Dia 222: Chimamanda Adichie

Na sexta-feira eu cheguei à aula da minha professora favorita atrasada, para ser avisada em seguida pelos meus colegas que havia perdido um vídeo que iria gostar de assistir. Já estavam debatendo e eu pude entender por cima do que se tratava. Anotei o nome do vídeo pra ver depois.

Em seguida, ao abrir o Google Reader, percebi que o Feministe tinha publicado exatamente o mesmo vídeo no dia anterior. Das duas, uma: ou isso foi uma extrema coincidência, visto que não se trata de um vídeo tão recente (foi postado em outubro de 2009), ou a minha professora lê o Feministe. Imaginem minha felicidade ao pensar nessa hipótese. Sei lá, nunca tinha passado pela minha cabeça.

Enfim, o tal vídeo* se trata de um discurso dado pela escritora Chimamanda Adichie no TEDGlobal 2009. Ela fala sobre a nossa visão estereotipada dos diversos grupos com que convivemos, causada por aquelas histórias únicas que a gente ouve incessantemente.

Eu enrolei demais pra postar isso aqui porque queria escrever um texto sobre várias coisas e situações que o vídeo me lembrou. Mas aí percebi que ia ficar muito longo, muito confuso e iria eventualmente sair do tópico. E que eu vou acabar entrando em assuntos tão delicados, que é melhor ir com calma. Eu ainda vou escrever, juro. Por hora, vejam o vídeo, porque são 20 minutos que valem a pena.

*Eu incorporei uma versão do YouTube no post porque tive problemas pra colocar o vídeo original, mas no site é possível ver o vídeo com legendas.

Dia 182: O post que era pra ser a parte II do dia 178 e um pouco mais

Aí eu abandono o blog como se não tivesse prometido que escreveria todo dia, né? É. Mea culpa.

Melhor ainda é que eu vou tocar no assunto mais ‘last week’ possível: Oscar. Não, gente. Não é o de 2011. Eu ainda tô no de 2010, calma.

Primeiro, obviamente: Bigelow! Tá, um monte de gente já jogou areia na minha comemoração. Disseram coisas pertinentes, como o fato de a academia ter dado preferência a um filme de guerra porque corresponde à política americana e à visão conservadora da Academia. Não vou opinar. Acredito em todo mundo dizendo que é um filme que favorece os EUA, mas simplesmente não vou dar pitaco porque, bem, ainda não assisti.

Também disseram que é bobagem comemorar a vitória de um filme simplesmente porque a diretora é mulher, sendo que o próprio filme não tem personagens femininas; a única seria a esposa que fica em casa sofrendo. Sobre isso, acho que a Mary W. já falou bem: “Não é uma luta pra premiar filme feminista. É apenas para que homens e mulheres tenham condições de igualdade na carreira.

Foi isso que a gente comemorou. Não foi o fato de terem esquecido que mulheres também vão e morrem no Iraque, nem o fato de que a gente gosta de ver os EUA brincando de explodir o Oriente Médio.

Mas falemos sobre coisas mais alegres. A cerimônia, por exemplo. NOT! Vi um monte de gente reclamando que estava chato pra caramba. Gente, é Oscar! É CHATO PRA CARAMBA! Bom, pelo menos pra mim. Formalidade é formalidade. Vai ter sempre aquele mimimi. Eu só ignoro e fico olhando pras caras, roupas e cabelos e xingando os malditos prêmios que nunca saem pra quem eu torço.

Mentira, esse ano eu acertei um número até bom. À exceção da marmelada-mor: Sandra Bullock. Gente, não. Ela é Miss Simpatia pra sempre. Não é Oscar. Oscar é Meryl Streep levando um chá de cadeira de 16 anos. Façam-me o favor.

O que me deixou sorrindo de orelha a orelha foi o Christoph Waltz ter ganhado como ator coadjuvante. Já era óbvio, mas eu comemorei e acordei todos os vizinhos. Foi o primeiro prêmio da noite e pronto. Acabou. Bastardos não levou NADA. Puta desaforo. Paguei a minha reza contra o Avatar com a derrota do Tarantino. Foi caro, hein? E eu, que era Team Basterds, fiquei quietinha pelo resto da noite. Bem, até a Bigelow.

As musas da noite: Mo’Nique (que fez um bando de marmanjos inundar minha timeline com choro), Kate Winslet e Queen Latifah. E a Maggie Gyllenhaal, que tava com cara de quem não dormiu, mas eu simpatizo com ela.

Bode da noite: George Clooney.

A noite inteira com essa cara. Depois vieram ‘explicar’. Dizem que era uma piada com não sei quem. Senta lá, vai Clooney. Que a Rozzana me desculpe, mas ainda bem que não levou nada. Menino malcriado!

Aí, mudando de pato pra ganso, vamos falar de outro dourado. [Trocadalhos do carilho!]

