Transfobia: cadê a novidade?

Não que me surpreenda, mas a Ariadna saiu. Como disseram várias pessoas no Twitter, não dava pra achar que quem premiou o Dourado fosse deixar uma trans passar. Ainda que minha opinião sobre o Dourado seja mais tênue do que as que eu tinha durante a raiva toda do ano passado, não dá pra achar que ele não fosse homofóbico e um símbolo pro brasileiro macho e moralista.

Ano passado ainda teve uma certa resistência. Esse ano eu não vi tanto. Talvez porque o programa ainda estivesse no começo, talvez porque muita gente estivesse reticente quando a assistir de novo. Mas eu não consigo deixar de achar que talvez, só talvez, houvesse um certo ceticismo diante de uma transexual.

E eu não estou falando dos héteros, não. Estou falando é da comunidade gay, mesmo. O ceticismo existe.

Eu fui perguntada há poucos dias sobre o porquê de defender a comunidade trans. Sabe? Não é a sua, então por que você não lava as mãos? Você não é negra, não é judia, não é trans, por que defender?

Fato. Vamos nos dividir e deixar o mundo se foder, né? Eu não sou negra, nem judia, nem trans, e você, amigo, não é humano.

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“Why do we have to endlessly recycle the old conflicts: first we fought about slavery, then segregation, then gender, and now sexual orientation, while gender identity is in the wings waiting. Why can’t people look at the phrase ‘liberty and justice for all’ and simply accept that ‘all‘ means all‘?”
[Autor desconhecido]

Dia 231: The L word is not the T word

Então eu estou aqui, né, em Barretos, curtindo a semana de fér… ops!, a semana da Mostra de Profissões da UFMG. É, tá, eu deveria estar lá ajudando e fingindo ser a aluna exemplar que eu não sou, mas perdoem uma menina que mora longe e que tem saudades de casa.

Antes de vir pra cá, comecei a baixar The L Word, que eu amo, mas que ainda não tinha gravado. Como eu estava baixando temporada por temporada por torrent, a primeira a ser concluída foi a terceira temporada, então eu comecei a reassistir por ela. Muito bom, porque é a minha favorita. É a mais tensa, mas também a melhor.

[ATENÇÃO: Muitos, MUITOS spoilers a seguir.]

E aí, conforme os episódios foram passando, eu comecei a perceber algo que ainda não tinha notado, uma abordagem um pouco, digamos, preconceituosa sobre a transexualidade. Não que eu não soubesse. Na verdade, quando comecei a assistir a série, há uns dois anos e meio, acabei caindo num artigo do AfterEllen que falava justamente sobre isso. Sobre o conflito do que a Ilene Chaiken considerava butch com o que o resto do mundo lésbico considera butch e a forma como a personagem trans (Max/Moira) é sempre ridicularizada. E, de fato, quando eu comecei a assistir essa temporada, senti um desconforto com a personagem, mas não dei muita atenção. Eu estava empolgada com outras coisas.

O feminismo, como todos os outros grandes movimentos, não é homogêneo. Não existe um feminismo só, assim como não existe só uma visão das coisas no movimento gay. E existe uma boa parte dele – e talvez seja nesse ponto que o lado mais conservador e o mais radical se encontrem – que não acredita em transexualidade. Porque acreditam que é uma traição, que é um ‘passar para o outro lado’. Que tudo poderia ser resolvido se o gênero fosse dissociado do sexo e com a compreensão de que você pode ser/fazer o que quiser, ainda que o que queira não corresponda ao que a sociedade espera de você. Como diz Kit, a personagem interpretada pela Pam Grier,

It saddens me to see so many of our strong butch girls giving up their womanhood to be a man. We’re losing our warriors, our greatest women…What’s male inside? What’s female inside? Why can’t you be the butchest butch in the world and keep your body? You’ll be giving up the most precious thing, being a woman. (*)

Eu concordo plenamente que o gênero pode e deve ser dissociado do sexo. Eu sou totalmente a favor e adepta do genderfuck. Sou a favor dos gêneros e de brincar com eles. Mas não dessa forma controladora, ditadora, onde quem não entra na dança é condenado. Nós não sabemos onde começa a transexualidade e qual é sua causa. Nós não sabemos quase nada de sexualidade, é fato. E reduzir o desejo da ‘completude’ que a transexualidade traz a um capricho é pesado e, ao meu ver, errado. É minimizar tudo o que um transexual passa na vida. Acho que já me fiz bastante clara sobre isso aqui.

A Kit, durante o sermão antitrans que faz pro Max, usa o argumento ‘e se eu quisesse virar branca?’ – ela é negra. Que também é um argumento falho. Porque a inconformidade dos não-brancos com a própria cor, creio, vem de uma coisa puramente cultural, de dominação. E sobre a inconformidade do gênero a gente ainda pouco sabe. É só cultural? É por ser o ‘segundo sexo’ que uma mulher quer se tornar homem? Mas então por que um homem abriria mão de sua posição de conforto para não só se transformar em mulher, mas também pra enfrentar toda a carga que ser transexual traz? E os bigêneros? É um território complicado, esse.

