido muito esse pessoal mais novo que curte anime falar do Takarazuka, provavelmente por influência da Valéria-sama, mas ainda não vi nenhuma fã, por assim dizer. Por sorte, é relativamente fácil achar fãs americanas/os europeias/eus pela internet afora.

Minha motivação para escrever é: 1) ter uma espécie de ‘guia’ pra quando alguém se interessar pelo assunto; 2) debater mais uma daquelas coisas que encanta e frustra feministas na mesma medida; 3) debater gêneros (YAY!).

Também é legal porque essa nova leva de amigos meus ainda não sabe que o Takarazuka é uma das minhas maiores paixões. Eu tenho poupado os ouvidos alheios. Os mais antigos já estão cansados de ouvir falar. Uma amiga servia até de cobaia: assistia tudo o que eu baixava comigo. Tadinha.

Eu acho muito, muito difícil escrever sobre isso. O Takarazuka é muito complexo, e eu não consigo ver as informações que eu preciso dar de forma linear. Tem coisa que é fácil de escrever, que você vai seguindo numa linha. Eu diria que aqui é mais o caso de uma rede, onde uma informação depende da outra pra fazer sentido, então eu vou precisar de tempo e paciência pra perceber por onde começar.

Eu queria tratar tópico a tópico sobre o Zuka (apelido carinhoso de fã), então dividi tudo em sete partes. Vou publicar uma por dia, e espero ter sido clara. Saibam que eu escrevi tudo durante uma madrugada, em cinco horas em que eu poderia estar dormindo, então a probabilidade de eu ter escrito bobagem é grande. Qualquer dúvida, sintam-se à vontade para questionar.

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INTRODUÇÃO

Eu ouvi falar do Takarazuka pela primeira vez quando eu tinha catorze ou quinze anos. Sempre fui muito fã de anime, e na época eu estava desenvolvendo uma paixão especial pela obra da Riyoko Ikeda, em especial A Rosa de Versalhes. Isso foi por volta de 2000. A internet já estava bem e caminhando, e sites sobre anime e mangá surgiam aos montes. Pesquisando sobre esse mangá, cheguei a um site dedicado totalmente a ele, onde vi uma seção que fala sobre o musical baseado na obra que havia sido produzido por um certo teatro na década de 70.

Na época, eu não dei bola. Achei o figurino muito pesado, excessivo, e que não refletia a delicadeza dos traços da Ikeda. As perucas, então, nem dava pra comentar.

Passou. Esqueci. Esqueci por 4 anos. E um dia eu acordei e resolvi procurar. Assim, do nada. Inspiração divina. Googlei e caí no falecido site da Merry Shannon, uma das maiores fãs que eu já conheci. Ele era bem completo, tinha todo tipo de informação. E vídeos! Vídeo era a coisa mais difícil de achar. Felizmente, o YouTube chegou pouco depois nas nossas vidas e resolveu boa parte da minha agonia.

Vejam bem, logo que eu descobri o Zuka, fiquei dias obcecada com ele. Procurava freneticamente toda informação que pudesse haver no mundo sobre ele. Imaginem a minha felicidade ao descobrir vídeos (VÍDEOS!) por aí. E olha que, na época em que eu fui apresentada ao YouTube e me ocorreu a ideia de procurar, não havia mais que dez vídeos disponíveis – hoje em dia são mais de seis mil.

Acho que nem preciso dizer que me apaixonei definitivamente, né? O primeiro vídeo que vi, no site da Shannon, e que me fez ter aquele estalo causador de tudo, foi o trailer da versão de 1998 de Elisabeth, a versão encenada pelo Soragumi. Elisabeth acabou se tornando minha peça favorita, embora a Osa (Hanagumi, 2002-3) tenha substituído a Zunko (Soragumi, 1998) como minha intérprete favorita.

[Osa (Haruno Sumire) como ‘a Morte’ em Elisabeth]

A partir daqui, qualquer coisa que eu disser vai precisar de um conhecimento básico do teatro, então é bom começar a dar um resumo da história do teatro, o que eu vou fazer a partir do próximo post.

Dia 126: Takarazuka: Mizu Natsuki também sairá em 2010

Bom, é sempre chato ver as atrizes mais antigas do Takarazuka saírem. Mas eu nunca fui fã da Mizu Natsuki, então a verdade é que eu não estou sentindo tanto. Estou, sim, curiosa pra saber quem vai ficar no lugar dela. Eu sempre acho as tops do Yukigumi as mais fracas. Espero que surpreendam dessa vez.

A peça de despedida ainda não foi definida, mas já sabemos que ela deixará o teatro no dia 12 de setembro. Uma breve entrevista concedida em uma coletiva de imprensa hoje pode ser lida aqui.

Dia 96: Takarazuka e mais Brasil na guerra

A lista torturante de atrizes fodas que deixam o Takarazuka aumentou: ontem foi a vez da Ayabuki Mao anunciar que vai sair.

Muita gente diz que ela seria a próxima top do Yukigumi, mas eu sinceramente duvido. Pelo andar da carruagem, a Mizu Natsuki não vai sair de lá tão cedo. Aparentemente, ela tem uma legião gigante de fãs (juro que não entendo). Há muito, muito tempo, eu achava que ela substituiria a Haruno Sumire no Hanagumi, mas passaram a Matobu Sei na frente. Isso, pra mim, foi o sinal definitivo de que ela seria um eterno segundo lugar. Por essas e outras, entendo a saída dela, embora ela seja das minhas favoritas.

[Na foto, à direita.]

A última performance vai acontecer no dia 25 de abril de 2010, em Tóquio, com Daybreak at Solferino/Carnavale, a Sleeping Dream.

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Terminei de ler Da Itália à Coréia: Decisões sobre Ir ou Não à Guerra, do Vágner Camilo Alves. Pra quem interesse pela FEB e quais foram os motivos que levaram à sua criação, é fantástico. Obviamente, como o título já anuncia, o livro não trata só disso. Na verdade, a proposta do autor é discutir os motivos que levaram o Brasil à Segunda Guerra e o que o impediu de ir, mais tarde, lutar na Coreia – e outros conflitos seguintes -, limitando-se às ações de paz.

Há uma entrevista com o autor aqui.

Totalmente recomendado pra quem tem interesse pelo assunto.

O livro:

ALVES, Vágner Camilo. Da Itália à Coréia: decisões sobre o ir ou não à guerra. Belo Horizonte, MG; Rio de Janeiro, RJ: Editora UFMG; IUPERJ, 2007. 268 p.