Eu já nem estou levando os comentários do Twitter a sério, porque, se depois das tentativas da Susan e do AmbulatórioTV de mostrar as incoerências do sujeito em vídeos bem for dummies, ainda existe essa torcida animalesca, quem sou eu pra tentar dissuadir alguém?

Mas vou já dizer umas coisas porque andaram me xingando de ‘preconceituosa’ e ‘hipócrita’. Sim, eu tenho preconceitos, como qualquer ser criado nessa sociedadezinha cretina. O que obviamente não quer dizer que eu vá me desculpar retuitando qualquer frasezinha de efeito que jogarem na minha timeline. Meus preconceitos eu tento combater.

Não desculpo o Dourado de maneira alguma com essa alegaçãozinha chinfrim de ignorância. Ele é um homem de 37 anos, com formação superior, que, segundo os próprios pais, conviveu a vida inteira com homossexuais. Aliás, esse último ‘fato’ vem sendo usado largamente pela família pra dizer que ele não é homofóbico. Não façam isso, vá. Tá só piorando. Argumento do tipo ‘eu até tenho um amigo gay!’ é a coisa mais queima-filme no mundo LGBT. E nem vou lembrar o episódio ‘viado’. Fala por si.

E dizer que Michel e Serginho também já fizeram menção a violência contra mulher não livra a cara do bonito. Só bota os outros dois na lama junto.

E pronto. Chega. Não vou mais falar disso. Já deu.

Pra melhorar o humor do post, vou encerrar com GaGa! Porque ontem o novo clipe dela se espalhou como vírus! E, olha, ela é genial! Clipe cheio de referências. Warhol, Tarantino, Thelma e Louise, até um look meio Madonna. Conseguiu deixar até a Beyoncé interessante.

Dia 174: Ra-ra-ah-ah-ah rama-ramama ga-ga-oh-la-lah

Daí que eu não presto pra informar quais são as últimas tendências pop musicais. Não ouço rádio e só há pouco tempo readquiri o hábito de assistir TV. Não gosto da maior parte do que ouço por aí e, quando gosto de alguma música, demoro meses até descobrir, por acidente, quem canta. Tempo suficiente pra todo mundo já estar saturado e me olhar com cara de ‘this is so last week!’.

Foi assim com a Lady GaGa. Eu simpatizei com ela de início, mas pelo visual louco e pelo modo como as pessoas torciam os lábios à menção dela. Achava engraçado e comecei a ver como um tendência Madonna. Né, as duas são ousadas, dançam bem (coisa que eu descobri só agora) e têm, caham!, sangue italiano – desculpa, eu tinha que gabar.

Mas nunca tinha tido curiosidade de saber o que ela cantava. Tá, eu sabia que ela cantava uma tal de ‘Poker Face’, que eu até sabia um verso, e a tal da ‘Bad Romance’ que todo mundo falava. Mas daí a procurar, pô, vocês pedem muito.

Nessa semana à toa em BH, com o tempo sobrando, fiquei baixando músicas e resolvi finalmente baixar esses raios de álbuns que eu via em todo lugar. E acabei descobrindo, pra variar, que eu gostava já das músicas dela, de ouvir por aí, e nem imaginava.

Gosto do tipo de música dela. Alegre, que dá vontade de dançar. Não que eu dance, mas gosto que dê vontade. Enfim.

Então, se você é um Hugo da vida que só quer saber de ouvir Nelson Gonçalves, aconselho fortemente a dar uma chance.

Obs.: Prepare-se pra cantar isso durante o fim de semana inteiro.

Dia 166: De Costas para o Mundo

Anteontem eu terminei de ler ‘De Costas para o Mundo’, de Åsne Seierstad.

Quis ler por: 1. ter gostado de ‘O Livreiro de Cabul’ – embora eu ainda não tenha lido a resposta, ‘Eu Sou o Livreiro de Cabul’, que é fundamental para eu ter uma visão mais definida do livro; e 2. minha (não tão) recém-adquirida eslavofilia pediu.

Seierstad é jornalista. Por ser correspondente de guerra, tem uma boa experiência no Oriente Médio e nos Bálcãs. Em 1999, foi para a Sérvia cobrir os conflitos com o Kosovo, onde entrevistou e observou uma série de pessoas, bastante diversas, sobre os seus pontos de vista com relação à guerra, como afetava suas vidas, suas esperanças, etc. O resultado disso foi publicado na Noruega em 2000.

Seierstad continuou visitando-os em momentos chave para a Sérvia, como a derrota de Milosevic para Kostunica e sua consequente prisão. O livro foi expandido em 2004.

‘De Costas para o Mundo’ se trata basicamente disso. Pessoas diferentes e o impacto que a guerra e a troca de regimes teve na vida delas. A visão da jornalista não escapa de ser ocidental, fica implícita uma certa ironia ou piedade em determinados momentos.