A terceira temporada, que é quando o Max aparece e começa sua transição, é a mesma em que a Dana descobre que tem câncer de mama. E daí se seguem diversas comparações simbólicas. Por exemplo, uma conversa que a Dana – depois de já ter operado e retirado o seio – tem com um trans, onde eles discutem as respectivas mastectomias, e ela pergunta para ele quando foi que ele descobriu (que era trans). Ele responde que, desde que os seios começaram a crescer, ele quis operá-los e que até pediu a deus por aquele tórax (masculino). E ela rebate dizendo que costumava agradecer a deus pelos seios que tinha. O trans é o ingrato que não valorizou o que tinha.

Max é o caipira, o que não se adequa ao grupo, às situações, o que só fala besteiras e que vira um monstro quando começa a aplicar testosterona. E que sofre uma reviravolta, no final, quando engravida do parceiro. E tem que engolir todo o discurso da gravidez mágica e salvadora. Aquela mesma que a Kit escolheu interromper quando precisou. Irônico?

Dia 37: Preconceito entre minorias

Hoje vi uma guria lésbica dizendo o quanto a história e a superexposição midiática do homem grávido a incomodava. Ela disse que não seria o primeiro caso e que a cobertura dele era excessiva. Na verdade, o que a incomodava não era tanto a mídia, era o fato de que ele não havia feito o ‘devido proveito’ da exposição em prol da causa LGBT.

Devo dizer que eu não acompanhei a história. Li uma ou outra coisa aqui e ali, mas foi só isso. Não sei se a cobertura foi justa ou excessiva, séria ou preconceituosa. Também não sei como ele agiu e quais eram suas intenções. Isso dito, posso continuar com minhas opiniões.

Primeiro, eu não entendo algumas pessoas. Como assim, superexposição? Se ninguém fala, reclama, e se alguém fala, reclama? Têm que falar, sim! E muito. A única razão para reclamar disso seria a forma como a mídia explorou o assunto. Se foi desrespeitosa, parcial e tendenciosa, aí sim. Tem que falar mesmo. Mas se a cobertura foi ok, então é isso que queremos, não? Que as pessoas saibam que existe um mundo não-hétero por aí e que aprendam a conviver e respeitar.

Segundo, eu não acho que seja dever de nenhuma lésbica, gay, bissexual ou transexual carregar bandeira. Eu faço e gosto. O movimento LGBT é parte da minha vida desde sempre. Mas não é porque eu sou bi, é porque eu gosto. Não é todo mundo que tem a paciência e o comprometimento. E é sempre desejável que a pessoa se posicione a respeito, mas é direito de qualquer um viver sua vida como deseja, inclusive sem carregar um arco-íris cada vez que sai na rua.

Por fim, existe uma outra coisa que a incomoda: a transexualidade em si. Ela diz que é muito injusto que uma pessoa tenha que mudar de sexo para se sentir aceita na sociedade. Por exemplo, uma mulher que quer ser aceita como homem. Que não se contenta em ser uma mulher masculina. Argumenta que sexo e gênero são coisas distintas e que deveriam ser encarados dessa forma pela sociedade, de modo que qualquer pessoa possa adotar o gênero que lhe covenha, independentemente do seu sexo biológico. [Eu estou resumindo e simplificando muito a fala dela, mas é muita coisa pra entrar aqui agora, então estou buscando dar a idéia geral.]

Até aí, eu concordo. Não com a rejeição da transexualidade, mas com a necessidade de abertura da sociedade para a flexibilização da identidade de gênero. O problema é quando ela diz que uma pessoa se torna transexual para obter benefícios sociais. Oi?

Isso é reduzir infinitamente tudo o que um/a transexual passa. A rejeição de si mesmo, a rejeição da família, a rejeição da sociedade, os psicólogos, os hormônios, as cirurgias, as mudanças. Todas as mudanças. Porque um transexual pode até se passar por um homem ou mulher por nascimento para estranhos, mas o seu círculo primário conhece toda a história. E muitas vezes ele ou ela tem que mudar de cidade, estado, país.

Me incomoda que alguém diga que o homem grávido não tenha feito uso apropriado da exposição na mídia quando a sua própria imagem era exposição suficiente para a nossa sociedade ocidental cristã e conservadora. Aliás, será que ela mesma usou a imagem dele de forma apropriada? Será que conversou sobre isso sobre quem não sabe nada do assunto, orientou, combateu algum preconceito? Ou ficou só repetindo o quanto odeia o homem grávido que não fez nada (!) pela causa LGBT?

Pimenta nos olhos dos outros é refresco.