A coisa mais curiosa foi a música que ela gravou com o cantor Rambo Amadeus! Ele disse que só faria parte do livro dela se ela participasse de um CD dele. Feito. Ela gravou uma música tradicional norueguesa que havia cantado pra ele tempos antes, ‘Eg rodde meg ut på seiegrunnen‘. Isso foi obviamente misturado com uma pá de coisas até render a versão final, a Laganese. Como eu não entendo sérvio e min norsk er dritt, é melhor a própria explicar:

Canto “Eg rodde meg ut på seiegrunnen” em diferentes versões. Alto, baixo, alegre, sombrio, devagar, rápido.

– Me conte uma história sobre um farol que se apaixona por uma plataforma de petróleo – pede Rambo. E engreno numa história bem incoerente em norueguês. Depois me pedem para interpretar os dois pescadores da música. Primeiro o irritado, o que bate, e depois a vítima, o que apanha.

[…]

Para os meus ouvidos a música soa como a coisa mais kitsch que já ouvi. Minha canção de pesca é acompanhada por gritos de gaivotas e barulho de ondas, e acrescentam a história da plataforma e do farol e a luta entre os pescadores. A minha voz está misturada à de Rambo, que tenta estabelecer contato. “Você é estrangeira? Da Hungria? Inglaterra? Não quer falar comigo?” Eu apenas continuo cantando e contando histórias. (pp. 349-350)

Outra curiosidade é que uma das mulheres que aparecem no livro é citada assistindo uma novela brasileira. Escrava Isaura, talvez?

Seierstad diz que a impressão que ela tem dos países balcânicos é que eles sempre se veem como vítimas. Nunca admitem que começaram qualquer guerra, sempre jogam a culpa uns nos outros. Isso fica evidente na fala dos personagens durante todo o livro. E achei engraçado, porque a minha música favorita do Bleiburg, Krizni Put, tem a mesma postura; “pobre Croácia”.

Não tenho nenhum grande conhecimento sobre a Sérvia para avaliar se o livro é justo. Até agora, também ninguém escreveu uma resposta, como fez o livreiro afegão. O que posso dizer é que é entretenimento misturado à geopolítica. Pra tarados por Europa como eu, prato cheio.

.

SEIERSTAD, Åsne. De costas para o mundo: retratos da Sérvia. Rio de Janeiro: Record, 2007. 366 p.

Esse livro veio coroar a minha (não tão) recém-adquirida eslavofilia

Dia 162: BBB: Dourado: Caso de MP

Este é o tão falado e polêmico vídeo em que o Dourado insinua que ‘quebraria os dedos’ da Morango caso as circunstâncias fossem outras. Isso ocorreu no dia 17, se não me engano, e só hoje o vídeo caiu no YouTube, de onde foi deletado inúmeras vezes – por quê?, se a tal ‘Máfia Dourada’ tá dizendo por aí que quem não deve, não teme? -, até alguém transferir para o Dailymotion.

O Ministério Público está recebendo denúncias contra o Dourado por ‘Incitação ao Crime’ (CP, art. 286), após o ocorrido.

Este assunto tem me cansado enormemente, porque o pessoal já levou pro lado do fanatismo e se esqueceu do bom-senso. Eu tenho lido todas as argumentações pró-Dourado que encontro, porque não quero cair no erro de ignorar fatores importantes, mas de fato não encontro nada que justifique sua defesa. Ao meu ver, ele é, sim, culpado de homofobia (em outras situações) e incitação à violência.

Quando o vídeo começou a correr, correu um calafrio na torcida do Dourado. Por um momento, eles se preocuparam. Em seguida, começaram a dizer que não há nada no vídeo que comprove incitação ao crime e que ele teria apenas ‘sugerido, em um momento de raiva’, bater na Angélica caso ela fosse homem.

Atenção ao grifo, pois ele é importante. Alegar que ele não bateria na Morango porque ela é mulher não anula a incitação. Violência é crime em qualquer dos casos, independendo do sexo do agressor ou do agredido. A acusação de incitação não vem pela ‘ameaça’ contra a guria, e sim por ele ter defendido esta postura como solução para um problema.

No vídeo, o Dourado diz que um homem não apontaria o dedo na cara de outro por saber que “teria volta” e justifica sua não-agressão mostrando que: 1. a Morango é mulher, e ele não bate em mulher – sendo que ele já tinha declarado que bateria em qualquer pessoa, homem ou mulher, que ‘chegasse’ na sua namorada; e 2. porque ele está dentro do programa e seria expulso se o fizesse. Ou seja, sendo as circunstâncias outras, ele não teria problema algum em levar a agressão adiante.

Por fim, a alegação de que era um momento de raiva também é delicada. Porque, num momento de raiva, longe das câmeras, ele também poderia ter explodido além das palavras, como ele mesmo insinuou.

De verdade, não tenho esperanças de que o Dourado não vá ganhar essa edição. Já está decidido pelo público, incentivado que foi pela emissora. Resta esperar que o MP preste atenção ao caso e tome as medidas cabíveis, caso entendam que há fundamento nas denúncias. O que não pode é a Globo fingir que não aconteceu, tentar apagar as provas e apresentá-lo como bom moço.